Presidentes entre o Público e o Privado

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PRESIDENTES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

PRESIDENTES ENTRE O PÚBLICO E O PRIVADO

MinervaCoimbra

TEXTO DA PRESIDENTE DA CÂMARA

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presidentes entre o público e privado

fátima ramos Presidente da Câmara Municipal de Miranda do Corvo

TEXTO ENG. CARLOS FERREIRA

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presidentes entre o público e privado

carlos ferreira Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Centenário da República em Miranda do Corvo

INTRODUÇÃO

Quando se fala em Presidentes da República, a imagem que primeiramente nos chega à mente é a de alguém eleito pelos cidadãos ou pelos seus representantes para exercer o cargo de mais alta autoridade de uma República, ou seja, do homem público que dá, ou tenta dar, cumprimento às exigências das suas elevadas funções, desempenhando tal incumbência num campo de acção vulgarmente chamado de «esfera oficial». Fixados nesta imagem, mais devagar nos lembramos que estes homens têm, também eles, uma vida particular – dimensão a que podemos chamar «esfera privada» – com vivências marcadas por acontecimentos, emoções, afectividades sucessos, insucessos…, enfim, um tempo e um espaço menos visíveis, de onde, naturalmente, resultam consequências que, não raro, invadem e condicionam a chamada «esfera oficial». Sendo certo que falamos de seres humanos que se tornaram históricos, a busca dessa historicidade (heurística e hermenêutica) obriga a uma percepção e a uma interpretação globais. Por outras palavras, obriga a percepcionar e a entender esses vultos num contexto da somatória das suas vidas públicas e privadas. À luz desse inapelável critério, exigível se torna, na elaboração de um exercício historiográfico centrado em tais figuras, a abordagem de aspectos das suas vidas particulares, especialmente aspectos que, no sentido e fins apontados, mais relevantes se mostrarem. Tanto mais assim quanto mais aceitarmos como bom o pensamento de Martin Heidegger, designadamente a sua afirmação de que os homens só são verdadeiramente eles próprios quando situados na «esfera privada». Ora vem tudo isto a propósito de justificar e dar sentido e oportunidade ao aparecimento deste livro, empreendimento cujos primeiros passos tomaram lugar no seio da Associação Cultural Alternativa, mediante ideia apresentada e proposta pelo Professor Doutor Amadeu José de Figueiredo Carvalho Homem. Tratava-se de formar um grupo de investigação que se debruçasse sobre questões, episódios e passos, historicamente relevantes, da vida privada de todos os presidentes da nossa Primeira República e tratar historiograficamente toda essa informação, sem descurar a dimensão pública e oficial das entidades em questão e relacionando os dois planos (privado e público) de forma a proporcionar, quanto aos vultos em apreciação, uma visão e uma compreensão mais alargadas e, consequentemente, mais próximas da verdade

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histórica. Extravasando o âmbito da Alternativa, o projecto foi depois também abraçado pelo Movimento Cívico para as Comemorações do Centenário da República em Coimbra. Aproveitando do poeta apenas aquilo que à nossa realidade se ajusta, diríamos: “O Homem sonha, a Obra nasce”. E assim foi, de facto: organizou-se o grupo de investigação – sete pessoas para sete presidentes – definiram-se algumas regras e a obra, mais hesitante acolá, mais desembaraçada além, começou a surgir. Despontaram, todavia, algumas dificuldades, facto já esperado e que não constituiu surpresa. Sabia-se, logo à partida, que isto de investigar vidas privadas não é tarefa fácil e não o é justamente pela privacidade ou natural impermeabilidade de que as mesmas vidas se rodeiam. De notar, porém, que este é um aspecto que varia de pessoa para pessoa, consoante recatos ou ostentações e acontecimentos ou ausência deles, dependendo ainda do génio, engenho e volições da pessoa em causa, seus círculos de amigos, constância e ecos das suas vivências e convivências sociais, enfim, de um sem-número, bem diversificado, de factores. Com os Presidentes assim é também e daí que com a vida de uns se possa encher páginas e páginas de livros e com a de outros se tenha que ficar bastante mais aquém. E também não deixa de ser verdade, nomeadamente no caso ora em apreço, que não é possível estabelecer limites rigorosos entre as vidas privadas e as vidas públicas, acabando por se verificar entre as duas áreas uma interpenetração que, decerto, as enriquece e que justifica, neste trabalho, incursões de uma forma equitativa, na vida oficial de cada um dos presidentes biografados. Sete são as figuras aqui retratadas, oito os mandatos presidenciais que as mesmas protagonizaram. Actores principais, ou mais visíveis, de uma intriga dramática desenrolada um palco impetuoso, constantemente invadido por muitos e diferentes actores. Actores que, contracenando, são todos eles intérpretes de uma arte mais sentida que estudada, em tradução continuada de incertezas e efemeridades que o tempo, sempre esse artífice, acabaria por confirmar. Na perscrutação deste espectáculo, feita ao longo das páginas que se seguem, o espectador não se queda pelo proscénio, antes, e preferencialmente, vai até aos bastidores. A obra que ora se apresenta provém, como não podia deixar de ser, de um aturado esforço de investigação, direccionado para uma busca de informes, acontecimentos e histórias menos conhecidas, acerca das personagens retratadas. O resultado representa uma combinação entre a novidade e o já conhecido, muito embora este conhecimento se apresentasse de forma dispersa.

introdução

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Tudo contido numa delimitação temporal de 16 anos ou, dito de outra forma, no tempo de vigência da nossa Primeira República, período que, como se sabe, não constitui uma longa duração histórica, mas um lapso de tempo em que os homens fizeram história a uma cadência torrencial, encarada aqui a história à luz da concepção hegeliana que a define como movimento social humano orientado para o progresso. Do ponto de vista da mera observação e apreciação dos factos, este tempo representa, iniludivelmente, um ciclo carregado de intensa historicidade, do qual há ensinamentos e ilações a tirar, facto que remete para a ideia de que a História sempre tem uma dimensão moral (historia magistra vitae est) ou que a Moral se perfaz em factos históricos. A esta luz, é justo dizer-se que a nossa Segunda República, ou seja, aquela que nasce com a alvorada libertadora de Abril de 1974, muito aprendeu e alguns erros evitou a partir da experiência colhida e proporcionada pela sua antecessora. Outros erros não conseguiu, nem consegue, a Segunda República, porém, evitar. Todavia, a responsabilidade não poderá ser atribuída ao regime porque toda essa ganga perniciosa e dolorosa aparece, afinal, como uma fatalidade que encontra abrigo permanente na incoercível inconsequência humana: a permanente anti-saga dos homens, lobos dos outros homens, pervertendo o normal funcionamento de um Estado de Direito que, desta forma, sobrevém como estrutura burocrática e opressiva, ao serviço de alguns daqueles lobos. O progresso civilizacional faz-se de avanços e de recuos, acontecendo, por vezes, que estes últimos nos aproximam, de novo, da selva e da barbárie, muito embora estas se revistam de cores e formas diferentes. Foi, pois, sob um firmamento onde brilham todas estas constelações e sob a influência das mesmas se desenvolveram os esforços tendentes ao aparecimento público deste livro. Sentimos que ele tem espaço próprio, assentidamente por não haver editada, tanto quanto se sabe, uma outra obra que retrate e interprete as vidas particulares dos Presidentes da nossa Primeira República. Como se disse, os homens somente são entendíveis no seu todo, razão porque a memória dos que se notabilizaram deve ser apreciada e preservada nessa justa dimensão. Assim sendo, o aparecimento desta obra vem, em nosso modesto entender, preencher uma lacuna, na medida em que junta aos saberes já divulgados, um outro conhecimento de natureza mais reservada e, consequentemente, menos tratado e menos sabido. E porque esse conhecimento é, pressupostamente, de interesse e de utilidade para todos os que, por gosto ou por obrigação ou ainda por ambas as razões, se dedicam ao estudo da História, atrevemo-nos, humildemente,

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a afirmar que esta é uma obra que fazia falta no panorama da historiografia portuguesa. O livro aí está, pois, ainda em tempo oficial de comemorações do Primeiro Centenário da Implantação da República em Portugal. Do seu conteúdo, os leitores serão os melhores juízes.

fernando mendonça fava

Manuel de Arriaga (Museu da Presidência da República)

Alexandra Silva Doutoranda em História da Cultura pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e bolseira da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

M

anuel José de Arriaga Brum da Silveira e Peyrelongue nasceu na cidade da Horta a 8 de Julho de 1840 e foi um dos seis filhos do casamento entre Maria Cristina Pardal Ramos Caldeira, lisboeta oriunda de nobre linhagem, e o açoriano Sebastião José de Arriaga Brum da Silveira, descendente de famílias flamengas que se fixaram na Ilha do Faial. Todo o pensamento, acção política e obra poética do primeiro Presidente da República Portuguesa estão intimamente relacionados com as suas origens da cidade da Horta, pois mantém sempre, em todos aqueles planos da sua existência, as marcas de “uma certa insularidade”1. Na Casa do Arco, na Ilha do Faial, passou “os mais deleitosos dias da meninice”2 em convívio íntimo com a Natureza. Cresceu com os seus irmãos, educados por uma preceptora americana que o viria a tornar um “primoroso cultor da língua inglesa”3. Naquela época, a família de Manuel de Arriaga frequentava o Teatro Faialense, fazia passeios de carro e convivia com as pessoas de sua amizade, participando em bailes e serões, onde se tocava música, declamava poesia e se discutiam os assuntos da política nacional e local4, como era então costume das famílias abastadas.

1

Medina, João – “Manuel de Arriaga, «O Rei Lear da República»”. In: Matos, Sérgio Campos (coord.) – O Tempo de Manuel de Arriaga / Actas do Colóquio organizado pelo Centro de História da Universidade de Lisboa e pela Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta. Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa/Associação dos Antigos Alunos do liceu da Horta, 2004, pp. 137-151. 2

Arriaga, Manuel de, Cantos Sagrados [em linha] Projecto Gutenberg [Março de 2009] disponível em http://www.gutenberg.org/etext/22299,p. 72. 3

Cf. Serrão, Joaquim Veríssimo – História de Portugal. A Primeira República (1910-1926) – História política, religiosa, militar e Ultramarina. Lisboa: Editorial Verbo, 1989, p. 99. 4

Cf. Freitas, Joana Gaspar – Manuel de Arriaga: história de um açoriano que chegou a Presidente da República. Faial: Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 2005, p. 17.

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A casa onde nasceu Manuel de Arriaga, em avançado estado de deterioração, com projecto de recuperação no âmbito das Comemorações do Centenário da República, 2010-2011. In “Guilhermina Suggia” [em linha] Junho de 2009. Disponível em http://suggia.weblog.com.pt/arquivo/252646.html

No ano de 1860, o futuro Presidente da República acabaria por deixar as ilhas para frequentar a Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, numa altura em que começavam a fervilhar as ideias positivistas e a propaganda republicana na cidade dos estudantes. Foi aqui, na Universidade de Coimbra, que começou a manifestar simpatia pelo ideário republicano, o que provocou um afastamento irreparável do seu pai, que o deserdou e lhe deixou de suportar os estudos. A partir dessa altura o jovem estudante teve de passar a sustentar-se, exercendo a actividade de professor liceal enquanto prosseguia os seus estudos. Integrado no espírito académico da época, envolveu-se na boémia coimbrã, entre fados e sebentas e festas revestidas de uma certa aura de mistério. Destas, foram particularmente afamadas as que se celebraram em nome do mitológico e onírico deus Pan, nas quais os estudantes entoavam cânticos e bebiam desregradamente, para “grande escândalo do beatério, dos lentes da Universidade e da maioria da academia estudiosa”5.

5

Antero de Quental: In Memoriam (edição fac-similada). Lisboa: Editorial Presença, Casa dos Açores, 1994, p. 102.

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Na cidade dos estudantes viveu no Beco das Flores e fazia de suas segundas casas a estalagem do Paço do Conde e a tasca da Tia Camila6. Partilhou aposentos com o seu conterrâneo Antero de Quental, com experiências relatadas e depois reduzidas a escrito, aí se dizendo que “pela noite dentro, os moços liam livros que vinham do estrangeiro e que continham ideias novas e revolucionárias, capazes de abalar os espíritos conservadores da sociedade portuguesa da época” 7. Antero de Quental e Arriaga viriam a ser bons amigos e mais tarde tornar-se-iam visita de casa um do outro8. Nesses encontros Antero recitava os seus poemas para a família do amigo e ouvia também alguns dos poemas deste. Também era comum fazerem passeios pelos arredores de Coimbra, nomeadamente até à Figueira da Foz, Buçaco, Senhor da Serra ou Lousã9. A sua fisionomia, herdada da sua origem flamenga, revelou sempre uma catadura sisuda, semblante por vezes carregado, mas, ao mesmo, tempo de uma aparência apaziguadora. Camilo Castelo Branco descrevia-o como “um moço muito galante de longas madeixas louras encalamistradas, com uns olhos amortecidos de suavidade virginal de luneta de ouro, a fronte espaciada e a refrangir lampejos siderais e o ouvido atento à harmonia das esferas”. Relembra ainda que Arriaga tinha por alcunha, em Coimbra, “O Cristo Revolucionário” ou “Cristo dos republicanos” pois “falava parabolicamente e destilava pelo lábio bálsamos inefáveis sobre as chagas humanas”10. Em Coimbra sempre fora conhecido por se vestir primorosamente. O homem de pêra e cabeleira branca aparecia sempre com bom porte, usando sobrecasaca e cartola, sempre com a sua luneta, seguindo os padrões internacionais, onde a moda francesa dominava. Também sobre o seu aspecto físico, em 1882, Ramalho Ortigão, no Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro, descrevera-o como um “brâmane de cabelos louros e olhos azuis”, sonhador de uma República

6

Branco, Camilo Castelo – Serões de São Miguel de Ceide: crónica mensal de literatura amena: novelas, polémica mansa, crítica suave dos maus livros e dos maus costumes. Porto: Lello & Irmão, 1980, p. 126. 7

Antero de Quental: In Memoriam… p. 126.

8

Ibidem, p. 107.

9

Cf. Freitas, Joana Gaspar – Ob. Cit., p. 26.

10

Castelo-Branco, Camilo – Ob. Cit., p. 12.

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que fosse “escola, oficina, museu, jardim” sem “ódios, nem mais invejas, nem mais intrigas, nem mais fomes”11. Durante a vida académica manteve estreitas relações de amizade com algumas famílias históricas como os Silva Gaio e conviveu com os “espíritos mais cultos da época”12. Privou com alguns dos mais célebres pensadores e escritores do século como Antero do Quental, Teófilo Braga, Eça de Queiroz ou os colegas de Faculdade João Machado de Faria e Anselmo de Andrade, “rapazes cheios de ideais e audácia”13 e ainda com algumas das personalidades mais distintas entre os lentes da Universidade, como António de Carvalho ou Silva Gaio, pessoas que lhe foram oferecendo formas de pensar e de ver o mundo. Por essa altura os jovens estudantes liam Fourier, Saint-Simon, Proudhon, Quinet, Michelet, Comte14, Littré ou Renan, autores estes que foram frequentemente aludidos nas suas obras pessoais. Debruçar-se-iam ainda sobre o pensamento de alguns economistas como Bastiat, Jean Baptiste Say, Malthus e Adam Smith ou filósofos alemães como Schopenhauer, Kant ou Hegel15, “cujos ideais de justiça e de amor nos conquistaram e nos acompanharão até á morte”, segundo as palavras do próprio Arriaga16. Notam-se também influências dos pensadores da revolução francesa como Condorcet, Diderot, Montesquieu, Rousseau ou Voltaire e de naturalistas como Darwin ou Haeckel, Michelet, Victor Hugo e Lamartine17.

11

Ramalho, Ortigão – “Álbum das Glórias de Rafael Bordalo Pinheiro”, 1882 apud Serra, João B. – Manuel de Arriaga: uma biografia política. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, p. 39.

12

Idem, Ibidem, p. 61.

13

Idem, Ibidem, p. 64.

14

Tem-se discutido sobre o positivismo de Arriaga embora Comte não seja por ele frequentemente citado; a ele se dirige como mestre das ciências humanas. Cf. Cunha, Norberto Ferreira, “O positivismo comteano de Manuel de Arriaga” in Matos, Sérgio Campos – Ob. Cit., pp. 229-268. Sobre a relação de Manuel de Arriaga com os positivistas portugueses veja-se ainda Matos, Sérgio Campos – “Estudo introdutório”. In Correspondência política de Manuel de Arriaga, Lisboa, Livros Horizonte, 2004, pp. 18-20 onde defende que “fascinado pelo cientismo, nunca foi, todavia, adepto da cartilha positivista”.

15

Freitas, Joana Gaspar – Manuel de Arriaga: história de um açoriano…, p. 18.

16

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 61.

17

Freitas, Joana Gaspar – “Ecos do pensamento europeu no ideário social e político de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., p. 309

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Os jovens amigos tinham por hábito fazer circular as obras entre si: “Vivia-se num período áureo dos primeiros poetas, oradores e filósofos do século. As suas obras andavam nas mãos de todos nós”18. Entre os seus poetas preferidos constavam Camões, João de Deus e Victor Hugo ou Byron, este último um dos predilectos de Arriaga, considerado “dos poetas da nossa meninice o mais festejado e glorioso”19. Também era um fervoroso leitor das obras de autores portugueses, então em voga, como Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoais ou Raul Brandão. Num tempo em que a cultura portuguesa conhecia um momento de grande vitalidade com o aparecimento de inúmeros círculos culturais e com o desenvolvimento do conhecimento científico, abraçando as tendências modernas em divulgação na Europa, Arriaga acompanhou o movimento literário e o desenvolvimento da imprensa, que naqueles anos conheceu uma ampla divulgação, e foi um permanente colaborador em várias publicações periódicas, fazendo, pois, parte da camada intelectual que então se afirmava em Portugal. A sua contribuição em diversos jornais da época, com textos de mais variada índole, comprova o seu gosto pelas letras. Juntamente com os colegas de Coimbra lançou projectos de jornalismo periódico, colaborando como poeta em A República – Jornal da Democracia Portuguesa, fundado por Oliveira Martins, Antero de Quental e José Fontana, e ainda no semanário República Portuguesa (ao lado de nomes como Álvaro de Mendonça, Almeida Ribeiro, Magalhães Lima, Alves Morais, Lopes de Melo, Silva Pinto ou Albano Coutinho). Publicou também textos em vários jornais, um pouco por todo o país, como o ABC e o Beira-Mar e foi colaborador frequente da revista ilustrada O Ocidente (publicada em Lisboa entre 1878 e 1915) e da revista quinzenal Passatempo, publicada também em Lisboa entre 1900 e 1904. Escreveu no semanário independente A Praia de Algés e no único jornal francês em Portugal na época, La Revue de Portugal. Publicou ainda poemas na revista Prosa e Verso (entre 20 de Agosto de 1913 e 20 de Janeiro de 1914). Em Coimbra, concluiu o Curso de Direito com louvor e distinção, tendo-lhe sido, desde cedo, assinaladas notáveis capacidades de eloquência, oratória e talento, competências que lhe proporcionariam frequentes convites para dissertar sobre questões de política nacional e internacional. Muita da icono-

18

Antero de Quental: In Memoriam…, p. 95.

19

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados…, p. 72.

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grafia da época, que representa Manuel de Arriaga, atesta precisamente esses seus predicados, fazendo-o aparecer como homem entusiasmado ao discursar, gesticulando fervorosamente e com jeito altivo20.

Arriaga discursando durante um comício republicano na Avenida D. Amélia, em Lisboa, em 1907. In Matos, Sérgio Campos, Ob. Cit.

Feita, pois, a sua licenciatura, partiu então para Lisboa, para iniciar uma nova fase da sua vida, onde abriu um gabinete de advogado21. Altamente reconhecido nos meios académicos, intelectuais e da advocacia, neste particular chamavam-lhe o “advogado do povo”22 pois que, frequentemente, representava os mais carenciados em tribunal. Pela análise da sua correspon-

20

Sobre as representações de Arriaga, na iconografia, veja-se Vicente, António Pedro – “Iconografia da república/Imagem de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 191-196. 21

Veja-se Ferreira, Mónica Veloso – “Manuel de Arriaga jurista”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 215-227.

22

Freitas, Joana Gaspar – Manuel de Arriaga: história de um açoriano, p. 63.

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dência pode-se saber que viveu no Largo do Pelourinho e mais tarde na Rua Nova do Almada, local este onde veio a estabelecer o seu escritório. É por esses anos que a sua dedicação à vida intelectual e às letras mais se manifesta, destacando-se as obras científicas, poéticas e filosóficas que publicou. Na sua qualidade de relator do Congresso Jurídico de 1889, celebrado na Academia Real das Ciências, redigiu e apresentou o respectivo Relatório, com o título Tese – O sistema penitenciário, quando exclusivo e único, abrangerá os fenómenos mais importantes da criminalidade, e não os abrangendo, converter-se-á, numa instituição contraproducente e nefasta?( grafia actualizada). Este Relatório foi publicado nesse mesmo ano de 1889. Por outro lado, escreveu obras de carácter económico-social como Sobre a Unidade da Família Humana debaixo do Ponto de Vista Económico. Merecem especial realce as suas produções de carácter poético-filosófico como Contos Sagrados, Irradiações e Harmonias Sociais, constituídas por poesias dispersas, ensaios e fragmentos, poemas heróicos de tendência romântica e naturalista, glorificando os triunfos da Humanidade. Nesses escritos pode detectar-se a tendência nacionalista que em finais do século XIX marcou a literatura portuguesa23, consubstanciando o gosto pelos valores e paisagens tipicamente portugueses, encanto pelo pitoresco e pelo campo, praias e pela natureza em geral, a par de uma certa aproximação à cultura religiosa e aos seus rituais. Algumas das suas criações sobre a história nacional indiciam um pensamento histórico que vai no sentido de observar e entender o passado para assim melhor compreender o presente e buscar soluções para o futuro. Arriaga, ele próprio, se define como cultor “do Verdadeiro, do Bom, do Belo e do Justo, princípios de que depende o seu bem-estar individual e colectivo, a glorificação contínua e perpétua da Humanidade”24, enquanto Ideal Supremo25, e, nesse sentido, luzes e orientações para a sua actividade política. O texto Harmonia Sociais – o problema humano e a futura organização social (no debute da sua fase definitiva) – a paz dos povos, escrito em 1905/06 e publicado em 1907, é um tratado de filosofia social que o autor considerava

23

Cf. Marques, A. H. de Oliveira (1976) – História de Portugal. Lisboa: Palas Editores, Vol. II, p. 236.

24

Arriaga, Manuel de – Harmonias Sociais, – o problema humano e a futura organização social (no debute da sua fase definitiva). Coimbra: França Amado, 1907, p. 73.

25

Idem, ibidem, p. 178.

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ser a síntese dos estudos e reflexões que fizera ao longo dos últimos tempos, na qual evidenciava o ideal de uma “civilização humanitária, científica, de Democracia Universal”26. Nesse tratado abordou também temas e problemas religiosos e defendeu princípios de solidariedade social e de justiça humanitária, tais como a erradicação da fome, da sede e da prisão. Trata-se de uma obra essencialmente espiritualista, a partir da qual revela uma concepção positiva do homem.

Capa original da obra Cantos Sagrados, publicada em 1899. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Em Cantos Sagrados reuniu trinta anos de poesia religiosa e filosófica (escrita sensivelmente entre 1867 e 1897) mostrando aí uma intensa atracção pelo místico e pelo naturalismo, a par de uma visão purificadora e esperançosa na existência de um Homem Novo, incorrupto, sem ignomínia, senhor de uma perfeição transparente e inextinguível27. Nesses textos transparece o desejo intenso da criação de uma “humanidade nova”, na qual as forças sociais

26 27

Idem, Ibidem, p. 242.

Veja-se sobre isto Pimentel, Manuel Cândido – “O lugar do homem na reflexão de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 285-290.

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se equilibrassem de forma a resultar na total felicidade individual e colectiva. Trata-se, pois, de uma obra repleta de “utopismo filosófico-político”28. Dizia Arriaga que a escrita pela pena lhe irrompera “espontânea da alma” por volta de 1867 quando “as saudades de Coimbra e da nossa vida académica nos subjugaram a ponto de abandonarmos interesses já criados e estabelecermo-nos de novo na Luza Atenas!”29. Manteve, assim, uma ligação íntima com a cidade do Mondego, à qual regressaria em 1874 para leccionar e para casar com Lucrécia Augusta de Brito de Berredo Furtado de Melo, descendente, pelo lado paterno, de filha de famílias prestigiadas da Ilha do Pico e neta do superintendente da Guarda Real da Polícia do Porto, partidário das forças liberais. A cerimónia de casamento decorreu na Igreja do Mosteiro de Ganfei, próximo de Valença do Minho, onde o pai da noiva era general e governador da Praça. Juntos tiveram seis filhos e revelaram-se uma família bastante unida, demonstrando um grande sentido de protecção e educação dos seus descendentes, aspecto facilmente perceptível através da sua correspondência e pela leitura da sua poesia. D. Lucrécia foi uma Primeira-Dama essencialmente dedicada ao lar, conforme era hábito na época, embora se tenha mudado juntamente com a família para o Palácio de Belém. Com pouca presença nos meios públicos, a comemoração do segundo aniversário da República é uma das raras ocasiões em que participou em eventos públicos. Depois de Manuel de Arriaga deixar a presidência, colaborou ainda com a Cruzada das Mulheres Portuguesas30, em 1916. Arriaga foi também um cidadão socialmente activo e empenhado e o seu voluntarismo e solidariedade são visíveis quando observada a sua participação cívica em grupos e instituições de carácter político e cultural e em acções humanitárias. Este açoriano, ligado, intelectual e vivencialmente, à “Geração de 70”31, participou no “Cenáculo” e na “Sociedade do Raio” e subscreveu o manifesto de protesto contra o encerramento das “Conferências do

28

Idem, Ibidem, p. 290.

29

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados…, p. 72.

30

Organização criada a 20 de Março de 1916, por iniciativa de um grupo de mulheres, presidido por Elzira Dantas Machado, esposa do então Presidente da República, Bernardino Machado. Fundada para prestar assistência moral e material aos que dela necessitassem por motivo da guerra com a Alemanha.

31

Veja-se Pires, António Machado – Ob. Cit., p. 29-40.

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Casino”, juntamente com nomes como Eça de Queiroz, Oliveira Martins ou Antero de Quental32. Todavia parecia afastar-se bastante da forma de estar de homens como Quental ou Queiroz, por divergências políticas e éticas, mas também por diferentes concepções poéticas e de visão do mundo. Ao que consta, foram até frequentes as divergências em tertúlias, que muito se faziam por aquela altura. Juntos faziam também passeios nocturnos e encontros na casa de Batalha Reis e Antero de Quental. Acerca desses círculos culturais, o próprio Manuel de Arriaga defenderia, no Projecto de Organização Definitiva do Partido Republicano (1882)33, que o clube ou centro, “enquanto associação de instrução e recreio e auxílio” se assumia como “a pedra angular, o organismo típico do Partido Republicano Português”34.

Primeira-Dama – Lucrécia de Brito Furtado de Melo Arriaga. Museu da Presidência da República [em linha] Abril de 2011. Disponível em http://www. museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

32

Cf. Matos, Sérgio Campos e Freitas, Joana Gaspar – Correspondência política de Manuel de Arriaga. Lisboa: Livros Horizonte, 2004, p. 12. 33

Veja-se sobre isto Leal, Ernesto Castro – “O campo político dos Partidos Republicanos (1910-1915) ”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 107-125.

34

Cf. Catroga, Fernando – Republicanismo em Portugal. Da Formação ao 5 de Outubro de 1910. Coimbra: FLUC, 1991, p. 22.

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Em 1903 publicou no jornal A Caridade, em número único editado na Figueira da Foz, o poema “Solidariedade, Lei Suprema dos Povos”, tendo as respectivas receitas revertido a favor dos famintos de Cabo Verde. Já como Presidente da República, na sequência da epidemia de tifo que grassou em Portugal, em 1912, visitou vários hospitais. Da sua imensa participação cívica e política, mencione-se ainda a sua integração na comissão de cidadãos que representaram o Centro Republicano Federal nas Comemorações do Tricentenário da Morte de Luís de Camões, em 1880 e o papel de destaque que teve na inauguração do Clube Henriques Nogueira, em 1881. Por outro lado, militou no GRES – Grupo Republicano de Estudos Sociais (1896)35, cujo manifesto apresentou juntamente com as assinaturas de Afonso Costa, Teófilo Braga, Brito Camacho, Guerra Junqueiro – “um grupo de homens dispostos a integrar as suas vistas particulares de remodelação económica, política e moral num conjunto coerente de reformas, que façam do futuro regime não uma obra efémera de declamadores inscientes, mas uma perdurável realidade social”36. Por tudo isto, se pode dizer que Arriaga foi “por sonho e por convicção de pensamento” um “profeta social”, crente “no processo da harmonização colectiva” e “na construção da vida social igualitária”37. De facto, renegando as soluções revolucionárias de inspiração socialista, que tanto entusiasmaram alguns dos seus contemporâneos, Manuel de Arriaga fez profissão de fé na força da Ciência e do Direito, como única forma de construir uma sociedade igualitária38, sob a defesa dos valores da “Verdade, do Amor e da Glória”39. O futuro presidente da República foi, assim, fazendo o seu percurso político com profundo empenhamento, revelando grandes capacidades de oratória, que lhe granjearam bastantes admiradores, ganhando fama os seus discursos,

35

Ventura, António – Anarquistas, republicanos e socialistas em Portugal: as convergências possíveis: 1892-1910. Lisboa: Edições Cosmos, 2000, pp. 23-25.

36

Machado, Fernão Botto em “O Grupo Republicano de Estudos Sociais”, Lisboa, 1896, apud Ventura, António – Ob. Cit, pp. 20-21.

37

Pimentel, Manuel Cândido – Ob. Cit., p. 290.

38

Luz, José Luís Brandão – “Filosofia e religiosidade na obra de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., p. 271.

39

Arriaga, Manuel de – Harmonias Sociais, p. 176

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vibrantes e inflamados40. Nos seus comícios, alocuções ou discussões fazia a apologia de uma sociedade mais justa, com menos privilegiados e com um maior e mais alargado ao ensino. Ele próprio esteve associado às iniciativas republicanas de ensino e de instrução, leccionando nas universidades livres ou populares41 e organizando cursos livres, conferências, leituras, palestras, concertos e visitas a museus, fábricas, exposições. Pertenceu à chamada “geração do Ultimato”42 e em consequência das manifestações patrióticas de 11 de Fevereiro de 1890, defenderia, nos tribunais, António José de Almeida, após este ter escrito, no jornal académico O Ultimatum, o artigo “Bragança, o Último”, contra a figura e a acção do rei D. Carlos. A partir de então nasceu uma grande amizade entre os dois homens43. O seu carácter ponderado contribuiu para que António José de Almeida, enquanto Ministro do Interior do Governo Provisório da República, o convidasse para a reitoria da Universidade de Coimbra, a fim de serenar alguma exaltação de ânimos, na sequência de incidentes entre jovens republicanos estudantes, imediatamente após o 5 de Outubro de 191044. Embora essa passagem pela Academia tivesse sido breve, desenvolveu aí uma assinalável acção reformista45, designadamente decretou como facultativo o uso da capa e batina, extinguiu alguns dos privilégios do foro académico46, propôs cursos de livre frequência, que contribuíram para o enriquecimento curricular, e propôs a não obrigatoriedade da inscrição académica e da compra de livros

40

Citando António José de Almeida apud Ventura, António – Ob. Cit., p. 330.

41

Veja-se Adão, Áurea – “Educação e ensino na acção política de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 197-213.

42

Teles, Basílio – Do Ultimatum ao 31 de Janeiro: esboço de história política. Lisboa: Portugália Editora, 1968. 43

Cf. Freitas, Joana – Ob. Cit., p. 64.

44

Serrão, Joaquim Veríssimo (1989) – História de Portugal – A primeira república (19101926) – História política, religiosa, militar e Ultramarina. Lisboa: Editorial Verbo, V. XII, p.320. 45

Veja-se Adão, Áurea – Ob. Cit. pp. 207- 212 e Rodrigues, Alice Correia Godinho – “Ideal republicano e reforma da Universidade de Coimbra”. In Revista de História e Teoria das Ideias. Coimbra: FLUC, 1985, vol. 7, pp. 313-333.

46

Idem, Ibidem, p. 208.

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na Imprensa da Universidade47. Fez ainda publicar o diploma que suprimiu o exame de Licenciatura e criou comissões especiais de lentes das diversas faculdades. Manuel de Arriaga previa mesmo a preparação de uma Reforma Geral do Ensino Superior, que todavia não concretizou por ter sido exonerado do cargo a 3 de Fevereiro de 191148. Essa curta experiência como reitor da Universidade de Coimbra, contribuiu para cimentar, ainda mais, as ligações com António José de Almeida, com quem haveria sempre de manter uma relação próxima, porém “nem sempre fácil”49. Assim, não admira que Manuel de Arriaga fosse, desde cedo, o candidato presidencial favorito de António José de Almeida, pese embora o facto de, por altura das primeiras eleições presidenciais, Arriaga fosse por muitos considerado já deveras diminuído no seu vigor físico e nas suas faculdades intelectuais50. Carlos Malheiro Dias, em 1911, qualificava-o desta forma: “um ancião de 70 anos pouco menos é do que um valetudinário, incapaz de intervir eficazmente por incapacidade física no grande, árduo e complexo problema político em que se debatem os destinos confusos da actual sociedade portuguesa”51. O próprio Arriaga referiu a sua decadência física e foi muitas vezes crítico de si próprio: “o tributo inalterável da minha gratidão, por confiardes num velho que pouco vale, mas que poderá muito com o vosso auxílio” – disse o primeiro Presidente Constitucional da República, no discurso de agradecimento da sua eleição52. Através de várias cartas – nomeadamente a que escreveu a João Chagas, encarregando-o de formar novo governo – consegue perceber-se a ansiedade, a impaciência e até alguma aflição que coloca na resolução dos problemas do país, questão que considerava ser uma “empresa sagrada” e pela qual nutria muito fervor e muita esperança. Nesse escrito, Manuel de Arriaga revela as

47

Idem, Ibidem, p. 209.

48

Idem, Ibidem, p. 211.

49

Pessoa, António Valério – “Manuel de Arriaga”. In Mascarenhas, João Mário; Telo, António José (coord. e org.) – A República e os seus Presidentes. Lisboa: Biblioteca Museu República e Resistência, p. 231. 50

Cf. Ferreira, David – História Política da Primeira República, Lisboa: Livros Horizonte, 1973, p.52.

51

Apud Medina – Ob Cit., p. 239.

52

Ferreira, David – Ob. Cit., pp. 59-60

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apreensões que sentia em relação à formação do primeiro governo constitucional da República, nisso manifestando alguma intranquilidade e falta de confiança em si próprio; em suma, um estado de espírito que, do ponto de vista político, não lhe era nada favorável. Terá mesmo apontado várias vezes a ideia de que o sufrágio do seu nome se tratava de um grave erro político, escrevendo a D. Lucrécia, sua esposa, que não era sua intenção envolver-se nas questões políticas pois tal não se conjugava com o seu “génio, hábitos e costumes”53, inclusive apelidando a função a que fora chamado a desempenhar de “espinhoso cargo”54. No seu discurso de posse, intitulava-se guardião dos quatro tesouros: a Liberdade, a Honra da Pátria, a Regeneração e o Povo Português, demonstrando assim as suas principais linhas de orientação, enquanto homem e enquanto governante55. Note-se que em Cantos Sagrados defendera a “Fé, esperança, regeneração do Mundo nas gerações actuais, incrédulas, cépticas, e devoradas pela febre do ouro e do gozo”56. Essas suas preocupações, que se fazem sentir na sua vida privada, transferem-se para a vida política, sendo, nesse campo, ainda mais volumosas e mais prementes. Através da sua correspondência política, percebe-se o drama político por si vivido, enquanto Chefe de Estado perante as crises ministeriais vividas. O seu mandato desenrola-se, como é sabido, num período agitado, em que avultam fenómenos como a contenda político-partidária, mudanças de governos, cisões no Partido Republicano, agitação nas ruas, conflitos com a igreja, movimentações e incursões militares monárquicas. Depois a tensão internacional de 1914, a eclosão da I Grande Guerra, a pressão alemã sobre as colónias portuguesas, o pronunciamento militar chamado de “movimento das espadas” 57 e, por fim, a ditadura

53

Cf. Matos e Gaspar, Ob. Cit. p.10

54

Idem, ibidem, p. 15

55

Telo, António – “Os Presidentes no sistema de governo da Primeira República”. In Pinto, António Costa (org.) – Os Presidentes da República Portuguesa, Lisboa: Temas e Debates, 2001, p. 20 56 57

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 61

Veja-se Ferreira, José Medeiros – O Comportamento Politico dos Militares. Forças Armadas e Regimes Políticos em Portugal no Século XX. Lisboa: Editorial Estampa, 1996, p. 55. Veja-se ainda Mesquita, José Carlos Vilhena – “Manuel de Arriaga e o “Movimento das Espadas”. In História. nº 42, Lisboa, Abril (1982), p.77-82.

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de Pimenta Castro, a Revolta do 14 de Maio de 1915 e a sua consequente resignação do cargo de Presidente da República58. De facto foi num profundo clima de rivalidades e de incompatibilidades que o Presidente iniciou a sua magistratura, a qual haveria de analisar no seu testemunho Na Primeira Presidência da República Portuguesa – um rápido relatório (1916), livro que redigiu no recato da fase final da sua vida. Trata-se de um conjunto de memórias políticas onde abordou a sua passagem pela política, afirmando que nunca fora “político de profissão” e que nunca vivera “na intimidade dos políticos”59, afirmando que “a política como ela se pratica em Portugal, deturpando a pureza do sufrágio, foi sempre aos nossos olhos uma das causas primaciais da degradação dos costumes e da decadência do país”60. Manuel de Arriaga levou sempre um estilo de vida sóbrio. A sua eleição para a Presidência da República em nada alterou esse estilo de vida. Na verdade, ser presidente da república, nesses anos da Primeira República Portuguesa, não era cargo que, do ponto de vista de conforto e de ostentação e, enfim, de quaisquer regalias ou dignidades conferias pelo posto, pudesse causar inveja. Veja-se, a propósito, que, necessitando, por força das exigências do cargo, de maiores e melhores instalações, Arriaga decidiu alugar, a expensas próprias, o palacete da Horta Seca, também conhecido pelo Palácio do Manteigueiro, situado justamente na Rua da Horta Seca, em Lisboa, sendo o respectivo mobiliário também por si adquirido. Apenas em 1912 se mudaria para um anexo do Palácio do Belém, onde passou a ter residência61, pagando do seu próprio bolso uma renda, tudo de acordo com o que se encontrava consignado na Constituição de 191162. Acerca dessas dificuldades iniciais se refere o próprio em Na Primeira Presidência da Republica Portuguesa: “iniciámos o nosso mandato de presidente da República em condições um pouco

58

Serrão, Joel (coord.) – “Catorze de Maio”. In Dicionário e de História de Portugal, Lisboa: Livraria Figueirinhas, 1992, Vol.II, p.25

59

Arriaga, Manuel de – Na Primeira Presidência da República Portuguesa…, pp. 7-8.

60

Idem, ibidem, p. 9

61

Idem, Ibidem.

62

Mattoso, José (dir.) – História de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1994, vol. VI, p. 505.

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difíceis: sem casa, sem dinheiro, sem meios de transporte, sem secretário, sem protocolo”63.

Manuel de Arriaga em família. Foto cedida pela família (s.d.). In Boléo, Maria Luísa – “Oito Presidentes para a História (1910-1926) ” em “O Leme” [em linha], Junho de 2009. Disponível em http://www.leme.pt/biografias/portugal/presidentes/arriaga.html

Numa sociedade em que não abundavam as distracções fora de casa, exceptuando a presença em círculos culturais, Arriaga seria um homem recatado, reunindo frequentemente com a família ou isolando-se para a sua leitura e escrita. Outra forma de divertimento eram as visitas a casa de amigos ou férias em conjunto. Por vezes fazia algumas saídas para ir ao teatro, nomeadamente ao Coliseu dos Recreios, Teatro D. Amélia ou Teatro de S. Carlos, onde se assistia a óperas. Seguindo o costume da época também passeava por jardins

63

Arriaga, Manuel de – Na primeira Presidência da República Portuguesa. Um rápido relatório. Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1916, p. 15.

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públicos, avenidas e praças64, sendo-lhe especialmente grato fazer piqueniques no campo e aí dedicar-se às suas divagações filosóficas e poéticas, como descreve nas suas obras Irradiações e Cantos Sagrados. Arriaga e a esposa adoravam o mar, pelo que a família tinha o hábito de ir passar as férias de Verão na Figueira da Foz, em Buarcos, onde faziam grandes caminhadas a pé65. Essa ligação com o mar e os rios seria muito forte e, frequentemente, enunciada nos seus poemas. Homem das ilhas, ao longo da sua vida Manuel de Arriaga passeou por várias regiões do continente, procurando os espaços idílicos que foi cantando nos seus poemas. Sempre que tal lhe era possível, Arriaga saía de Lisboa com a família. Em Fornotelheiro, concelho de Celorico da Beira, possuiu uma casa que ainda hoje mostra o Brasão de Solar pertencente à família Arriaga. Além disso foi frequentemente convidado para festas e encontros sociais, férias ou serões, em conjunto com algumas personalidades nacionais. Relacionou-se intimamente com famílias ilustres, como a do poeta Silva Gaio, que foi também um dos autores que mais leu e um dos amigos com quem passou férias, referindo-se a ele no poema “A árvore”, inserto na colectânea Cantos Sagrados, poema escrito no período em que Arriaga e a família costumavam passar parte do verão no Buçaco, essa montanha que lhe deixara sempre gratas recordações e onde permanecera por períodos, durante a vida universitária. Diz-nos em Cantos Sagrados que nos tempos de estudante muitas vezes para ali caminhara desde Coimbra, caminhada que valia a pena porque lhe permitia encontrar-se a si próprio “nas suas sombras impenetráveis e profundas, na sua solidão e paz absolutas, tão propícias à contemplação e ao estudo!”66. Naquele tempo, ali ia muitas vezes sozinho ou na companhia de amigos como Antero de Quental, José Júlio Rodrigues, Filomeno da Câmara67. Recorda que passara largas e aprazíveis temporadas no Buçaco, num período em que, devido à dificuldade de transportes, ainda antes do caminho de ferro do Norte, aquele espaço viveu quase completamente esquecido dos homens, procurado apenas por “almas de eleição, pouco conformadas com a realidade das coisas, um ou

64

Cf. Serrão, Joel; Marques, A. H. de Oliveira – Nova história de Portugal. Portugal da Monarquia para a República. Lisboa: Editorial Presença, 1991, Vol. XI, p. 668.

65

Antero de Quental: In Memoriam…, p. 126.

66

Cf. Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 70.

67

Freitas, Joana – Manuel de Arriaga: história de um açoriano…p. 26.

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outro amante da Natureza”68. Arriaga procurava ali a sua quietação e o silêncio, num espaço pleno de mistérios e tradições de misticismo cristão, onde, segundo o qual, conseguira absorver ”eloquentes lições sobre os problemas da vida, sobre os múltiplos e complicados destinos do coração e da consciência, postos no mundo ante esta interminável e ininterrupta sequência – de luz e de sombra – de dias e de noites de prazeres e de dores, de sonhos e desenganos!”69. Com a sua família tinha por hábito visitar a aldeia dos Carvalhais, no Concelho de Anadia, onde desenvolveu muita da sua actividade literária e onde gostava de estar no remanso e passar algumas temporadas, desfrutando da poética região da Bairrada. Na localidade estabeleceu relações de amizade com a família de Manuel Rois Salgado e com a família de Manuel Maria da Silva Bruschy. Deleitado, canta a aldeia, a “sombra de pequenos bosques, os altos e extensos pinheirais, balsâmicos e sonorosos, os frescos relvados e os álamos e carvalhos frondosos, no adro da capela da Senhora das Neves, que lhe fica próxima”70 e onde se costumava retirar. Vapores que em vistosos cortinados Armais dos céus o templo de safira Com púrpura e finíssimos brochados Sede hoje o assunto para a voz da lira!

Que eu quero ter a íntima certeza Que, antes da hora da fatal partida A minha alma no mundo fica preza Às coisas belas que adorei na vida…

Excerto do poema Às Nuvens de Manuel de Arriaga, escrito na aldeia de Carvalhais, em 1873 e publicado em Cantos Sagrados em 1899 (grafia actualizada).

Como vemos, o poeta que era Arriaga refugiava-se frequentemente junto da Natureza que qualificou como “a Bíblia da Verdade e do Amor”71. Foi nesse ambiente que compôs muitas das suas obras, uma vez que, tal como afirma José Luís Luz: “É no contacto com a natureza e no convívio social que forma a sua consciência e constrói a sua personalidade, do ponto de vista intelectual e afectivo”72. Pelos seus escritos se percebe quais os locais predilec-

68

Cf. Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 70.

69

Idem, Ibidem.

70

Idem, Ibidem, p.72.

71

Idem, Ibidem, p.65.

72

Luz, José Luís – Ob. Cit., p. 277.

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tos em Lisboa para passar alguns momentos de lazer, usufruir da paisagem e escrever alguns poemas. De entre esses, avulta a Tapada da Ajuda, num período em que “esta não era ainda frequentada pelo público da capital.” Arriaga apreciava afastar-se dos “rumores da grande cidade”, sossegar-se “na benéfica e imperturbável quietação dos campos”, apreciar a “tonalidade de cores e de sombras duma variedade e doçura infinitas” nos locais que procurava para se isolar73. Em Coimbra era comum evadir-se pela Quinta de Santa Cruz, onde confessava sentir-se “por completo sequestrado do mundo exterior”. Aí comporia o poema Revelação, escrito numa sexta-feira de Paixão, cerimónia litúrgica católica que Arriaga acompanhava fielmente na Capela da Universidade. Passava também algum tempo na Quinta da Beselga, próximo dos campos de Asseiceira, em Tomar, propriedade do seu bom amigo, o Conde de Nova Goa, com quem tinha relação privilegiada; foi nesse lugar que compôs Ave Creator. Apreciador de arte visitou os grandes museus como o British Museum, em Londres; o Louvre, em Paris; as galerias do Palácio Pitti, em Florença; e as do Vaticano, em Roma. Fez uma viagem marcante a Paris, onde assistiu à Exposição Universal de 1900. Quanto à cidade-luz, descreveu-a como “império da mais desenfreada corrupção política dos últimos tempos”, ficando indignado com o que observou de perto e que identificou como “preconceitos e velharias do antigo direito”. Diz o próprio Arriaga que regressou à Pátria com a “alma mais cortada de dores de que quando dela partíramos!”, por ter assistido à conquista da modernidade mas verificando que faltava ainda fazer-se “a revolução dos espíritos”74. Através da análise da sua actividade poética, pode claramente perceber-se uma alma pura, ingénua e romântica, um espírito religioso e idealista, amante e cultor das forças e das maravilhas da Natureza, que o próprio encarava como “obras de Deus”, “eternamente grandes e belas para se constituírem na fonte pura e inesgotável do Ideal”75. Defendia que na Natureza e na Humanidade residia a verdadeira e única religião que a obra poética do autor exalta com elevação, como sendo “o princípio, o meio e o fim do todo existente, a fonte da vida no Universo, o Sol ideal das almas, a Beleza Eterna, a Perfeição Suprema, que os Povos, as mulheres, as crianças, os simples, os

73

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 63.

74

Freitas, Joana Gaspar – Ob. Cit., p. 309

75

Arriaga, Manuel de – Cantos Sagrados, p. 72

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crentes adoram, como nós, no fundo do seu coração, há infinitos séculos, sob o doce nome de Deus”76. Na realidade, e ainda segundo José Luz, Manuel de Arriaga desempenhou uma acção reformadora a partir de ideais de verdade e de justiça, firmados no saber das ciências positivas e no direito moderno, procurando enquadrar a sua crítica à acção da igreja e a sua visão da religião na atmosfera do deísmo que, certamente, as impregnava77. Do ponto de vista da dinâmica social, o pensamento de Manuel de Arriaga é tributário em muitos aspectos da filosofia positivista, porém quando analisadas as suas reflexões acerca da natureza, a humanidade, a sociedade e as suas leis e ainda a moral e a política, “o seu positivismo atenua-se e mitiga-se com outros contributos filosóficos”78. De acordo com Matos, pode dizer-se que Manuel de Arriaga, no seu percurso, em termos de pensamento e acção política e também numa perspectiva ética e até estética, se afastou bastante dos seus companheiros de juventude: “Arriaga foi sobretudo um heterodoxo, um espiritualista ecléctico, que, todavia, não resistiu à poderosa influência do cientismo e até, em menor grau, do positivismo”79. Percebem-se por isso as influências das suas ideias político-sociais e da sua eticidade na sua actuação dentro do Partido Republicano. A relação com a natureza é, em Arriaga, uma forma de aproximação não naturalista. É um acérrimo defensor do conhecimento científico e da ciência “porque só ela nos pode garantir o triunfo da Verdade e da Justiça”80. Por isso, é evidente nos seus escritos e até na sua vida política, uma dimensão espiritual e moral de natureza humana, a par da crença no poder da ciência e da técnica, salpicado por um forte sentido religioso da vida, com a adivinhação da majestosa presença de Deus. Nessa linha de ideias, dizia em Harmonias Sociais que “A ideia de se instituir nas sociedades modernas uma nova moral em concordância com as descobertas a que devemos os esplendores da actual civilização, nunca deixou de nos acompanhar”81.

76

Idem – Harmonias Sociais, pp. 332-333

77

Cf. Luz, José Luís – Ob. Cit., p. 269-270

78

Cunha, Norberto Ferreira – Ob. Cit., pp. 263-264.

79

Matos, Sérgio Campos – Ob. Cit., p. 14

80

Arriaga, Manuel de – Harmonias Sociais, p. 93

81

Idem, Ibidem – p. V-VI (Prefácio)

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Sendo um homem religioso, procurou sempre manter um bom relacionamento com a igreja católica (no que não é acompanhado por outros notáveis da República) sem no entanto abdicar da supremacia do poder civil. Esforçou-se por ter com o clero uma relação pacífica e até apaziguadora e revelar-se-ia um empenhado cristão, mesmo após a Lei da Separação de 191182, nunca se assumindo como um anti-clerical, embora achasse que a igreja “tem fatalmente de ser eliminada das instituições vigentes, pelo próprio instinto e necessidade de conservação destas”83. Na sua opinião, o poder político não deveria continuar a exercer a protecção que lhe vinha dispensando, advogando assim a completa separação entre a Igreja e o Estado e a mais completa liberdade de consciência e de cultos84. Mas acusa a igreja católica de ter distorcido a mensagem de Jesus, que prometeu saciar os pobres e deserdados, com fome e sede de justiça. Opõe-se à exploração do povo, contra a religião, mas também contra o trono, o capital, a indústria e instituições que têm feito reverter em proveito próprio, no mais impiedoso egoísmo, “o sentimento inapagável da religiosidade que existe inerente no fundo de todas as consciências e que só tem de mudar de objectivo e de processo; mas que jamais se extinguirá da natureza humana e do próprio Universo”85. Era “mais um cristão do que um católico”86 vivendo uma “religiosidade laica”87 ou, nas suas palavras: “pertencemos ao número daqueles que vêem na igreja católica uma instituição que, à parte o seu lado político e ganancioso, preparou as almas para um ideal de amor que mais tarde há-de fazer a felicidade do género humano”88. Em suma, o Deus da religião universal que Arriaga pretendia dar a conhecer exprime-se ou manifesta-se plenamente na natureza. Contrariamente a Teófilo Braga, o seu combate não tem o propósito de aniquilar a religiosidade, que diz ser inerente à natureza de cada um, mas antes, assume-se como promovedor de

82

Veja-se Clemente, Manuel – “O Estado e a Igreja no tempo de Manuel de Arriaga”. In Matos, Sérgio Campos (coord.) – Ob. Cit., pp. 41-64.

83

Arriaga, Manuel de – Harmonias Sociais…, p. 285

84

Idem, Ibidem, p. 286-287.

85

Idem, Ibidem, p. 233.

86

Cunha, Norberto Ferreira – Ob. Cit., p. 242.

87

Clemente, Manuel – Ob. Cit., p. 64.

88

Arriaga, Manuel de – Harmonias Sociais…, p. 282.

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uma religião universal da Razão, da Verdade, da Beleza, do Bem, da Justiça, os valores absolutos que os sentimentos religiosos de cada homem mantêm eternamente vivos89. Defensor da investigação científica – que ele próprio promoveu – trata-se pois duma concepção religiosa orientada para a promoção da justiça social, centrada exclusivamente na dignidade de todos os homens e na prática do bem, em harmonia com as leis da natureza, que a ciência ajuda a conhecer cada vez melhor. Isto é, uma forma religiosa de pendor eminentemente social e estético, que deixa transparecer sem dificuldade a sua inspiração deísta, romântica e panteísta, concepções próprias duma certa mentalidade cientista da época90. Arriaga reflecte esse sentimento de fim de século sob a ideia de que era “necessário criar um meio espiritual que poupasse aos indivíduos as dúvidas que os paralisavam” pois “os problemas, por mais íntimos que fossem, apareceram perspectivados em termos do país” 91. A religiosidade surge assim como marca profunda da sua vida pessoal onde o “sentimento de respeito por um Poder Superior é causa primária, ponto de partida, iniciação e justificação de todo o existente, de tudo quanto vemos e sentimos”92. Foi reconhecido entre os amigos, familiares, alunos e professores como um excelente amigo, emotivo, romântico, sentimental, sensível e dedicado. Um “homem de carácter, austero, probo, honrado e conciliador”, pois “era, acima de tudo, um intelectual que lutava por sãos princípios políticos, avesso à intriga partidária e sobretudo preocupado com a unidade do republicanismo”93. Foi sempre uma figura venerada, “aureolada pelo sacrifício”94, pela qual se tinha um enorme respeito. Foi também, para muitos, não só como homem mas também como Presidente, o rosto da República. Em “Varões Assinalados” o jornalista Mayer Garção escrevia sobre a probidade do seu carácter: “Quando vejo Manuel de Arriaga, a sua fronte inspirada revela-me as predestinações do

89

Idem, Ibidem, p. 283-284.

90

Luz, José Luís – Ob. Cit., p. 279.

91

Mattoso, José – Ob. Cit., 331.

92

Arriaga, Manuel de – Cantos sagrados, p. 62.

93

Matos, Sérgio Campos – Ob. Cit., p. 140.

94

Vicente, António Pedro – Ob. Cit., p. 195.

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ideal. Vejo a República – tanto tempo só um sonho que veio a acabar por ser realidade”95.

Caricatura de Francisco Valença, capa de “Varões Assinalados” de Dezembro de 1910. In Biblioteca Nacional [em linha] Abril de 2011. Disponível em http://purl.pt/16607/1/ P135.html 14/04/2011.

95

Cf. Serrão, Joaquim Veríssimo – Ob. Cit., p. 1000.

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Num testemunho, citado por João Medina, o deputado, escritor e jornalista Augusto de Castro diz que pouco antes da sua morte “O velho, de admirável cabeleira de tribuno, de porte aristocrático e olhar romântico, que fora outrora um dos mais lindos rapazes do seu tempo, transformara-se, em meia dúzia de meses, num velhinho curvado e triste”. Consta que Augusto de Castro haveria de lhe dizer que “a política não fora feita para os idealistas e para os poetas, como ele”, ao que Arriaga responderia com uma névoa de lágrimas velando-lhe o olhar, demonstrando assim a desilusão que o cercava no período final de vida. Vira a sua missão como Presidente e como Homem Político fracassada96. Seriam nesta altura as flores, as suas telas, os seus poemas e os seus poetas os pequenos prazeres dessa espécie de exílio a que se remetera, após o fracasso da sua missão. Em Lisboa, com 77 anos de idade, Manuel de Arriaga terminou os seus dias a 5 de Março de 1917, próximo da Rua das Janelas Verdes, zona da cidade de Lisboa a partir da qual podia observar os barcos no Tejo, num quarto que exibia nas paredes retratos de Vítor Hugo e Alexandre Herculano, duas figuras das artes e letras que muito prezava. Por cima da cabeceira, a imagem de Cristo. Foi sepultado em jazigo de família no cemitério dos Prazeres. No jornal A Vanguarda lia-se que ele pedira que não se fizessem convites para o seu funeral, não se dispusessem flores, nem houvesse discursos junto à sepultura, mantendo essa imagem de recato que toda a vida cultivou97. O próprio Arriaga havia escrito: “cerrem o véu do esquecimento sobre a nossa modesta individualidade e deixem-nos acabar de morrer no remanso do nosso lar, na paz da nossa consciência”98. As palavras deixam transparecer o desalento com que acabaria os seus dias. O seu enterro seria assim modesto e discreto, mas teve honras militares e multidões acorreram ao desfile como demonstram jornais da época como A Vanguarda, O Século ou O Jornal. Os seus restos mortais jazem hoje no Panteão Nacional de Santa Engrácia, em cumprimento de decisão tomada por unanimidade pela Assembleia da República, a 16 de Setembro de 2004.

96

Cf. Medina, João (direcção de) – História Contemporânea de Portugal, Lisboa, Amigos do Livro/Multilar, s.d., p. 257 e 258. 97

Cf. Matos, Sérgio Campos – Ob. Cit., p. 144.

98

Arriaga, Manuel de – Na primeira Presidência da República Portuguesa…, pp. 189-190.

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Idealista, entre a amargura e a esperança, foi apelidado por um monárquico de “Rei Lear da república” 99, expressão que pretende retratar a dimensão algo trágica do seu mandato. Em boa verdade, quer seja na sua vida privada dos seus tempos de estudante, na sua vida em Lisboa antes de ser Presidente, ou mais tarde no período da sua governação ou nos seus últimos tempos de vida, Arriaga revelou-se sempre um homem distinto, amável, bondoso, pacato, de diversos talentos, amante de um estilo de vida simples, sóbrio e puro, em todo o caso, um cidadão do seu tempo, integrado na sociedade a que pertenceu, cuja dinâmica política e social entrou muitas vezes em conflito com o seu quotidiano pessoal e a sua visão do mundo.

99

Dias, Carlos Malheiro – Lisboa, 1912, p. 13 apud Medina, João – Ob. Cit., p. 71.

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Teófilo Braga (Museu da Presidência da República)

Amadeu José de Figueiredo Carvalho Homem Professor Catedrático de nomeação definitiva do Grupo de História da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

O

tenente de artilharia Joaquim Manuel Fernandes Braga foi despachado pelo governo miguelista para a ilha açoriana de S. Miguel no auge da confrontação entre os defensores das instituições absolutistas e os seus opositores liberais. Aí se encontrava no verão de 1831, quando o Conde de Vila Flor, vindo da Terceira, submeteu o território e aprisionou contingentes militares miguelistas. O tenente Fernandes Braga partilhou a sorte dos vencidos e depois de várias peripécias acabou por ser deportado para a ilha de Santa Maria. Foi aí que se apaixonou pela filha mais velha do capitão de ordenança Inácio Manuel de Câmara. A eleita do seu coração dava pelo nome de Maria José da Câmara Albuquerque e o capitão Inácio, viúvo e a braços com o sustento de uma filharada numerosa, não teve dúvidas em favorecer as pretensões de casamento que lhe foram comunicadas pelo sentenciado tenente. Corria o início do ano de 1833 quando o matrimónio se realizou1. Os filhos foram nascendo e Joaquim Manuel Fernandes Braga reconheceu que o futuro poderia ser agreste naquela ilha de minguados recursos e de reduzidas oportunidades. O mais importante centro da sociabilidade açoriana era indiscutivelmente Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel. Mudou para lá o seu domicílio em 1839 e passou a dedicar-se ao ensino, começando por abrir uma escola de instrução primária. A família foi crescendo e no sétimo parto de Maria José da Câmara Albuquerque, ocorrido em 24 de Fevereiro de 1843, nasceu um rapaz. Era mais um Joaquim, mas o próprio se encarregaria, mais tarde, de o converter em Joaquim Teófilo, por gostos religiosos e afinidades de crença que a idade madura não confirmaria. Ao tempo, a ilha de S. Miguel vivia tempos de grande brilho intelectual, revendo-se em figuras altamente representativas nos domínios das artes, das letras e da benemerência. José do Canto tivera o mérito de reunir uma excep-

1

Cfr. Carreiro, José Bruno – Vida de Teófilo Braga. Resumo cronológico. Coimbra, Coimbra Editora, 1955, pp. 17-18.

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cional biblioteca camoniana e era uma referência pelos contributos dados ao urbanismo e à economia da região. Ernesto do Canto distinguira-se na historiografia, sendo ainda audível e operante toda uma tradição poética micaelense ligada aos nomes de Guilherme Read Cabral, Henrique de Andrade Albuquerque, José Maria Severim e José Bensaúde.2 O mecenato cultural era em larga medida interpretado por Duarte Borges da Câmara Medeiros, potentado económico que fora feito Visconde da Praia pelos relevantes serviços prestados ao liberalismo combatente. A própria música, na sua expressão sacral, se derramava a partir dos templos onde oficiava o Padre Joaquim Silvestre Serrão, setubalense de origem e intérprete de memoráveis matinas em louvor do Espírito Santo. Foi este o estimulante clima que cercou Teófilo Braga na sua mais tenra meninice. Esta, porém irá ficar ensombrada com o falecimento da sua mãe. Depauperada por sucessivas gestações, ela finar-se-á em Novembro de 1846. O pequeno Joaquim Teófilo contava menos de quatro anos de idade. A perda da mãe trouxe à família mudanças drásticas: a filha mais velha, Maria José, foi protegida pela Viscondessa da Praia, acabando, mais tarde, por abraçar a vida religiosa no Convento da Esperança; Teófilo, por seu turno, viu-se confrontado, cerca de dois anos depois, com o trato pouco afectivo de Ricarda Joaquina Marfim Pereira, a nova mulher do seu pai. Ao longo da sua vida, com uma insistência talvez exagerada, Teófilo Braga irá referir o desprezo a que foi votado pela madrasta e os efeitos nocivos dessa atitude no seu desenvolvimento3. O ex-tenente Braga, já depois do segundo casamento, irá candidatar-se ao magistério oficial, acabando por ingressar no novo liceu de Ponta Delgada como secretário e professor. Foi nesse liceu que Teófilo fez toda a sua formação secundária. Também nele decorreu um episódio insólito, revelador da sua frontalidade insubmissa. Um professor lembrou-se de perguntar aos discípulos sobre a profissão que desejariam abraçar, após a conclusão do curso. O aluno Teófilo Braga replicou, sem pestanejar, que quereria ser doutor.

2

Cfr. Bettencourt, Rebelo de – Teófilo Braga, Mestre Nacionalista. Com duas cartas íntimas e uma breve antologia poética. Lisboa, Edição da “Gazeta dos Caminhos de Ferro”, 1942, pp. 9-14. 3

Na sua “Autobiographia mental de um pensador isolado”. In: Quarenta annos de vida litteraria. Lisboa, Typographia Lusitana-Editora Arthur Brandão, MCMII, p. V, Teófilo voltou a aludir a “uma infância atormentada dos quatro aos dezoito anos sob a pressão antipática de uma madrasta”.

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O professor opinou que não via moita de onde saísse tal coelho. E este mesmo aluno obtemperou, sem vacilar: – “O sr. professor não tem faro”4. A verdade é que a sua vida intelectual não se restringia à rotina das aulas. Ajudado por Francisco Maria Supico, farmacêutico da Misericórdia de Ponta Delgada e nome já relevante no jornalismo micaelense, Teófilo publicou na folha Estrela Oriental, da Ribeira Grande, o poema “A canção do guerreiro”, dedicado ao seu irmão João Fernandes Braga. Corria o princípio do ano de 1858 e outras poesias da sua lavra foram aparecendo5. As condições de produção em prosa e verso não podiam ser piores. Não dispunha de pena, tinta ou papel. Supria estas dificuldades como podia, escrevendo na parte não impressa dos requerimentos de matrícula do liceu. Com o apoio de Supico, chegou a criar jornais de efémera duração, como O Meteoro (1858) e O Santelmo (1859). Foi com base numa parte desta produção poética que surgiu, por esta altura, o seu livro Folhas Verdes (1859), em homenagem antitética às Folhas Caídas, de Almeida Garrett. O original da obra foi apresentado ao Visconde da Praia, almejando alcançar para o autor um mecenato que lhe abrisse as portas de uma academia no continente. Mas o benfeitor ou não entendeu o que se pretendia ou se fez desentendido. O máximo que se alcançou foi o custeio da impressão da obra. Quando os estudos secundários foram concluídos, Teófilo Braga sentiu a urgência de dar um rumo à vida. Chegou a ponderar a ideia de procurar no Brasil ou na América inglesa os meios de subsistência necessários à sua independência6. Francisco Maria Supico, seu amigo e confidente, desaprovou o plano. O seu pai também dele discordou, sugerindo-lhe a hipótese de continuar os estudos em Coimbra, desde que lá pudesse aguentar-se com um apoio financeiro que não poderia ser senão diminuto, devido ao volume das despesas familiares. O conhecimento da sua força interior e a audácia dos seus dezoito anos levaram-no a aceitar o repto. Saiu da ilha, rumo a Coimbra, em Fevereiro de 1861. Tomara a decisão, que iria ser cumprida, de não mais

4

Anglin João, “Teófilo aluno do nosso liceu”. In: Primeiro Centenário do nascimento do Doutor Teófilo Braga. Edição Comemorativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Ponta Delgada, S. Miguel-Açôres, Oficinas Tipográficas do “Diário dos Açôres”, 1944, pp. 161-162.

5 6

Cfr. Primeiro Centenário do nascimento do Doutor Teófilo Braga, cit., pp. 122-123.

Cfr. Fran Paxêco – A Escola de Coimbra e a dissolução do Romantismo. 1865-1915. Lisboa, Casa Ventura Abrantes, Livraria Editora, 1917, p. 73. 7 Cfr. Carreiro, José Bruno – ob. cit., p. 32.

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regressar à sua terra natal para não ter que cumprir a lei do recrutamento militar e talvez também para se furtar às responsabilidades de uma paternidade ilegítima e obviamente indesejada7. O jovem Teófilo Braga arribou a Coimbra em meados de Abril de 1861, sem ter ainda uma ideia clara sobre o curso que deveria frequentar. É que se depreende do teor de uma carta para Francisco Maria Supico, datada de 18 desse mês: “Estou amando agora a vida eremítica e seguirei o seu conselho formando-me em Teologia”8. Na hora da decisão, porém, a preferência recaiu sobre o Direito. Talvez para isso tenha contribuído o facto de ter estreitado relações com vários estudantes desse curso, alguns dos quais seus conterrâneos, como Antero de Quental. É que Teófilo começou por residir na casa de hóspedes de Filipe de Quental, tio de Antero, onde também este se abrigava. Mas foi uma breve passagem por esse lugar. A preocupação de encontrar alojamentos mais baratos foi uma constante na vida académica de Teófilo, atendendo à exiguidade dos seus recursos. A cidade de Coimbra não agradou àquele estudante recém-vindo. Era, ao tempo, uma urbe dobrada sobre si, onde se chegava de carroça ou diligência, por não ser ainda servida pelo caminho-de-ferro. O corpo estudantil não contaria com mais do que dois mil estudantes. As ruas pareceram-lhe demasiadamente estreitas e infectas e o meio afigurou-se-lhe pouco amigável: “Para vencer o meu combate da vida, adquiri aqui um conhecimento nítido do meio coimbrão, dos seus tipos heteróclitos, o lente sempre hostil, no seu isolamento cardinalesco e pedante, o estudante sempre díscolo, e desvairando na troça desenfreada, e no meio disto o futrica ou o filhote da terra, exercendo um antipático parasitismo”9. A penúria material de Teófilo forçou-o a adoptar um estilo de vida parcimonioso, nada boémio e apartado das normais efusões da idade moça. Mas o seu orgulho impediu-o de se inferiorizar perante os demais colegas. Passou a cultivar a distância, defendendo com intransigência

7

Cfr. Carreiro, José Bruno – ob. cit., p. 32.

8

Carta transcrita por Carreiro, José Bruno – ob. cit., p. 38.

9

Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, com data de 26 de Janeiro de 1862, transcrita em Supico Francisco Maria – Mocidade de Theophilo. Subsídios bio-bibliographicos para o estudo da obra de Theophilo Braga. Lisboa, Instituto Theophileano, 1920, p. 155.

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o seu reduto privado10. Eis um dos seus depoimentos sobre outros estudantes com quem partilhava o alojamento: “Os companheiros de casa parecem-me inofensivos; apesar de tudo conservo sempre esta distância conveniente a que a boa sociedade chama delicadeza, que a ninguém ofende, e com a que me dou perfeitamente, porque ma não embaraçam”11. Mas o meio cultural de Coimbra contribuiu poderosamente para a continuidade da aventura mental teofiliana. Foi na cidade do Mondego que o nosso jovem iria prosseguir a sua caminhada poética. Foi também nela que lhe foi permitido contactar com a melhor produção cultural europeia que marcava indelevelmente o espírito do tempo. Deu conta então que a ciência histórica se renovara com Michelet e Quinet, que o idealismo ganhara expressão dialéctica com Hegel, que o cristianismo se naturalizara através dos livros de Strauss e Renan, que a exigência da ética social se aprofundara com Proudhon e com as diatribes de Victor Hugo, que a simbologia pagã se decantara com Creutzer, que a burguesia oriunda da revolução industrial encontrara em Balzac o seu mais rigoroso cronista, que o fixismo bíblico era agora interpelado pelo evolucionismo de Darwin e que, numa palavra, se propagava em Coimbra um “grande tumulto mental”12. Mas o estímulo não provinha apenas do torvelinho das ideias. Resultava igualmente do facto aleatório de se ter reunido na cidade universitária uma brilhantíssima aristocracia intelectual de discentes, contando-se entre estes os nomes de Eça de Queirós, Manuel de Arraiga, José Falcão, Antero de Quental, Germano Meireles, António de Azevedo Castelo Branco, Lobo de Moura, Alberto Sampaio e tantos outros13. O próprio cenário da política internacional, na sua dimensão polémica, convidava a academia à tomada de posições firmes. A resistência anti-saxónica da Irlanda e a luta dos patriotas italianos pela unidade do seu país, contra a

10

Cfr. Coelho, A. Do Prado, Teófilo Braga. Notas de estudo. Lisboa, 1936, p. 6 Separata da “Revista da Faculdade de Letras”, Tomo II.

11

Carta de Teófilo Braga para Maria do Carmo Barros Leite, de 6 de Outubro de 1865.In Cartas de Marcelo (provas tipográficas de um livro projectado mas não publicado por Álvaro Neves, com base numa colecção de cartas disponibilizadas por Teófilo Braga ao compilador), p. 1.

12

Queirós, Eça de, “Um génio que era um santo”. In: Anthero de Quental – In Memoriam. Porto, Mathieu Lugan, Editor, 1896, p. 485. 13

Cfr. Arriaga, Manoel de – “Ao correr da penna (Notas)”, idem, p. 98-99.

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teocracia pontifícia, eram bandeiras obrigatórias da juventude universitária. Mas não era aqui que se centravam as controvérsias mais acesas. A maior contestação visava o reitor Basílio Alberto de Sousa Pinto, que se tornara antipático ao espírito de emancipação estudantil por pretender impor a mais estrita aplicação dos códigos e regulamentos académicos. Numa altura em que os estudantes procuravam libertar-se dos vestígios ancestrais que os fazia adoptar um traje em tudo similar ao dos eclesiásticos, o autoritário reitor impunha a batina apertada nas costas e o cabeção, o sapato de fivela e o calção cingido acima do joelho, a meia preta e a interdição do uso de gravatas ou das calças pendentes sobre o calçado. O grupo de Antero de Quental iria chefiar a rebelião, criando a Sociedade do Raio e congeminando formas eficazes de confrontação com o insustentável poder reitoral14. Foi no seio desta agremiação secreta que se preparou uma pública manifestação de repúdio, a qual veio a concretizar, no dia 8 de Dezembro de 1862, uma célebre evacuação da Sala Grande dos Actos ou Sala dos Capelos. Os estudantes aproveitaram a cerimónia de distribuição dos prémios académicos para desertaram em massa dessa simbólica sala, deixando o reitor a falar para um espaço esvaziado. Este gesto de desprezo teve tal repercussão que Antero sentiu a necessidade de redigir um documento justificativo, o “Manifesto dos Estudantes da Universidade de Coimbra à opinião ilustrada do País”, que juntou 316 assinaturas. Não subsistem dúvidas de que Teófilo Braga nutriu por Basílio Pinto uma animosidade em tudo idêntica à de muitos dos seus colegas. Por isso, foi um dos signatários do “Manifesto”. Mas não pertenceu à Sociedade do Raio, que mais tarde haveria de caracterizar como “uma pura imitação teatral das Carbonárias italianas, na luta contra o despotismo austríaco”15. Ao que se sabe, também não tomou parte activa na trama conspiratória, que culminou na memorável debandada. Por finais de 1863 e inícios de 1864, suscitar-se-iam novos atritos, mas agora com o poder governamental. Os estudantes, a pretexto do próximo nascimento do príncipe herdeiro de D. Luís e de Dona Maria Pia, solicitaram que lhes fosse concedido um “perdão de acto”, ou seja, que lhes fosse autorizada uma passagem administrativa de ano escolar. O governo não se prestou a

14

Cfr. Carreiro, José Bruno – Antero de Quental. Subsídios para a sua biografia, Instituto Cultural de Ponta Delgada / Livraria Editora Pax. Braga: 1981, 2ª edição, vol. I, pp. 164-170. 15

Citado in Supico, Francisco Maria – ob. cit., p. 168.

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oferecer tal benesse e os estudantes queimaram à Porta Férrea um boneco de palha que pretendia personalizar o Duque de Loulé, chefe do executivo. Este acto ficou conhecido sob a designação de Rolinada. O acréscimo de tensões levou a que o governo reforçasse o dispositivo militar da cidade. Os estudantes sentiram-se injuriados por esta manifestação de força e, uma vez mais sob a chefia de Antero de Quental, decidiram abandonar Coimbra e retirar para o Porto. Este êxodo, porém, não contou agora com a concordância de Teófilo Braga, o qual foi submetido a uma especial vigilância por parte dos amigos de Antero para que não pudesse tecer alargadas considerações na assembleia-geral académica que tomou tal deliberação16. Os hábitos quotidianos de Teófilo não difeririam substancialmente daqueles que eram observados em Coimbra por estudantes aplicados e pobres. Passava muito tempo no seu quarto dando-se ao estudo das lições dos lentes, compulsando obras habitualmente referidas nos círculos da “rapaziada literária”17 conimbricense e burilando as suas próprias composições poéticas. A aridez deste severo regime era apenas quebrada quando se permitia fazer alguns passeios a pé, tendo como alvos lugares próximos de romagem, como Santo António dos Olivais, ou até aprazíveis e mais distantes paragens, como as da mata do Buçaco. O nosso estudante referiu ter vivido em Coimbra, sobretudo nos primeiros tempos da sua permanência, um peculiar “estado de poesia”, tal como Novalis o havia caracterizado, falando numa “sinergia que tendia a converter-se em força criadora”18. O seu interesse pela produção cultural exterior ao âmbito estritamente académico não oferece dúvidas. Atesta-o a sua colaboração na reputada revista O Instituto, onde escreviam diversos professores universitários, e o carinho por ele dispensado a jornais administrados e colaborados por estudantes, como O Fósforo, O Tira-Teimas, O Pirilampo, O Átila e tantos outros. O esparso e garrettiano esforço das Folhas Verdes, simples primícias literárias sem grande profundidade, irá agora

16

Cfr. Machado João de Faria e Maya – “Memórias”, in Anthero de Quental – In Memoriam…, pp. 154-155.

17

“O Antero de Quental é o meu alter-ego. Quer introduzir-me no seio da sua rapaziada literária” (Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, de 19 de Abril de 1861, transcrita por Francisco Maria Supico, ob. cit., p. 139).

18

Braga, Teófilo – Autobiographia mental de um pensador isolado.In “Quarenta annos de vida litteraria”, cit., p. VII.

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ganhar a força disciplinadora de uma sistematização. Muitos dos autores da sua especial predilecção – de Michelet a Vico, de Creutzer a Victor Hugo, de Quinet a Hegel, de Herder a Goethe – centravam o seu esforço de síntese sobre a aventura da espécie humana na asa da evolução temporal. Teófilo, em concordância com este quadro de inspirações, iria abrir a sua poesia ao simbolismo da historicidade19. Aplicou-se, portanto, a redigir um volume de versos cuja proximidade intencional com a Légende des Siècles, de Victor Hugo, ressalta do próprio título. A obra de Teófilo Braga intitulou-se Visão dos Tempos, pretendendo tracejar, à semelhança de Hugo, um fresco compreensivo da sucessão das civilizações, glosando poeticamente as suas referências simbólicas mais evidentes20. O pendor filosófico do projectado livro quebrava a tradição sentimental e puramente subjectiva do ultra-romantismo, tal como este fora interpretado pelas penas de Soares de Passos, João de Lemos ou Luís Augusto Palmeirim. Findo o trabalho, o maior problema residia em encontrar um editor que por ele se pudesse interessar. No início das férias grandes de 1863, Teófilo deslocou-se ao Porto com esse fim. A Casa Moré, gerida por José Gomes Monteiro, apresentava os mais sólidos créditos de instituição editorial. Nela haviam aparecido romances históricos de Rebelo da Silva e Andrade Corvo e algumas ficções de Camilo Castelo Branco. O nosso candidato a autor entregou timidamente o original a Gomes Monteiro e aguardou o veredicto, o qual viria a ser rasgadamente favorável. A Casa Moré preparou uma edição cuidada, a qual incluiu uma estampa do autor, gravada em cobre21. Teófilo conseguiu da mesma editora a publicação do poemeto Stella matutina, numa reduzidíssima tiragem de cinquenta exemplares. Em Dezembro deste mesmo ano de 1863 recebeu de Gomes Monteiro, por conta de direitos de autor, uma ordem de pagamento de dez libras. Exultante, iria desabafar assim, meses depois, para o inevitável Supico: “nos momentos de uma grande vontade,

19

Cfr. Sarmento, Olga de Moraes – Theophilo Braga (Notas e Commentarios). Lisboa: Tipografia da Imprensa Lucas & C.a, 1925, pp. 49-50. 20

Cfr Homem, Amadeu Carvalho – A ideia republicana em Portugal. O contributo de Teófilo Braga. Coimbra: Livraria Minerva, 1989, pp. 27-29. 21

Cfr. Fran Paxêco – ob. cit., pp. 80-81. Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, de 25 de Abril de 1864, transcrita em Carreiro, José Bruno, Vida de Teófilo Braga…, p. 46.

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tenho o poder de transformar em dinheiro aquilo para que olho”22. O jornalismo coevo acolheu a Visão dos Tempos com o maior entusiasmo. O exemplo foi dado por Antero de Quental, que numa notícia anónima para o jornal de Penafiel, O Século XIX, gerido pelo seu amigo Germano Meireles, declarou enfaticamente que o pior que o livro tinha era a grosseria de entendimento e a impreparação cultural do público23. Um crítico de créditos firmados, Manuel Pinheiro Chagas, afinou pelo mesmo diapasão de encómios no Arquivo Pitoresco. Como se isto já não fosse bastante para o deslumbramento, a conhecida actriz Manuela Rey recitou-lhe o poemeto Stella matutina nos principais palcos de Lisboa e do Porto. A Revista Contemporânea imprimiu nas suas páginas o poemeto A última gargalhada de Mefistófeles, referido com críticas elogiosas pela Gazeta de Portugal. Por seu turno, o Jornal do Comércio propôs-lhe a colaboração remunerada de quatro artigos mensais. Até do Brasil choviam louvores, através das apreciações de Belfort Duarte, no Correio Paulistano24. A Fama chegava de mãos dadas com a Pecúnia! Parecia tratar-se de um irreversível e sonoro triunfo. Em certas naturezas reservadas e feridas pela inclemência do viver, a surpresa do êxito momentâneo pode exacerbar formas de egotismo megalómano e de desprezo genérico por terceiros. Cremos que foi um pouco isto que aconteceu a Teófilo Braga, conforme parece deduzir-se de várias passagens da sua correspondência: “Aqueles que nunca me quiseram reconhecer superioridade vêm agora cercar-me com suas louvaminhas estúpidas. Eu rio-me de todos eles, interiormente, porque os músculos faciais têm pouca contractibilidade25. (…) Os elogios banais de grande parte da imprensa afligem-me, porque não vejo consciência do que dizem. Há entre nós uma falta absoluta de senso

22

Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, de 25 de Abril de 1864, transcrita em Carreiro, José Bruno, Vida de Teófilo Braga…, p. 46.

23

Cfr. Araújo, Joaquim de – “Ensaio de bibliographia antheriana”. In Anthero de QuentalIn Memoriam…,p. XLVII. 24

Cfr. Quinquagenário. 1858 a 1908. Cincoenta annos de actividade mental de Theophilo Braga julgados pela critica contemporanea de tres gerações litterarias. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, José Bastos & C.a, 1908, p. 108. 25

Carta referida na nota 22.

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estético26. (…). Gente de importância tem querido ser-me apresentada e eu recuso-me a isso27”. Antes de 1864 terminar, o nosso vitoriado autor publicará uma outra obra poética, as Tempestades Sonoras, dentro do molde filosófico historicista e simbolista que tinha já garantido o aplauso da crítica à Visão dos Tempos. Aquela obra era antecedida por um preâmbulo intrincado e pouco perceptível. Isso explica que o juízo de Pinheiro Chagas, embora positivo, tenha sido agora mais contido, sobretudo nos reparos feitos às tais considerações obscuras. Mas a apoteose irá perdurar. Nas férias do Natal, Teófilo Braga foi homenageado em Lisboa com uma refeição à qual compareceram individualidades literárias muito prestigiadas, contando-se, entre elas, António Feliciano de Castilho, Latino Coelho, Mendes Leal, Luís Augusto Palmeirim, Júlio César Machado, Silva Túlio e o Conde de Ficalho. Tratar-se-ia do definitivo reconhecimento público? Talvez não. Nos primeiros dois terços do ano de 1865, as reticências para com os seus trabalhos literários irão acumular-se. No Diário Oficial do Império do Brasil, António Feliciano de Castilho fez publicar uma carta de apreciação às Tempestades que não se saldava por um aplauso sem restrições; pouco depois, no Jornal do Comércio, Camilo Castelo Branco e Manuel Pinheiro Chagas secundá-lo-ão, declarando Chagas, com azeda ironia, que Teófilo tomava todos os dias “tisanas filosóficas”28. Entretanto, Coimbra ia mudando. Em Abril de 1864 o esforço de abertura de uma via-férrea entre Lisboa e o Porto contemplou Coimbra, finalmente servida pelo meio de transporte que melhor lhe poderia quebrar o isolamento. A partir de então, a cidade universitária converteu-se num objecto de curiosidade por parte de numerosos forasteiros. Deste modo, chegou à cidade, de visita, a família Barros Leite, vinda do Porto. O grupo, composto pela velha mãe acompanhada por dois filhos estudantes – um condiscípulo de Teófilo em Direito e outro cursando Medicina – e por uma filha, “menina gentil e fresca, que teria os seus 18 a 20 anos”, passou junto à janela do nosso açoriano. O condiscípulo de Teófilo chamou-o para o saudar e a família continuou a sua deambulação. O efeito foi instantâneo: “Cumprimentei e sem demora seguiram o seu caminho. Eu é que fiquei abalado diante daquela perspectiva

26

Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, de 22 de Maio de 1864, idem.

27

Carta de Teófilo Braga para Francisco Maria Supico, de 27 de Junho de 1864, idem, p. 47.

28

Cfr. Supico, Francisco Maria – ob. cit., pp.231-234.

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da irmã do meu condiscípulo, e para definir a minha situação fala aqui por mim Camões: E logo presa / A vontade senti de tal maneira, / Que nada sinto ainda que mais queira”29. Através do irmão, Teófilo Braga encontrou maneira de se imiscuir no seio da família e de iniciar um namoro que, anos depois, o haveria de conduzir ao casamento. Por este tempo, ele já não era um anónimo, um vulgar estudante como os demais. Os professores anotavam o seu bom desempenho académico, conhecendo igualmente o seu talento literário. Conquistara também o respeito dos colegas, que o encaravam como uma comprovada inteligência e como um laboriosa vontade, antevendo-lhe largos voos. Aliás, Teófilo tudo fazia para manter bem alta a sua reputação. Escrevera uma peça de teatro para ser representada no Teatro Académico. O entrecho versava sobre a perseguição movida pelo Marquês de Pombal a Ferreira Garção, fundador da Arcádia, sublinhando a infâmia da decisão de libertação tomada por Pombal depois de tomar conhecimento que Garção expirara no Limoeiro30. A peça, em dois actos, intitulava-se Sede de justiça, mas mudou para Resignação por vontade da direcção do teatro. A estreia aconteceu na noite de 29 de Abril de 1865, data de aniversário da Carta Constitucional. Eça de Queirós desempenhou o papel do protagonista mas a peça não agradou, talvez devido ao prosaísmo “agreste e didáctico”31 com que Teófilo a cerziu e à utilização de vocábulos empolados e sem a menor naturalidade. Na sua apresentação foram distribuídas pela assistência umas quadras da lavra de Guerra Junqueiro, por ele expressamente dedicadas ao autor da obra teatral. O ano de 1865 não chegaria ao seu termo sem que Teófilo se envolvesse numa contenda literária de grandes dimensões. O ponto de partida centrou-se numa apreciação que António Feliciano de Castilho incluiu na obra de Manuel Pinheiro Chagas, Poema da Mocidade, objectando à forma e substância das obras publicadas no passado mais próximo por Antero de Quental e

29

Carta de Teófilo Braga a Francisco Maria Supico, de 20 de Maio de 1864, ob. cit., p. 220.

30

Cfr. Braga, Teophilo – As modernas ideias na litteratura portugueza. Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron-Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, 1892, vol. II, p. 312.

31

Simões, João Gaspar – Vida e obra de Eça de Queirós. Amadora: Livraria Bertrand, 1980, 3ª edição, pp. 56-57.

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Teófilo Braga32. Antero acabara de escrever as Odes Modernas, cujo conteúdo revolucionário desagradara a corrilhos lisbonenses afectos a Castilho. Assim, veio à liça com o folheto Bom Senso e Bom Gosto. Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho33e Teófilo foi-lhe na peugada, escrevendo As Teocracias Literárias. Relance sobre o estado actual da literatura portuguesa34. Em ambos os casos nos encontramos perante a reivindicação da actualização temática e filosófica das letras portuguesas, tarefa para a qual os dois açorianos consideravam inapto o patriarca Castilho. A refrega tornou-se geral e constituiu, sem dúvida, “uma forte machadada no modelo romântico, verboso e repetitivo, artificial e conservador”35. Antero e Teófilo apontavam claramente para um novo modelo, ainda romântico, mas “mais social e abstractivo, mais simbólico e filosofante, com uma seiva fornecida pelo historicismo teórico do idealismo alemão, pela historiografia romântica francesa e pelas imprecações de autores socialistas ou socializantes”36. Seria desadequado detalhar aqui todas as minudências desta polémica, que passou à história sob o nome de “Questão Coimbrã”. Nela se comprometeram alguns dos nomes mais sonantes da cultura portuguesa oitocentista, com relevo para os de Ramalho Ortigão, Camilo Castelo Branco, Teixeira de Vasconcelos, Alberto Osório de Vasconcelos, Urbano Loureiro e Luciano Cordeiro. Teófilo dera liberdade nesta contenda à sua ira, cometendo a imperdoável deselegância de considerar, nas suas Teocracias, que a reputação de que gozava Feliciano de Castilho se devia ao facto de ser cego37. Num repente, viu sumir-se a torrente de elogios que sobre ele fora anteriormente espargida e também minimizados os

32

Cfr. Castilho, António Feliciano de – “Crítica Literária”. In Ferreira Alberto; Marinho Maria José, Bom Senso e Bom Gosto (A Questão Coimbrã). Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, 2ª ed., pp. 175-230.

33

Cfr. Quental Antero de – “Bom Senso e Bom Gosto”, idem, pp. 231-247.

34

Cfr. Braga Teófilo – “As Teocracias Literárias”, idem, pp. 331-341.

35

Homem, Amadeu Carvalho – Do Romantismo ao Realismo. Temas de Cultura Portuguesa (Século XIX). Porto: Fundação Engº António de Almeida, 2005, p. 56. 36 37

Idem, Ibidem.

“Digamos a verdade toda. O Sr. Castilho deve a sua celebridade à infelicidade de ser cego. O que se espera de um cego? Apenas habilidade. É uma celebridade triste porque tem origem na compaixão, e a compaixão fatiga-se” (Braga, Teófilo – “As Teocracias Literárias”, cit., pp.339-340).

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proventos que ia auferindo. Assim, o Jornal do Comércio retirou-lhe a avença anteriormente estipulada. Mas, ao contrário da lenda que Teófilo pôs a correr, não é verdade que o seu equilíbrio económico tivesse ficado irremediavelmente comprometido. Os Contos Fantásticos, que José Fontana lhe fez imprimir através da livraria Bertrand, tiveram bom acolhimento e a Ondina do Lago viria a proporcionar-lhe a correspondente remuneração. Porém, o temporal literário em que se envolvera iria cavar ainda mais os alicerces de uma cidadela psicológica sumamente individualista, de iniludíveis contrafortes narcísicos, associados à agressividade implacável com que passou a encarar quase todas as relações de coexistência social. Existem excertos na sua correspondência amorosa que falam por si: “vejo em volta de mim a degradação e a vileza, a estupidez que iguala tudo, o cinismo que tudo deturpa38 (…); O amor subiu-me à cabeça (…). Os outros não têm isto na vida; eu sei-o perfeitamente, porque os vejo baixar, infames, torpes, frívolos, inúteis39; (…) A vida de foragido que tenho levado desde os primeiros anos, acostumara-me a ver em cada pessoa um inimigo; fugia para mim mesmo, para a fortaleza interior. O que tinha a esperar deles? Nada. O que podiam exigir de mim? Apenas as acções de justiça que são frias, impassíveis. Fiquei com esta severidade e aspereza que me ia tornando intratável, incapaz de me dar com os outros, com um carácter duro que o seu amor tem adoçado40”. A “vida de foragido” referida por Teófilo não passava, nesta fase da vida, de uma construção subjectiva. Bastará referir dois ou três factos para que a ficção se esfume. Longe de ser perseguido, ele era em Coimbra muito considerado intelectualmente. Luís Jardim, estudante do 6º ano de Direito e candidato à carreira docente universitária, instou-o a redigir uma parte da sua dissertação inaugural, tarefa que foi aceite contra a ocupação por Teófilo de uma sobreloja independente do proponente, o que lhe poupou encargos de alojamento. Também satisfez o pedido do professor Pais Novo, da Faculdade de Direito, de catalogar as livrarias das ordens religiosas de Coimbra, ficando expectante quanto à hipótese, também nessa altura mencionada, de poder vir a desempenhar as funções de conservador ou de sub-bibliotecário da Biblioteca da

38

Carta de Teófilo Braga a Maria do Carmo Barros Leite, de 15 de Janeiro de 1866, Biblioteca Pública de Ponta Delgada – Espólio de Teófilo Braga, Cx. Nº 20 de correspondência. 39

Carta de Teófilo Braga a Maria do Carmo Barros Leite, de 4 de Março de 1866, idem.

40

Carta de Teófilo Braga a Maria do Carmo Barros Leite, de 14 de Abril de 1866, idem.

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Universidade41. A comprovação definitiva da sua notoriedade académica está no convite que a Faculdade de Direito lhe dirigiu, após a conclusão do seu 5º ano, para cursar mais um ano e defender a tese de doutoramento que o poderia habilitar ao ingresso no magistério superior. O convite seria aceite. Na primavera de 1868, Teófilo Braga contraiu casamento, no Porto, com Maria do Carmo Barros Leite, ficando a viver provisoriamente na casa dos sogros. Tornava-se agora mais necessária do que nunca a estabilização que lhe poderia ser trazida por um estatuto profissional. Antes do doutoramento, candidatou-se à cadeira de Direito Comercial da Academia Politécnica do Porto, mas ficou excluído por unanimidade42. Depois dele, aguardou longamente que fossem abertas vagas de lentes substitutos na Faculdade de Direito em Coimbra para poder disputar uma delas. Neste ínterim, ribombará sobre Teófilo o juízo desapiedado de Alexandre Herculano, um dos árbitros mais respeitados do horizonte cultural de então. Contém-se esse juízo numa carta, de 1869, que o famoso autor da História de Portugal dirigiu a Oliveira Martins, agradecendo-lhe um opúsculo onde este se pronunciava acerca do Romanceiro e do Cancioneiro teofilianos. Herculano deplorou nessa missiva o gongorismo da filosofia teofiliana da história, acrescentando as seguintes considerações, arrasadoras para Teófilo, por se reportarem a traços tidos por ele como intocáveis: “Teófilo Braga é uma inteligência completa e uma grande vocação literária, mas uma fraca vontade; gosta de fazer ruído; deseja adquirir reputação; não possui porém o querer robusto que vai até ao sacrifício, que vai até ao martírio e que é preciso para se tornar um homem superior”43. Herculano passou imediatamente à galeria negra dos ódios de Teófilo, indo ser, doravante, um dos alvos proverbiais dos seus múltiplos ressentimentos. A este dissabor iria suceder-se um outro: em Fevereiro de 1871 viu-se preterido por outros candidatos, que considerava inferiores a si, no concurso que finalmente abrira

41

Cfr. Supico, Francisco Maria – ob. cit., pp. 250-254.

42

“Concorri à cadeira de Economia Política da Academia Politécnica do Porto. Deitaram-me onze favas pretas. António Girão, então lente do estabelecimento, disse que só um concorrente era águia. Foi votado um cunhado de um membro do júri …” (Entrevista com Teófilo Braga conduzida por Rocha Martins, “Cincoenta annos de litteratura”. In Illustração Portugueza, 2ª série, 1º semestre, Lisboa, 1906, p. 22).

43

Carta de Alexandre Herculano a Oliveira Martins, in Quarenta annos de vida litteraria (1860-1900), cit., p. 78 (nt. 1 da p. 77).

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para o provimento de lentes substitutos da Faculdade de Direito. Um dos admitidos foi Luís Jardim, a quem escrevera, em 1866, parte da dissertação inaugural! Uma vez mais, Teófilo Braga não iria descartar a ocasião de acertar contas com o júri da instituição e com a sua própria alma mater na História da Universidade de Coimbra, que haveria de redigir, muito mais tarde, dentro do mais implacável e severo estilo condenatório44. Numa índole sistemática como a de Teófilo tinham necessariamente de preponderar imperativos de unidade criativa. O historicismo era a matéria-prima na qual se deveria plasmar a regra de um encadeamento necessário. As suas conversas com Joaquim Duarte Moreira de Sousa, professor de Matemática do liceu de Castelo Branco e convicto positivista45, produziram nele um efeito tamanho que se lhe impôs a necessidade de remodelar a epopeia da humanidade que exaltara avulsamente na Visão dos Tempos, nas Tempestades Sonoras ou na Ondina do Lago46. Por sua vez, a diversidade de leituras de autores mais alinhados pelo “espírito de positividade” – como Herbert Spencer, Stuart Mill, Renan, Vacherot, Darwin ou Haeckel – do que pela obediência estrita e literal a Augusto Comte e a Emílio Littré, encaminharam-no para uma síntese de teor epistemológico cientificista e de conteúdo político republicano47. Esta inflexão mental estava a iniciar-se quando Teófilo Braga se apresentou, em Maio de 1872, ao concurso oficial para provimento da terceira cadeira (Literatura Moderna da Europa, especialmente a portuguesa) do Curso Supe-

44

Cfr. História da Universidade de Coimbra nas suas relações com a instrucção publica portugueza Tomo IV- 1801 a 1872 , Lisboa, Por ordem e na Typographia da Academia Real das Sciencias, 1902, pp. 546-554.

45

Veja-se o depoimento de Sampaio Bruno sobre Moreira de Sousa na obra Os modernos publicistas portuguezes , Porto, Livraria Chardron, 1906, p. 307. 46

Leiam-se as considerações iniciais de Teófilo Braga na Visão dos Tempos. Tomo I – Cyclo da Fatalidade. Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron-Casa Editora M. Lugan, Successor, 1894. 47

Para Teófilo Braga, a originalidade do trabalho de Comte consistiu em estabelecer a justa dependência entre as ciências e a filosofia, tarefa até então gorada pelo excesso de especialização científica e pelo apriorismo das especulações. Considerou, por isso, “a missão de Augusto Comte na história intelectual da Humanidade” como “brilhante e decisiva no intuito, mas transitória na forma” (“Disciplina mental”. In O Positivismo, Primeiro Anno, Nº 1, Outubro-Novembro, Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz-Editores, 1878, p. 14.)

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rior de Letras. Teve como opositores Manuel Pinheiro Chagas, o dilecto de António Feliciano de Castilho, e Luciano Cordeiro, cuja ideologia o tornava simpático ao poder vigente. Sentindo que jogava o seu futuro neste lance, Teófilo esmerou-se na redacção de uma tese de bom nível, intitulada Teoria da História da Literatura Portuguesa. O que neste embate se tornou muito singular e dificilmente explicável foi o patrocínio dado por Antero de Quental, no folheto Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (A propósito de alguns livros recentes), à candidatura de Pinheiro Chagas, exaltando-lhe calorosamente a tese48. Pois não era Chagas o mesmo que movera guerra sem quartel aos dois açorianos no decurso da “Questão Coimbrã”? Não era ainda ele o favorito de Feliciano de Castilho, contra o qual Antero escrevera folhetos indignados? Não fora a pena de Teófilo a defender a mesma barricada literária na guerrilha de 1865-66? E não se mantivera ele mudo perante o abuso perpetrado no ano anterior pelo conterrâneo, ao incluir-lhe o nome, sem sequer o consultar, no panfleto anunciador das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense? O triunfo indiscutível que Teófilo Braga alcançou neste concurso não foi suficiente para lhe aplacar a animosidade em relação à figura moral e literária de Antero, postura que iria manter até ao fim da vida. A partir deste momento iniciar-se-á uma nova fase da vida de Teófilo Braga. Já com uma filha nascida, mudou-se para Lisboa, acabando por se fixar na Travessa de Santa Gertrudes, à Estrela, num “prediozinho azulejado e estreito”49, e trilhando um longuíssimo magistério no Curso Superior de Letras. Que imagem deixou ele aos seus alunos como professor? Não podemos dizer que os tenha deslumbrado. Os depoimentos que chegaram até nós sublinham a sua “voz baixinha, em ritmo invariável, fluindo numa exposição improvisada, sem atractivo que não fosse um ou outro imprevisto encontro do termo pitoresco da linguagem do povo com o termo solene da tecnologia científica”50. Ninguém lhe poderia contestar a erudição, mas muitos se

48

Cfr. Homem, Amadeu Carvalho – Teófilo Braga. Ramalho Ortigão. Antero de Quental. Diálogos Difíceis. Coimbra: Imprensa da Universidade, 2009, pp. 92-94.

49

Sampaio, Albino Forjaz de – Grilhetas. Lisboa; Editores Santos & Vieira-Empresa Literária Fluminense, 1916, p. 127. 50

Cidade, Hernâni – Doutor Teófilo Braga. As directrizes da sua obra de história literária. Lisboa: s. e., 1935 (Separata da “Revista da Faculdade de Letras”, Tomo II), p. 5.

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queixaram da “monótona frieza”51 do seu discurso pedagógico. Talvez por isso, as suas aulas foram invariavelmente pouco frequentadas, uma vez que as prelecções se tornavam enfadonhas e difíceis de acompanhar. Foi também um professor dotado de uma indulgência quase sem limites: segundo consta, só uma vez reprovou um aluno, na presidência de um júri onde lhe coube o voto de desempate52. É muito provável que no seu cérebro ecoasse o raciocínio que alguns discípulos imaginaram vislumbrar-lhe: “Reprovar? Não. Reprovado fui eu três vezes consecutivas, comentava ele, e eu era Teófilo Braga. Nada, nada, não quero tirar o pão a ninguém. Aquele primeiro comentário não o aduzia ele mas admitíamo-lo nós”53.

Maria do Carmo, esposa de Teófilo, com a filha de ambos, Maria da Graça. In As Primeiras da República Portuguesa 1910-2005, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 31

Era previsível a sua entrada na militância republicana. Assim, foi alistar-se na ala esquerda do republicanismo do tempo, escrevendo alguns dos mais vigorosos artigos de fundo no semanário O Rebate, de tendência federalista. Apesar da sua função docente, não hesitou em filiar-se no Centro Republi51

Castro, Eugénio de – Cartas de torna-viagem. Coimbra: “Lumen” Empresa Internacional Editora, Vol. I, 1926, p. 47.

52

Moreno, Mateus – “Dr. Teófilo Braga”. In Alma Nova, nºs. 13-15, 3ª série, vol.2º. Lisboa: Janeiro-Março de 1924, p. 13. 53

Tavares, A. R. Galiano – Prateleira de insignificâncias (Um ano de modesto jornalismo). Porto: Empresa. Industrial Gráfica do Porto, L.da, s. d., pp. 40-41.

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cano Democrático, quando este se organizou em 1875. As intrigas entre facções levaram-no a manter-se passivo até 1878. Os federalistas que se haviam excluído daquele Centro fizeram-no aceitar nesse ano uma candidatura a deputado pelo círculo 94. Foi através dele que nesse acto eleitoral vingou a nova forma do mandato imperativo, o qual divergia das outras formas de representação porque supunha a existência de um vínculo contratual escrito entre os eleitores apoiantes e o mandatário54. Obteve nesse acto eleitoral mais de quatro centenas de votos – resultado muito lisonjeiro, dadas as prevenções anti-republicanas que a monarquia instilava na opinião pública – mas não logrou entrar na correspondente câmara legislativa. Foi ainda durante esse ano de 1878 que surgiu em Portugal o primeiro número da revista O Positivismo, como resultado da cooperação mantida entre Teófilo Braga e Júlio de Matos. Arrostaram ambos com as maiores contrariedades para conferirem ao projecto a necessária viabilidade, tendo sido capazes de erguer uma publicação que representou, sem a menor dúvida, o momento mais alto da difusão sistemática do positivismo em Portugal55. Significa isto que os primórdios da Sociologia entre nós se acham cronologicamente balizados pelos anos de publicação da revista, a qual só irá desaparecer em 1883. O Positivismo “ratificou entre nós aquela orientação teórica de vanguarda que fundia a parte propriamente científica do pensamento de Augusto Comte com o evolucionismo biológico de Darwin, Wallace, Haeckel e Baer e até com vincadas influências do materialismo de Büchner”56. A solidariedade intelectual entre Teófilo e Júlio de Matos é tanto mais surpreendente, pela sua tenacidade e militância, quanto é certo que entre ambos se interpunha a distância que separava as cidades de Lisboa e Porto, onde ambos, respectivamente, viviam. O que continuava a crescer era a sua obra. No remanso doméstico da Travessa de Santa Gertrudes, à Estrela, a vida era repartida entre as alegrias familiares, agora complementadas pelas travessuras de dois filhos pequenos, e uma

54

Cfr. Bastos, Teixeira – Theophilo Braga e a sua obra. Porto: Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, 1892, pp. 14-16.

55

Para um conhecimento mais minucioso da forma como se desenvolveu o plano de publicação da revista O Positivismo leia-se António Ferrão, Teófilo Braga e o Positivismo em Portugal (Com um núcleo de correspondência de Júlio de Matos para Teófilo Braga), Lisboa, 1935 (Separata do “Boletim de Segunda Classe”, Vol. XIX, da Academia das Ciências de Lisboa). 56

Homem, Amadeu Carvalho – A ideia republicana em Portugal…,p. 65.

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incessante labuta de pesquisa e de síntese, num esforço vertido em páginas incontáveis. Foi esse titânico esforço que fez um dia Ramalho Ortigão sublinhar que Teófilo “não publica um volume por semana pela razão única de que não há prelos em Portugal que acompanhem a velocidade vertiginosa da sua pena”57. O seu gabinete de trabalho era a sala onde instalara a sua biblioteca. Aí se acumulavam os papéis e documentos que lhe serviam de suporte à redacção. Escrevia “em largas folhas de papel, de um lado e outro”, numa caligrafia “rápida, fina e irregular”, que servia uma forma “espontânea, regular e natural”. Albino Forjaz de Sampaio, que bem o conheceu, acrescenta: “Quando tenciona fazer algum trabalho leva para junto da sua mesa todos os livros e todos os materiais que com ele se relacionam. Então começa escrevendo, isoladamente, sem convivências mais que a dos seus livros e a dos seus alunos e em curto espaço de tempo dá-nos um volume cheio de erudição”58. Pai desvelado e atento, era o seu canivete que moldava a cortiça ou a madeira para, nos intervalos do estudo, produzir os mais ingénuos e imaginosos brinquedos com que os filhos se recreavam. Professor de saber erudito, reconhecido pelos seus colegas e contemporâneos cultos, repudiava com clareza toda a sorte de ostentações de elite. Neste último aspecto, muitos lhe censuravam a exagerada modéstia do vestuário, que alguns qualificavam de desleixo, e nem todos aplaudiam os hábitos plebeus de recorrer por sistema aos transportes públicos, ombro a ombro com o mais comum dos lisboetas. A sua figura franzina movia-se através do recurso a passadas curtas, quase sempre apressadas, como se em cada momento o acicatasse o aguilhão de uma ideia fixa, absorvente, ou a pressão de uma tarefa urgente. A silhueta de Teófilo tornava-se ainda inconfundível pelo pitoresco que lhe era adicionado pelo seu inseparável guarda-chuva. Essa malva – como então lhe chamaram – tornou-se lendária e gerou frequentes zombarias. Muito poucos a souberam filiar na originária precaução do ilhéu açoriano em relação à instabilidade meteorológica do torrão natal, servindo-lhe de arrimo em todas as estações do ano. O tempo consagrado ao ócio não abundava.

57

Ortigão, J. D. Ramalho – Teophilo Braga. Esboço biographico. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1879, p. 16. 58

Sampaio, Albino Forjaz – ob. cit., pp. 127-128.

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Caricatura de Teófilo Braga. [em linha] Abril de 2011. Disponível em http:// causamonarquica.com/2008/09/21/o-que-teofilo-braga-presidente-do-governo-provisorio-que-implantou-a-republica-pensava-dos-restantes-republicanos-e-do-regime/

Apesar de tudo, Teófilo conservou o hábito de dar passeios a pé, agora dentro de Lisboa, à semelhança do que praticara em Coimbra nos seus tempos de estudante. E uma outra reminiscência do passado irrompia também agora: o gosto pela música. Do mesmo modo que na sua ilha se deslumbrara com as Matinas do Espírito Santo, em que então se esmerava o Padre Silvestre Serrão, comprazia-se agora com as interpretações dos grandes clássicos, ouvidas no Teatro de S. Carlos, “enroupado na sua velha casaca” como “assinante fiel duma frisa”59. Embora não fosse executante de qualquer instrumento musical, aprofundou conhecimentos teóricos suficientes para se poder pronunciar com segurança sobre peças, autores e orquestrações. O resto do tempo, descontadas as horas de aulas e de reuniões no Curso Superior de Letras, ia para os seus livros e para a placidez da vida de família. Apesar de primordialmente devotado à construção da sua imponente obra de investigação, Teófilo Braga seguia atentamente a evolução política do seu tempo. As contínuas pressões dirigidas pela chancelaria britânica ao governo

59

Sarmento, Olga de Morais – ob. cit., p. 25.

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português no âmbito da gestão colonial convenceram-no de que a Grã-Bretanha não era mais do que uma potência cúpida, sem outros valores que não fossem os da defesa dos interesses próprios, ainda que estes carecessem de toda a legitimidade. A sua anglofobia levou-o a qualificá-la como “a Cartago do mundo moderno, que um dia terá de ser destruída pela necessidade da solidariedade dos povos para a civilização humana”60. Por isso, quando foram conhecidas as leoninas cláusulas do tratado de Lourenço Marques, que colocavam Portugal numa posição manifesta de inferioridade, Teófilo Braga publicou no jornal republicano A Vanguarda um conjunto de artigos de protesto. Neles, o professor do Curso Superior de Letras não se limitou a sublinhar que o procedimento diplomático britânico colocava Portugal na situação deplorável “de uma desgraçada feitoria inglesa”61. Acrescentou ainda que a dinastia de Bragança inaugurara uma tradição de subserviências, de favores pautais, de alienações de soberania colonial, de abdicação de brios patrióticos perante aquela que, por irrisão, se apresentava como nossa aliada. O tratado de Lourenço Marques era considerado “a página mais afrontosa da nossa história no século XIX”62. Assim, a sua crítica não vergastava apenas a ilegítima ambição inglesa, mas também levava ao pelourinho a própria instituição monárquica, através da galeria dos monarcas que mais notoriamente se lhe haviam rendido. Era uma galeria que se iniciara com D. João IV mas que abrangia igualmente a maior parte dos seus sucessores, incluindo D. Maria II e D. Luís. Foi ao calor dos protestos gerados pelo tratado que alguns dos mais distintos vultos do tempo decidiram, na peugada de Teófilo, atribuir ao tricentenário da morte de Camões, que iria ocorrer em 10 de Junho de 1880, um significado transcendente. Tratava-se de apelar para o mais profundo das forças anímicas da Grei, convertendo as comemorações tricentenárias no momento simbólico de uma revivescência colectiva. Importava, mais do que tudo, retirar o país do atoleiro da descrença que o paralisava e converter a festa camoniana no ponto de viragem para novos e mais altos objectivos patrióticos. O rei e os seus áulicos mantiveram perante o evento atitudes de distância e de alhea-

60

Braga, Teófilo – Soluções positivas da política portugueza. Porto: Livraria Chardron, 1912, Vol I, p. 199.

61

Braga, Teófilo – “Os nossos fiéis aliados”. In A Vanguarda, nº 7, 20 de Junho de 1880, p.1, col.1. 62

Braga, Teófilo – Soluções positivas…, p. 245.

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mento, contribuindo poderosamente para a mobilização de todas as forças do Partido Republicano, que acabou por ser o principal beneficiário de toda esta movimentação, arrecadando as correspondentes vantagens de afirmação e de dinamização. Em termos individuais, contudo, os louros da iniciativa foram colhidos por Teófilo Braga e por Ramalho Ortigão, dado o facto de terem sido os rostos mais visíveis e empenhados desta notável jornada. Durante o ano de 1880, Teófilo desdobrou-se em alocuções e conferências de temática camoniana, apresentando-as em instituições académicas (Curso Superior de Letras), em sítios públicos de diversão (salão do Teatro da Trindade) ou até em agremiações populares (sala da Associação “Pelicano”). Saíram também da sua pena, para marcar a efeméride, um conjunto de estudos específicos sobre a vida e obra de Luís de Camões, sendo de destacar a Bibliografia Camoniana, o Retrato e Biografia de Camões, O Poema de Camões e O Centenário de Camões.

Teófilo Braga em 1880. In As Primeiras da República Portuguesa 1910-2005, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 29

Esta pertinaz actividade tornou Teófilo Braga uma figura popularíssima e forjou-lhe a fama de democrata exemplar no interior dos círculos republicanos. Não admira, portanto, que o tenham requisitado para uma infinidade de intervenções públicas e para o desempenho de numerosos lugares de representação honorífica. Entre 1881 e 1885, desdobrou-se em palestras, conferências

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e discursos, proferidos em comícios, centros e associações. Aceitaria a presidência do Centro Republicano Federal de Lisboa, mas iria recusar peremptoriamente, em carta inserta no jornal A Vanguarda, que fosse atribuído o seu nome à Associação Escolar e Eleitoral Pinto Ribeiro. Em 1882, operários de Lordelo do Ouro voltaram a querer baptizar de igual modo um clube eleitoral democrático de instrução, mas Teófilo manteve a mesma firmeza de rejeição. Neste ano, a Comissão Académica Executiva do Centenário do Marquês de Pombal requereu e obteve os seus bons-ofícios, traduzidos em conferências abertas. Uma delas encontrava-se programada para o Teatro D. Maria II, mas o governo monárquico proibiu a utilização do espaço, forçando à utilização alternativa do Teatro do Rato. Teófilo descansava desta febricitante actividade recolhendo-se a Airão, no Minho, por altura das férias grandes. Já atrás ficou dito que era harmonioso o ambiente do lar que o professor açoriano soubera construir. No refúgio de Santa Gertrudes compensava ele a solidão do estudo e da investigação, partilhando afectos com D.ª Maria do Carmo Barros Leite, sua Mulher, e com os dois filhos que esta lhe dera: Maria da Graça, a filha mais velha, e Teófilo, o mais novo. Subitamente, a desgraça atroz, quase inverosímil na sua sanha destruidora, abater-se-á sobre esta família. Em pouco mais de três meses, entre os finais de 1886 e os começos de 1887, a morte roubar-lhe-á ambos os filhos. O primeiro a finar-se foi o pequeno Teófilo, em 7 de Dezembro de 1886, no viço dos seus treze anos. O biógrafo nada mais tem a fazer, neste ponto, do que dar a palavra ao destroçado pai, revoltado “contra esta brutalidade da natureza que mata uma criança alegre, inteligente e cheia de esperança, que horas antes de expirar ainda pensava no prazer de viver. (…) A perda das minhas esperanças com a morte de um filho amado, com treze anos de idade, com uma comunhão moral tão completa comigo, a sua falta para sempre, o vazio que nos deixou nesta casa que ele enchia de risos, nada chega à pena que ele por si nos desperta por ter saído desta vida sem ter passado pela evolução que competia ao seu ser físico e moral. Eu aceito a dor como uma fatalidade; e tendo-o acompanhado noite e dia na sua doença, com as minhas mãos o amortalhei e com santa piedade o meti no caixão, para que mãos estranhas não profanassem os restos deste naufrágio da minha alma. (…) Minha mulher me acompanhou e velou sozinha comigo esta criança encantadora, metendo-lhe nas mãos um pedaço da sua grinalda de noiva, guardada há dezanove anos para se desmanchar quando menos esperávamos. (…) Parece que nunca o amámos tanto como agora, que nunca o contemplámos, que nunca nos unimos mais do

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que nestas horas que se sucedem, aumentando a nossa perda, tornando mais inconsolável a nossa dor”63.

Desenho feito por Teófilo Braga, de seu filho Teófilo, falecido em 1886. In As Primeiras da República Portuguesa 1910-2005, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 29

Mas a cega e bruta fatalidade quis completar a sua obra, levando à cova pouco depois, em 18 de Março de 1887, a filha mais velha, Maria da Graça, na flor dos seus dezasseis anos. Escrevendo à sua irmã freira, Maria José, Teófilo Braga caracterizava assim a sua pungentíssima tragédia familiar: “A minha Maria da Graça, aquela criança linda, inteligente e incomparável na soberania de carácter e de pureza de alma, morreu-nos no dia 18 de Março, depois de uma lancinante agonia de catorze horas! Era a única filha que nos restava e com ela perdemos tudo, tudo. Entre a morte dela e a do Teofilinho, que ainda chorávamos todas as horas, mediaram apenas três meses e onze dias. Que fatalidade desabou sobre a minha casa e fez de um presente tão risonho e cheio de esperanças, um vazio, uma solidão material e moral, trocando todos os momentos da vida em uma dor sem consolação. E o que mais é, vejo-me forçado a abafar o meu desespero, para não deixar cair na loucura a

63

Carta de Teófilo Braga a Francisco Maria Supico, de 21 de Janeiro de 1887. In Carreiro, José Bruno – Vida de Teófilo Braga…,pp. 81-82.

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pobre alma de minha mulher, ferida mortalmente na sua santa maternidade. (…) Nenhum golpe me podia ferir mais fundo e deixar-me vivo para sofrer mais esta angústia que cresce com o tempo. Estamos agora sem filhos! Não fazes ideia do que esta frase significa. Ao fim de vinte anos de casados, eu e a minha mulher achamo-nos sós diante um do outro, com três filhos na cova64, e olhando desalentados para um passado que tanto nos mentiu. Tem compaixão de nós”65. A alma sensível de João de Deus vibrou em uníssono com a de Teófilo Braga, mobilizando poetas portugueses e brasileiros para que fosse elaborado um livro de homenagem às duas crianças falecidas. Anselmo de Morais, o editor da História da Literatura Portuguesa de Teófilo, prontificou-se a imprimir essa obra. Esta surgiu em 1889, sob o título A maior dor humana, comportando o subtítulo Coroa de saudades oferecida a Teófilo Braga e sua esposa para a sepultura de seus filhos. A dimensão da terrível tragédia anulou os ressentimentos polémicos que Camilo Castelo Branco nutria para com aquele pai devastado. Aliás, o título da obra colectiva reproduziu o do belíssimo soneto composto por Camilo: Que imensas agonias se formaram sob os olhos de Deus! Sinistra hora em que o Homem surgiu! Que negra aurora, que amargas condições o escravizaram! Depois, um pai que em trevas vai sonhando, e apalpa as sombras deles onde os viu nascer, florir, morrer!... Desastre infando!

As mãos, que um filho amado amortalharam, erguidas buscam Deus. A Fé implora. E o céu que respondeu? As mãos baixaram Para abraçar a filha morta agora. Ao teu abismo, pai, não vão confortos És coração que a dor empederniu, sepulcro vivo de dois filhos mortos.66

Como reagiu Teófilo a este naufrágio de vida? A sua afectividade concentrou-se, como seria de supor, na sua companheira de sempre, procurando fazê-la esquecer os escombros da alma. Redigiu um testamento em 15 de Maio de 1887 através do qual pretendeu defendê-la contra pretensões ao património,

64

O primeiro filho do casal não vingou, tendo falecido em Fevereiro de 1869, pouco depois do nascimento.

65 66

Carta de Teófilo Braga a sua irmã Maria José, de 4 de Abril de 1887, idem, pp. 83-84.

Cfr. Bastos, Teixeira – ob. cit., pp. 17-21; Cartas de Teófilo Braga a António Tomás Pires (1883-1911), Prefácio e notas de Eurico Gama. Coimbra: Universidade de Coimbra, 1968 (Separata da “Revista da Universidade de Coimbra”, Vol. XXIII), p. 22, nt.32.

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eventualmente apresentadas por terceiros. Supomos que a sua preocupação determinante se centrava em direitos invocáveis pelo filho ilegítimo que deixara nos Açores. É também possível inferir do testamento a demarcação radical em relação a quaisquer contaminações religiosas. A crueza do seu drama, pela injustiça que lhe era inerente, reforçou-lhe o dissídio relativo ao império das teologias. Por isso, a sua declaração de vontade testamentária é taxativa na reclamação de um enterro civil, quando chegasse a sua hora67. Mas irá também reagir com o pragmatismo da sua transbordante actividade revolucionária e intelectual. Iremos encontrar Teófilo Braga a exercer as funções de secretário do Directório do Partido Republicano por alturas do 11 de Janeiro de 1890, data do Ultimato inglês. A esse Directório pertencia também José Elias Garcia, individualidade à qual eram imputadas, por sectores republicanos mais aguerridos, várias cedências ideológicas e transigências comprometedoras com sectores monárquicos. O Ultimato trouxe à ribalta do republicanismo uma nova geração, que o próprio Teófilo viria a caracterizar como “absolutamente activa”, distinguindo-a da “geração doutrinária” a que pertencia68. Estas duas gerações não poderiam deixar de entrar em conflito. O que estava em causa era a diferença metodológica com que se abordava a implantação dos valores democráticos: enquanto os “doutrinários” entendiam recorrer à persuasão pedagógica e transigiam com o jogo eleitoral, os “activos” consideravam esgotada a via da propaganda pacífica e queriam encetar, tão rapidamente quanto possível, a via da luta armada69. Em Lisboa, porém, a questão fundamental não era metodológica: era a de uma simples luta de poder entre facções. Havia claramente uma facção anti-garcias, à qual se ligavam nomes como os de Francisco Manuel Homem Cristo, Manuel de Arriaga ou Alves Correia. Quando se realizou na capital o 4º Congresso do Partido Republicano, nas instalações da Associação Fernandes Tomás, os apoiantes de Elias Garcia foram postos em minoria e o Directório passou a ser encabeçado por Homem Cristo. Como Teófilo Braga

67

Cfr. Carreiro, José Bruno – Vida de Teófilo Braga…,pp. 84-86.

68

Cfr. Braga, Teófilo – Discursos sobre a Constituição Politica da Republica Portugueza. Proferidos na discussão da generalidade e especialidade, nas sessões de 18 de Julho e 2 de Agosto de 1911 na Assembleia Nacional Constituinte por ... . Lisboa: Livraria Ferreira, 1911, p. 23. 69

Cfr. Homem, Amadeu Carvalho – A propaganda republicana. 1870-1910. Coimbra; 1990, pp. 27-50.

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se mantivera distante de todas estas controvérsias, foi com a maior naturalidade que anuiu a transitar para este novo Directório. No Porto, porém, não houve disputas partidárias. Houve, isso sim, uma romântica decisão de recorrer a meios violentos para vingar o vexame do Ultimato e instalar o regime republicano. Nos bastidores da revolta frustrada do 31 de Janeiro de 1891 irão mover-se contraditoriamente as figuras do momento. Essa contradição seria de tal monta que os protagonistas pareceram ter os seus papéis trocados. Quando os revoltosos portuenses apelaram para o apoio das figuras lisboetas mais emblemáticas, assistir-se-á ao paradoxo de o terem recebido com maior generosidade do Directório encabeçado pelo “pusilânime” e “transigente” José Elias Garcia; pelo contrário, o director Homem Cristo, que centrara a sua campanha no Congresso no mote da falta de firmeza anti-monárquica dos garcias, arrastará o novo Directório para um explícito boicote ao pronunciamento dos republicanos do Porto, alegando – com bons motivos – que tudo se estava a fazer precipitadamente e à margem do curial envolvimento de altas patentes militares. Como Teófilo transitara de um Directório para o outro, é natural que a sua posição tivesse sido incómoda e pouco transparente. Não se livrará das acerbas acusações de Homem Cristo, num volume memorial e justificativo, publicado muito mais tarde70. Os homens do 31 de Janeiro sofreram as previsíveis condenações, exílios e deportações. Muitos deles jamais perdoariam ao Directório de Homem Cristo a falta de solidariedade, a indiferença e o abandono à sua sorte ingrata de vencidos. Teófilo Braga chegou mesmo a receber uma carta pessoal do conjurado Basílio Teles, na qual se exaravam as mais graves imputações de insensibilidade e de inércia desse mesmo Directório em relação às dificuldades de toda a ordem vividas no exílio pelos que tudo tinham arriscado no lance revolucionário71. Não andaremos longe da verdade se filiarmos nestas causas a decisão, tomada por Teófilo a partir de 1892, de moderar o seu envolvimento no partido e nas associações republicanas. Aos seus olhos, crescerá ainda mais a prioridade e importância do seu ofício de investigador. Não é que se tenha recusado a corresponder doravante aos mais diversos convites de agremia-

70

Cfr. Christo, Homem – Monarchicos e republicanos. Porto: Tipografia da Agência de Publicidade Nunes e Rocha, 1928, pp. 303-312.

71

Cfr. Homem, Amadeu Carvalho – Da Monarquia à República. Viseu: Palimage Editores, pp. 111-112.

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ções identificadas com o seu próprio ideário. Mas passou a fazê-lo mais como convidado do que como militante. Por isso, as causas que abraçou até ao momento da proclamação da República foram de natureza marcadamente literária ou intelectual, encontrando-se claramente subalternizado, embora não totalmente anulado, um trabalho de teor vincadamente político. Assim, profundamente reconhecido a João de Deus pela iniciativa da publicação d’A maior dor do mundo, deu-se ao trabalho de coligir toda a sua produção poética, dispersa por inúmeras publicações, apresentando-a, na sua unidade e beleza, no volume Campo de flores; por outro lado, ainda em sua homenagem, integrou diversas iniciativas em 1895, quando foi feita a João de Deus uma verdadeira apoteose nacional, coincidente com os seus 65 anos de idade. Colaborou também no centenário de Almeida Garrett, em 1899, e no de Bocage, em 1905. Teve ainda a íntima satisfação de ver condignamente saudados os seus cinquenta anos de vida literária. Conforme deixámos dito, esta iniciara-se em 1858, quando Francisco Maria Supico lhe publicou, no jornal Estrela Oriental, da Ribeira Grande, o ingénuo poema Canção do Guerreiro, dedicado ao seu irmão João, obrigado por castigo pelo austero progenitor a fazer a tropa no ramo de Infantaria. Em 1908 cumprir-se-ia, portanto, meio século de produção literária. A comissão executiva da efeméride, à qual pertenciam, entre outros, Sebastião de Magalhães Lima, Agostinho Fortes, Heliodoro Salgado, Botto Machado e Marques Braga, iniciou os seus trabalhos dois anos mais cedo e pôde assim fazer publicar, no momento próprio, o livro do Quinquagenário, no qual o labor teofiliano foi julgado pela crítica de três gerações literárias72. Foi também recordado pelos estudantes daquele mesmo Liceu de Ponta Delgada, onde assegurara a um professor céptico que um dia viria a ser doutor, com a publicação do folheto glorificador A Homenagem. A rememoração dos filhos levou o casal a recolher-se durante várias férias grandes à quinta do Airão, no Minho, em romagem saudosa por lá terem soado, num passado mais feliz, os ruidosos folguedos dos seus meninos mortos. Quando sobreveio a demencial experiência política de João Franco, Teófilo Braga considerou-a “uma Ditadura desvairada que tudo anarquiza

72

Cfr. Quinquagenario. 1858 a 1908. Cincoenta annos de actividade mental de Theophilo Braga. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, José Bastos & C.a, 1908.

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e afronta”73, mas não apareceu, como outrora, na crista das contestações. Porém, no período de estertor da monarquia, após o regicídio, voltamos a vê-lo a disputar eleições, tanto em 5 de Abril de 1908 como em 28 de Agosto de 1910, tendo sido, nestas últimas, um dos catorze deputados eleitos para o último parlamento monárquico. Teófilo parece não ter tomado parte activa na conspiração revolucionária que derrubou pelas armas as instituições monárquicas, em 5 de Outubro de 1910. Também não reunia consensos absolutos para ocupar lugares de destaque no novo regime. Pelo seu modo de ser e até pelo seu modo de trajar, concitava animosidades implacáveis. Uma delas foi a de José Relvas, que nas suas Memórias Políticas o denegriu em função do que designou como “fraqueza de carácter”74, falando igualmente nas suas descompostas vestes de prestamista. O facto, contudo é que seria ele a ocupar a honrosa função de presidente do governo provisório da República triunfante. Uma parte da explicação poderá talvez coincidir com um movimento espontâneo popular, reconhecendo-o como a primeira figura do regime acabado de implantar. Foi essa, de resto a versão que ele próprio transmitiu à posteridade: “surge o 5 de Outubro, proclama-se a República e, inesperadamente, achei-me saudado nas ruas de Lisboa por uma multidão ansiosa, quase delirante, que me tratava pelo “senhor presidente”. A ilusão depressa se converteu, confrangedoramente, em realidade. Não tardou que algumas centenas de excelentes pessoas me entrassem pela porta dentro pedindo-me entrevistas, autógrafos, empregos, subsídios e, até, dinheiro emprestado. Não havia dúvida: eu era, para todos os efeitos, o presidente da República”75. A outra parte dessa explicação deverá procurar-se nas simpatias inspiradas pelo radicalismo do seu passado em figuras cimeiras do republicanismo – como foi o caso de Afonso Costa – ou até em relações de estima mantidas com pessoas que não sendo propriamente jacobinas lhe

73

Braga, Teófilo, “Bernardino Machado – 28 de Julho de 1907”. In In Memoriam do Doutor Teófilo Braga. 1843-1924. Lisboa: Imprensa Nacional, 1934, p. 448. 74 75

Relvas, José – Memórias Políticas. Lisboa: Ed. Terra Livre, 1977, p. 98.

Declarações prestadas ao Dr. Luís de Oliveira Guimarães e transcritas no artigo de Miranda e Costa “Teófilo Braga. Um micaelense que foi um grande Português”, Primeiro centenário do nascimento do Doutor Teófilo Braga, Edição Comemorativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada. Ponta Delgada: S. Miguel-Açôres, Oficinas Tipográficas do “Diário dos Açôres”, 1944, p. 148.

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apreciavam a inteireza cívica – e neste caso caberá certamente a individualidade de Bernardino Machado. A passagem pelo poder cimeiro não lhe foi agradável, nem poderia sê-lo, atendendo à quase imediata luta travada entre os chefes potenciais das futuras formações partidárias que iriam nascer da quebra de unidade do histórico Partido Republicano. As grandes clivagens, prenunciadoras da emergência dos três partidos republicanos que marcaram a política portuguesa, sobretudo até ao sidonismo, manifestaram-se nas manobras que antecederam a eleição do primeiro presidente. Afonso Costa, que já dera mostras do mais vivo anticlericalismo no exercício do seu cargo de Ministro da Justiça do Governo Provisório, patrocinava a candidatura de Bernardino Machado, colocando o jornal O Mundo ao serviço das suas estratégias. Porém, António José de Almeida constituiu com Brito Camacho um bloco, pretendendo através dele frustrar o intento de Costa e favorecer a eleição de Manuel de Arriaga. Daí que o conluio bloquista se tenha manifestado através da sintonia das opiniões de Almeida e de Camacho, expressas através dos jornais onde cada um deles pontificava, ou seja, através d’A República e d’A Luta, respectivamente. O bloco acabou por eleger Manuel de Arriaga e por evitar que Teófilo Braga viesse a presidir à Câmara dos Deputados, onde anichou Forbes Bessa76. O terreno minado da política pura e dura, com os seus jogos maquiavélicos e as suas pérfidas inquinações, exigiu de Teófilo uma definição na luta em marcha. Ora, ele fora desde sempre um jacobino, um doutrinário federalista, guardando o seu reduto na ala esquerda do Partido Republicano. Acompanhou, portanto, a sorte dos adeptos de Afonso Costa, embora com a ressalva da sua completa independência de juízo. Este pano de fundo ajudar-nos-á a compreender a decepção que ressuma de certas passagens dos seus escritos: “Esses longos meses na chefia do Governo Provisório foram a expiação de males que eu não praticara e que, ao contrário, sempre tentara evitar. Aqueles que, nas horas incertas, me procuraram, arrancando-me à paz dos meus livros, foram os primeiros a atirar-me a sua pedra. Quis fazer da República um jardim: as lagartas comiam as flores, ao plantá-las”77. E não se coibiu de identificar estas lagartas do jardim republicano: “Era o caldo substancial, feito para

76

Cfr. Homem, Amadeu Carvalho – A ideia republicana em Portugal…, pp. 75-77.

77

Costa, Miranda e – “Teófilo Braga. Um micaelense …”, p. 149.

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o povo, com a água que criava boas hortaliças e vinha duma rocha límpida. A couve já não presta. Tem duas lagartas: o Camacho e o Almeida”78. Como se verifica, não foram pacíficas estas horas de triunfo político. Participou no parlamento constituinte que daria origem à Constituição de 1911. Não deixou de aí apresentar o seu próprio projecto de texto constitucional, mas os seus pontos de vista não foram secundados pela maioria dos deputados79. Por este tempo, Teófilo Braga vivia mais um drama familiar: a sua mulher resvalara para a insânia mental, traduzida numa apatia profunda, carecendo mais do que nunca da sua ajuda. Faleceu em 14 de Setembro de 1911. Singular destino, o deste homem, que desconfiando por princípio da inocência e boa-fé dos outros, concentrou todas as suas esperanças na família, decidindo recolher-se à intimidade do lar como se só aí pudesse encontrar aliados sinceros e repouso compensador. Singular e punitivo foi este decreto de uma existência que construiu uma cidadela supostamente inexpugnável para a ver desabar sem remissão, em golpes certeiros, ferozes, inexoráveis. Outros, menos resistentes, teriam abatido bandeiras, numa mais do que compreensível capitulação. Mas Teófilo foi sempre uma Vontade, um Orgulho, uma Afirmação, uma “Consciência” “que não sabe capitular”80. Deste arcaboiço moral inteiriço retirou ele, nos momentos mais angustiosos da sua vida, o impulso vital para perseverar na existência. Dias depois de falecer sua mulher, escreveu uma carta a Joaquim de Araújo que comprova esta jura de prosseguimento de caminhada, esta renitência a confessar uma derrota, esta irredutibilidade na recusa da rendição. Dizia: “Aqui estou sozinho na mesma casa e na mesma forma de viver, mas cerca-me o vácuo. (…) Volto a ser o antigo estudante solitário81. Amei, fiz a minha família, trabalhei para ela, e, nesta trajectória da vida, perdi os filhos, agora a esposa – e acordo de um sonho, de um idílio, de

78

Citado por Martins, Rocha – “Nos bastidores da história contemporânea – Ditos, sínteses e comentários de Teófilo”. In Fantoches, nº 58, 9 de Fevereiro de 1924, p. 13.

79

Cfr. Braga, Teófilo – Discursos sobre a Constituição Politica da Republica Portugueza. Proferidos na discussão da generalidade e especialidade, nas sessões de 18 de Julho e 2 de Agosto de 1911 na Assembleia Nacional Constituinte por ... . Lisboa: Livraria Ferreira, 1911.

80

Cordeiro, J. A. da Silva – A crise em seus aspectos moraes. Introducção a uma bibliotheca de psychologia individual e collectiva. Coimbra: F. França Amado Editor, 1896, p. 383.

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O sublinhado é nosso.

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uma tragédia, de um naufrágio, de quarenta e três anos. Valeu a pena? Antero diria que não; eu acho que foi uma revelação da vida equilibrada entre duras realidades e altos ideais. E já é uma grande coisa poder dizer: – Vivi”82. Teófilo desejou para si, nesta última fase da sua vida, um isolamento doméstico completo. Não contratou serviçais internas permanentes e era ele que abria a porta da sua Tebaida a quem o procurava. Fazia longas vigílias nocturnas, para fazer render o estudo e para escrever em concentração, na serenidade da noite que avançava. Como era habilidoso de mãos e dado à improvisação de engenhocas úteis, concebeu um suporte que, encaixado no candeeiro do gás de iluminação, lhe permitia aquecer o leite ou o chá que ia sorvendo durante o seu labor nocturno83.

Teófilo Braga, entrando em casa. In As Primeiras da República Portuguesa 1910-2005, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 32

82

Carta de Teófilo Braga a Joaquim de Araújo, de 17 de Outubro de 1911. In In Memoriam do Doutor Teófilo Braga…, p. 494. 83

Cfr. Guedes, Marques, “A livraria e a casa de Teófilo”. In O Primeiro de Janeiro, 60º ano, 8 de Dezembro de 1928, p. 1, col.2.

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O mandato presidencial de Manuel de Arriaga foi feito ao arrepio do Partido de Afonso Costa, vulgarmente conhecido como Partido Democrático, e procurando satisfazer os anseios do Partido Evolucionista, de António José de Almeida, e do Partido da União Republicana, de Brito Camacho. O veredicto das urnas consagrara a hegemonia dos democráticos, mas tanto os evolucionistas como os unionistas procuraram retirar dividendos do facto de ter sido o bloco a eleger Arriaga. A animosidade de Teófilo contra este presidente era antiga e vivaz. Assim, escrevendo a Fran Paxêco em Abril de 1914, o estudioso de Santa Gertrudes generalizava a sua execração, metendo no mesmo saco de repulsa os eleitores e o eleito: “ De política, só lhe direi que, enquanto alguns fermentos pútridos intervierem na marcha da república, andará tudo aéreo e apático. Improvisando-se um presidente, por manejos do execrando bloco, aquele amolda-se a vibrar golpes de estado, dissolvendo ministérios com maioria parlamentar, e exibindo programas pessoais de governo”84. O diagnóstico traçado revelou-se exacto. Nos inícios de 1915 verificou-se uma demonstração militar inconsequente ou “movimento das espadas” contra o gabinete democrático, com apoio parlamentar maioritário, de Vítor Hugo de Azevedo Coutinho. O Presidente Arriaga, contra todas as praxes constitucionais, decidiu encarregar o General Pimenta de Castro de formar um governo extra-partidário, vindo este a revelar-se de uma notória pusilanimidade quanto às pretensões dos saudosos da monarquia. A revolução triunfante de 14 de Maio de 1915, organizada fundamentalmente por figuras afectas ao partido de Afonso Costa, obrigou Manuel de Arriaga a renunciar à função presidencial dois dias depois. Teófilo Braga, eleito pelo Congresso, foi o presidente que o substituiu, em interinidade de funções. Não há que duvidar do regozijo com que o velho professor do Curso Superior de Letras desempenhou essas funções até às subsequentes eleições de 6 de Agosto, que levaram à cadeira presidencial Bernardino Machado, o eterno candidato dos democráticos. É que tal resultado consagraria, aos seus olhos, não apenas a reposição da legalidade democrática mas também a derrota das “lagartas” predadoras do seu idealizado jardim republicano. Foi o seu último desempenho de vulto ao serviço da sua República, que desejava racionalista, livre-pensadora e radicalmente laica.

84

Carta de Teófilo Braga a Fran Paxêco, de 6 de Abril de 1914. In Fran Paxêco, Cartas de Teófilo. Lisboa: Portugália Editora, 1924,p. 79.

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Pode um homem muito gasto e velho, preocupado apenas com alfarrábios e papéis amarelecidos pelo tempo, frágil e cada vez mais dependente, inteiramente devotado à leitura e à escrita, poderá um homem destes continuar a ser visto como uma ameaça por opositores políticos? Pode. Mas essa possibilidade só existe para os que se converteram em símbolos e entraram, sem retorno, num imaginário colectivo onde se fundem afectos e ressoam esperanças de futuro. Faltava a Teófilo Braga coleccionar certa forma de homenagem que a Autoridade exorbitante presta à Liberdade natural sob a forma do ódio de estimação que só se tem por quem se teme. Quando, em Dezembro de 1917, Sidónio Pais interrompeu a experiência democrática do republicanismo e enveredou pela via ditatorial uma das suas decisões foi a de remover o retrato de Teófilo do Palácio de Belém. A sua energia mental não sofreu diminuição quando entrou no período final da sua vida. Confiou aos mais chegados alguns dos seus sonhos, a realizar por amigos fiéis depois da sua morte. Queria que se instalasse na zona da Estrela uma Casa de Teófilo ou um Instituto Teofiliano que o perenizasse; também falou na possibilidade da fundação de um Colégio Maria da Graça, evocativo da sua defunta filha; tencionava doar a sua casa e livraria ao município de Lisboa85. O correr dos últimos anos foi-lhe prejudicando a visão, até à quase cegueira. Apelou então a antigos discípulos, para que pudesse dar continuidade à publicação dos seus volumes. É que, apesar da drástica redução da sua acuidade visual, Teófilo Braga teimava em corrigir a sua História da Literatura Portuguesa mediante uma Recapitulação que a libertasse dos erros e inexactidões, muitos dos quais provinham da precipitação com que realizava as suas sínteses, nessa febre de produzir mais e mais, que o consumia sem o saciar. Para além deste trabalho de revisão científica, congeminara um romance, que estava em marcha, sobre a vida e feitos filosóficos do livre-pensador Uriel da Costa. No dia 26 de Janeiro de 1924 ditava uma carta para os seus editores da Lello & Irmão que rezava assim: “Eu estou numa situação deplorável, não vejo para ler, nem para escrever; preciso de um secretário inteligente que leia e que escreva ao meu ditado. Por dinheiro não há ninguém que me preste este auxílio; somente o favor de antigos discípulos meus que

85

Cfr. Neves, Álvaro – “Notas teofilianas”. In In Memoriam do Doutor Teófilo Braga…, p. 28; Carvalho, Gomes de – “O maior de todos os democratas”, idem, pp. 212-213; Sarmento, Olga de Moraes – Theophilo Braga…, pp. 30-31.

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me cedem cada um duas horas na semana, às terças, quintas, sextas e sábados e assim consigo dar forma ao meu pensamento. Pedia agora que a remessa das provas fosse de acordo com a situação em que me acho, que resulta do favor que me prestam os discípulos que me mostram tão boa vontade”86. Neste mesmo dia confidenciou a um amigo que só tinha conseguido repousar sobre a madrugada. “Na manhã de 28 (…) quando uma sobrinha que lhe ia levar todos os dias as parcas refeições entrou no quarto, encontrou-o morto, semi-vestido, sobre a cama”87. Extinguiu-se pouco antes de fazer 81 anos. Enterraram-no numa ala do Mosteiro dos Jerónimos, sob a malévola dicacidade do beatério, escandalizado com a presença dos ossos de um ateu no espaço sacro. Em 12 de Dezembro de 1966, os seus restos mortais foram mudados para o Panteão Nacional de Santa Engrácia. Nem uma só das suas vontades finais teve concretização. A casa e livraria não passaram à propriedade municipal; o Instituto teofiliano ou o colégio Maria da Graça nunca surgiram; para que a sua preciosa biblioteca e todos os seus autógrafos não fossem parar à insensibilidade comercial dos alfarrabistas foi necessária a intervenção do Dr. Luís Bettencourt de Medeiros Câmara, que, como Presidente da Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada, conseguiu levar livros e papéis para esta cidade. E os objectos, que lhes aconteceu? Foram leiloados em 10 de Março de 1929, decorrendo a almoeda no interior da própria casa que Teófilo habitara. Essa profanação transferiu para mãos estranhas, decerto mais atentas ao valor venal ou à utilidade imediata de tais coisas do que ao seu significado simbólico a secretária de trabalho, a pasta de quintanista de Direito, bordada por Dona Maria do Carmo, a caneta, o guarda-chuva emblemático… Algumas sobras foram para um pequeno punhado de admiradores licitantes. O republicano Fernandes Baptista conseguiu ficar com o tinteiro de prata oferecido a Teófilo pelos editores Lello, bem como com o capelo universitário e com o Diário do Governo que se reportava à constituição do Governo Provisório. Por seu turno, Álvaro Neves, mandatado pela Comissão Teófilo Braga, conseguiu arrematar a meia dúzia de instrumentos de oficina com que o extinto fabricara os brinquedos dos filhos e com que se dera à execução de

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Carta de Teófilo Braga aos editores Lello & Irmão, de 26 de Janeiro de 1924, transcrita por Neves, Álvaro – “Doutor Teófilo Braga. Bio-bibliografia”. In In Memoriam…, p. 465.

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Moreno, Mateus, “Dr. Teófilo Braga”. In Alma Nova, nºs 13-15, III série, vol. II. Lisboa: Janeiro-Março de 1924, p. 13.

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trabalhos artísticos em madeira. A narrativa do leilão surgiu, anónima, no Diário de Notícias. Rematava assim: “Tudo o que foi caro e familiar a Teófilo Braga se dispersa pela cidade – últimas folhas de inverno, levadas por um vento melancólico, naquela tarde sem vento”88.

88

“Um leilão. Na casa onde viveu Teófilo Braga foram ontem vendidos os seus móveis e muitos objectos de seu uso”, Diário de Notícias, 65º ano, nº 22.670, 11 de Março de 1929, p. 1, col.2.

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BIBLIOGRAFIA BÁSICA Braga, Teófilo – Visão dos Tempos. Porto: Em Casa de Viúva Moré-Editora, 1864. Braga, Teófilo – Tempestades Sonoras. Porto: Em Casa da Viúva Moré-Editora, 1864. Braga, Teófilo – As Theocracias Litterarias. Lisboa: Typographia Universal, 1865. Braga, Teófilo – Theoria da Historia da Litteratura Portugueza. Porto: Imprensa Portugueza-Editora, 1872. Braga, Teófilo – Traços Geraes de Philosophia Positiva comprovados pelas descobertas scientificas modernas. Lisboa. Nova Livraria Internacional, 1877. Braga, Teófilo – Soluções Positivas da Política Portugueza. Da aspiração revolucionária e sua disciplina em opinião democrática. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1879. Braga, Teófilo – Historia das Ideas Republicanas em Portugal. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1880. Braga, Teófilo – Dissolução do Systema Monarchico-Representativo. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1881. Braga, Teófilo – Systema de Sociologia. Lisboa: Typographia Castro Irmão, 1884. Braga, Teófilo – Historia da Universidade de Coimbra nas suas relações com a instrucção publica portugueza. Lisboa: Por ordem e na Typographia da Academia Real das Sciencias, 1892-1902 (4 vols). Braga, Teófilo – As Modernas Ideias na Litteratura Portugueza. Porto: Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1892 (2 vols). Braga, Teófilo – Discursos sobre a Constituição Politica da Republica Portugueza. Lisboa: Livraria Ferreira, 1911. Bastos, Teixeira, Theophilo Braga e a sua Obra , Porto, Casa Editora Lugan & Genelioux, Successores, 1892. Carreiro, José Bruno – Vida de Teófilo Braga . Resumo Cronológico. Coimbra: Coimbra Editora, 1955. Cidade, Hernâni – Doutor Teófilo Braga. As directrizes da sua obra de história literária. Lisboa: Faculdade de Letras, 1935. Coelho, A. do Prado – Teófilo Braga. Notas de estudo. Lisboa, Faculdade de Letras, 1936. Ferrão, António – Teófilo Braga e o positivismo em Portugal (com um núcleo de correspondência de Júlio de Matos para Teófilo Braga). Lisboa: Academia das Ciências de Lisboa, 1935. Homem, Amadeu Carvalho – A ideia republicana em Portugal. O contributo de Teófilo Braga. Coimbra: Livraria Minerva, 1989.

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In Memoriam do Doutor Teófilo Braga. 1843-1924. Lisboa: Imprensa Nacional, 1934. Ortigão, J. D. Ramalho – Theophilo Braga. Esboço biographico. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1879. Quarenta annos de vida litteraria (1860-1900). Com um prologo Autobiographia Mental de um Pensador Isolado por Theophilo Braga. Lisboa: Typographia Lusitana-Editora Arthur Brandão, MCMII. Quinquagenário. 1858 a 1908. Cincoenta annos de actividade mental de Theophilo Braga julgados pela critica contemporanea de tres gerações litterarias. Lisboa: Antiga Casa Bertrand, José Bastos & C.ª, 1908. Soares, Mário – As ideias políticas e sociais de Teófilo Braga. Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950.

Bernardino Machado (Museu da Presidência da República)

Anabela Nunes Monteiro Professora de História no Agrupamento de Escolas de Miranda do Corvo e doutoranda em História pela Universidade de Coimbra.

Caniço por fora, aço por dentro (Rafael Bordalo Pinheiro)

“Sejamos nós também, republicanos, os melhores cidadãos portugueses, honra da nossa querida Pátria, sirvamo-la sempre tão devotamente por estas escolas liberais e até os nossos adversários mais ferrenhos conquistaremos para a causa justa da liberdade e da República”. (Bernardino Machado (1851-1944).

B

ernardino Luís Machado Guimarães, conhecido por Bernardino Machado, era filho de António Luís Machado Guimarães (1820-1882), jovem decidido que trocou a sua freguesia natal de Joane – Vila Nova de Famalicão, por Guimarães, com a expectativa de aí encontrar êxito financeiro na vida comercial. O ambicioso e lutador António rapidamente optou pela deslocação para o Porto, terra que lhe acenava com outras oportunidades. Contudo, seduzido pelas regiões além-mar, com apenas vinte anos zarpou para o Brasil. No Rio de Janeiro estabeleceu-se em casa do Comendador Costa Lima, seu grande amigo. Na cidade carioca, deu então início à tão almejada carreira no comércio. O desejo natural de ter uma família levou-o ao matrimónio, porém cedo ficou viúvo e com a responsabilidade de dois filhos. Nestas condições, o mais natural é que se viesse a consorciar de novo, o que, de facto aconteceu, desta feita com uma senhora luso-brasileira, Praxedes de Sousa Ribeiro Guimarães. Fruto desta união, nasceu Bernardino a 28 de Março de 1851 depois de uma gestação incompleta. O casal ainda teve mais dois rapazes, a juntar aos dois filhos havidos do primeiro casamento do pai, António Luís. A criança foi

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baptizada na Igreja da Candelária, sendo os padrinhos os avós maternos, Bernardino de Sousa Ribeiro, natural do Porto, e Maria Manuela Machado de Lima, nascida em Curitiba e descendente de antigos colonos que detiveram o governo do Estado do Paraná.

Praxedes de Sousa Ribeiro Guimarães e António Luís Machado Guimarães. In Rosa, Elzira Maria Dantas Machado – Bernardino Machado, fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, pp. 14.

A ligação afectiva a este casal foi sempre muito marcante para o jovem que recordava, muitos anos depois, o imenso carinho da avó e a disciplina rígida do avô. Uma disciplina que se verificou desde cedo, pois Bernardino entrou neste mundo em condições de saúde muito periclitantes. O seu precoce nascimento provocou-lhe uma aparente debilidade, com a ocorrência durante a meninice de mazelas graves, como a coqueluche e a febre-amarela. Dessa sua potencial debilidade salienta-se um episódio, amiudadamente divulgado por si entre amigos e familiares, mesmo quanto já detentor de provecta idade. Contava ele, a propósito de ter contraído coqueluche – doença muito contagiosa provocada por uma bactéria, cujos sintomas correspondiam a febres baixas e posteriormente a crises de tosse muito típicas – que o avô, legitimamente preocupado, resolveu ministrar uma solução terapêutica através de um banho frio no tanque do jardim, além de provocar o vómito, visando com isso a expulsão definitiva da maleita1. E outros métodos, igualmente pouco 1

Machado, António – Bernardino Machado, Memórias. Porto: Figueirinhas, 2000, p. 20.

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ortodoxos, foram aplicados nas tentativas de cura da terrível febre-amarela, quando Bernardino a contraiu. Conquanto estes tratamentos podem, em si mesmo, ser discutíveis, o certo é que os resultados falaram por si: a criança ficou curada, tornando-se visível que, sob a capa das perturbações de saúde e da aparência delicada, tinha afinal uma forte resistência física e psicológica. Dessa forma, Bernardino foi crescendo em contacto com a Natureza e com as gentes mais humildes que viviam dentro ou fora da chácara onde residia, nos arredores da capital, tomando banhos de cachoeira e maravilhando-se com os insectos ou falando com os nativos, sem qualquer preconceito social. A esse respeito, salienta-se a amizade e conhecimento com uma negra, vendedora de pipocas, que levaram, inclusivamente, ao partilhar de refeições com a família da mesma, facto insólito esse, mesmo tendo em conta o então relativamente baixo nível social dos pais de Bernardino. Pequeno exemplo da tolerância social e sede de observar e de conviver que, por toda a sua vida, iriam caracterizar a sua personalidade. Com apenas cinco anos começou a frequentar o Colégio da Rua Mata Cavalos, assiduidade que se revelou penosa nos primeiros tempos, em virtude da sua pouca apetência para a escola. O bom do avô, maçom e contrário aos castigos corporais, preferia utilizar outros processos pedagógicos para convencer o neto a estudar, processos donde não se excluía o imenso amor e firmeza que sentia e com que tratava o rapazinho. Depois do citado Colégio, seguiu-se a ida para o Liceu Comercial (Colégio de Instrução Primária e Secundária), nos arredores do Rio de Janeiro, numa localidade chamada Laranjeiras, onde se destacou pelas suas capacidades intelectuais e pela sua boa formação humana, apesar do pouco tempo que lá permaneceu. Em 1860, teve lugar a primeira grande mudança na vida da família, com repercussões para o ainda muito jovem Bernardino. Os pais decidiram voltar para Portugal, estando o menino com quase nove anos de idade. O regresso fez-se no paquete Oneida, tendo Bernardino carregado consigo livros que havia recebido como prémios escolares, prenúncio da sua inteligência, gosto e dedicação pelo estudo, que o haveria de caracterizar pela vida fora. A família radicou-se em Vila Nova de Famalicão, terra natal do pai, ficando instalada na Casa da Torre de Cima. Posteriormente, mudou-se para um Palacete – hoje Museu Bernardino Machado – uma casa imponente, brasonada e situada no coração da vila minhota. O pai de Bernardino, muito empenhado em participar activamente na vida política da região, foi-se destacando, obtendo várias comendas e títu-

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los, como Fidalgo Cavaleiro da Real Casa e 1º Barão de Joane, entre outros. Os seus pais, avós da nossa figura histórica, Domingos José Luíz e Joaquina Machado, eram simples trabalhadores rurais, que se preocupavam em dar o apoio possível ao bom funcionamento da casa. O casal, à semelhança dos avós maternos, seria marcante na vida do jovem, que recordou sempre o avô como um patriota que se exaltava quando falava do exército francês e das célebres invasões. O ninho familiar donde saiu Bernardino foi algo que lhe incutiu disciplina, amor pelos seus, respeito pelos que labutavam e hábitos de trabalho. Podemos considerar que lhe forneceu a estabilidade emocional e afectiva que o iria mas que simultaneamente o sensibilizou para a atenção e preocupação para com o próximo.

Foto do certificado do Liceu, tirada na Casa Museu Bernardino Machado, em Vila Nova de Famalicão.

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Casa de Família de Bernardino Machado em Vila Nova de Famalicão, hoje Casa Museu Bernardino Machado

Em 1861 foi estudar para o Porto, para o Colégio Podestá, instituição onde firmou amizades que se prolongariam pela vida e onde se destacou pelas suas já anteriormente citadas capacidades intelectuais e humanas. Na Invicta privou com figuras muito interessantes como Joaquim Urbano, seu grande amigo, que viria a ser o Director e Administrador do Hospital do Bonfim, no Porto2. O seu gosto pelo convívio com os amigos revelou-se desde cedo, levando-o, prazenteiramente, à Praça da Liberdade e ao ambiente dos cafés Suíço e Camanho, mais pela convivência do que pelo conforto proporcionado pelos mesmos3. O Porto transformou-se, assim, na sua terra de eleição, em relação à qual sempre ficou emocionalmente ligado. Tido como aluno muito inteligente, frequentou a casa do latinista Padre João Henriques de Oliveira, partidário convicto do Miguelismo4. Atento ao que se passava no meio que frequentava, não se deixou seduzir por valores conservadoristas, ocorrendo justamente o fenómeno oposto, que foi o da sua sensibilização e simpatia para os ideais liberais dos portuenses. A interrogação, a dúvida, a procura de uma resposta racional e socialmente justa assaltavam-lhe o espírito e a mente, de 2

Machado, António, Bernardino Machado…, p. 42.

3

Ferreira, Jaime – “Bernardino Machado, estadista que tinha o Porto no coração”. Separata de O Tripeiro. Porto Fev. 1970, pp. 6 e 7. 4

Machado, António – Bernardino Machado…, p. 21.

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forma constante. Inclusivamente, o seu filho António conta, na obra Bernardino Machado, memórias, que o gosto pela escrita e pela actividade política fez com que redigisse um jornal manuscrito intitulado A Balança da Justiça, onde expunha as suas precoces convicções. Para além disso, ainda anotava no seu caderno de apontamentos desabafos e críticas de natureza política. Um dia, esse mesmo auxiliar de estudo foi apanhado pelo mestre. A aflição que sentiu quanto às consequências de uma possível leitura depressa se desvaneceu, pois que, apesar de conter na primeira página uma crítica, esta encontrava-se habilmente escrita sob a forma de charada: “A letra U partida ao meio; Uma cabra e uma lista; Outra letra U, também partida; Alguns sinos a assar sobre uma fogueira;” Na perspectiva de Bernardino, os versos denunciavam o cabralismo como um partido de assassinos. O episódio revelou-se inócuo devido à falta de compreensão da charada, por parte do referido mestre. O pequeno incidente insere-se num conjunto bastante mais alargado de experiências semelhantes, próprias de adolescentes que estão a encontrar a vida, por si próprios. Em Outubro de 1866, com quinze anos de idade, fez a sua entrada na Universidade de Coimbra, tendo ficado hospedado na casa do Comendador Olímpio Nicolau Rui Fernandes. Durante a sua vida de estudante universitário foi particularmente acompanhado pela sua mãe, senhora que mantinha um contacto muito estreito com o filho, não apenas com a preocupação de que Bernardino fosse um bom estudante, mas para que ele não se sentisse sozinho, desamparado pela família. É de aceitar que a Baronesa tivesse receio que o filho, em ambientes com cunhos vincadamente boémios, se deixasse levar pelas companhias e descurasse os seus estudos, defraudando esperanças que os pais nele haviam depositado. Não nos podemos esquecer que Bernardino provinha de uma geração já imbuída de novas ideologias políticas – Liberalismo e Democracia – que queria mesmo que os filhos tivessem acesso ao estudo para ocuparem cargos públicos na vida administrativa e política e ascender aos lugares cimeiros da governação do país. País esse que contava com uma taxa de analfabetismo muitíssimo elevada, para além de uma pobreza generalizada. A influência da personalidade da mãe Praxedes foi um facto que se revestiu de consequências, pois incutia junto de Bernardino, nos contactos a propó-

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sito de dar atenção ao filho5, a importância das associações femininas, então tão parcas de direitos. Do «porto de abrigo» materno, muito importante para o jovem estudante, sensibilizou-o as convicções emanadas, as quais estiveram presentes em toda uma acção posterior que Bernardino iria ter como pedagogo e como político, designadamente a assumpção da defesa de maiores direitos para as mulheres. Havendo tão forte ligação com os parentes próximos, ainda no Colégio Podestá ou até já em Coimbra, era natural que Bernardino rumasse a Vila Nova de Famalicão para passar as suas merecidas férias escolares. E para onde ia a família na época estival? Para a praia da Póvoa do Varzim, localidade contígua a Vila do Conde e também não longe de Vila Nova de Famalicão. Apesar das suas águas frias o areal gozava de fama e prestígio que atraía a fina flor social nortenha e não só, pois pessoas destacadas da sociedade portuguesa também faziam daquela praia o seu local de veraneio. Convém dizer que a família de Bernardino desejava ver-se aceite e até integrada em tal elite e daí que não fosse fortuita a escolha de tal destino para férias. Como o jovem tinha nascido no Brasil e era filho de uma brasileira, ainda que luso-descendente, em 1872 impôs-se a escolha da nacionalidade portuguesa, solenemente declarada na Câmara Municipal de V. N. de Famalicão. As gratas recordações do Brasil acompanharam-no sempre ao longo da vida, conforme referiu quarenta anos depois, quando voltou àquele país como embaixador de Portugal. No entanto, sempre se sentiu incomodado quando, nas suas deambulações políticas, punham em causa a sua “portugalidade”; acima de tudo, considerava-se português, pesasse embora o muito afecto que o ligava ao Brasil e às suas gentes. O orgulho não se resumia ao facto de ser português, o mesmo estendia-se às suas origens humildes, como neto de um pequeno proprietário rural e como filho de um comerciante estabelecido no Brasil, em consequência das difíceis condições de vida, de então, em Portugal. Voltando à sua passagem académica na cidade do Mondego, o ambiente coimbrão revelou-se pleno de experiências e de influências. Enquanto estudante teve a sorte de privar com Teófilo Braga; Eça de Queirós; Aquilino Ribeiro; Ramalho Ortigão e Antero de Quental, sendo este o amigo que encarnava o verdadeiro espírito universitário e que com ele comungava de grandes ideais. Com Teófilo desenvolveu uma amizade de décadas, pois este

5

Rosa, Elzira Maria Terra Dantas Machado – Bernardino Machado, fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, p. 18.

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foi o companheiro dos tempos da propaganda republicana e depois, Presidente do Governo Provisório da República, em que Bernardino deteve a pasta do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Mesmo Eça, com toda a sua réplica imediata, incisiva e profundamente irónica, foi um dos seus amigos, sempre pronto a defendê-lo, como aconteceu na Livraria Bertrand do Chiado, em Lisboa, estabelecimento onde Bernardino entrou e folheou livros, sem ter comprado nada. Face aos risos de chacota dos presentes, Eça defendeu, perante eles, o amigo, fazendo-o como ele o sabia fazer, de forma mordaz e contundente6. Para além dos nomes já citados, outros se juntavam como Guerra Junqueiro, João Penha e Gonçalves Crespo, seus amigos íntimos, para além de Augusto Fuschini, José Falcão, Alves de Sá, Daniel de Matos e Hintze Ribeiro, para apenas citar os mais próximos. Os colegas em Coimbra, apesar de mais velhos, sempre souberam defender o franzino Bernardino dos veteranos da Universidade. A protecção ao jovem acontecia porque reconheciam nele um discurso de bom senso, inteligência e assertividade, que causava respeito aos companheiros de estudo. Sobre todos eles, Bernardino soube escrever, deixando aspectos particulares de cada um. Apesar da benquerença que conseguiu lograr, o estudo absorveu-lhe particular dedicação. Na Universidade empenhou-se numa área científica da sua predilecção – Matemática – e seguindo uma ideia tão comummente aceite na época, pensava que se notabilizasse nesse âmbito, nenhum mestre o poderia reprovar. Em 1875, obteve a licenciatura em Filosofia, com a tese Theoria Machanica da Reflexão e Refracção da Luz, e, um ano mais tarde, terminou o Doutoramento em Filosofia com a tese Deducção das Leis dos pequenos movimentos periódicos próprios da força elástica. Foi neste período que se tornou muito visível a sua capacidade de enfrentar dificuldades, evidenciando, nas palavras de seu filho, um espírito brioso e independente7 e chegando a Catedrático da Universidade de Coimbra, com vinte e oito anos, em 1879. A sua formação ideológica fez-se à sombra da Questão Coimbrã. E sobre este aspecto, convêm fazer um justo destaque a essa geração de 70, onde se incluíam os seus amigos de estudos e de tertúlias, já acima referidos. Estes homens imprimiram novas directrizes à literatura e ao pensamento nacionais, constituindo uma geração irrequieta e brilhante,

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Machado, António – Bernardino Machado …, p. 26.

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Machado, António – Bernardino Machado …,p. 27.

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ávida das novas ideias, revolucionárias, que em torrentes vinham da França e da Alemanha, via caminho-de-ferro. Em tais ambientes de grande reflexão e vanguarda ideológica, Bernardino encontrou um campo óptimo para o desenvolvimento das suas apetências e vocações políticas. Era vulgar a partilha de ideias e conhecimentos, chegando mesmo os alunos a irem até outras faculdades para assistirem a aulas que não faziam parte do seu curso.

Bernardino e os amigos e colegas: António Maria de Sena; Bernardino Machado, Lemos Peixoto, Joaquim Urbano, António da Silva Sereno e Daniel de Matos. In Rosa, Elzira Maria Terra Dantas Machado – Bernardino Machado…, p. 29.

Tais atitudes e comportamentos contribuíam para a emergência de um clima intelectual abrangente. Apesar de ser um estudante muito respeitado pelos seus colegas, torna-se interessante verificar que Bernardino não estava imune à crítica dos mesmos, quando dava atenção a um ou outro mestre, mais conhecido pelo enfado das suas prelecções. A essas vozes críticas contrapunha ser necessário observar e entender a psicologia do mestre para depois conseguir entrar em conversação com ele e aprender alguma coisa8. Por outras

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Machado, António de Barros – “Evocação de Bernardino Machado”. In Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o político e o Pedagogo. Vila Nova de Famalicão: 2001. Actas do Colóquio dos Encontros de Outono, 6/7 Novembro de 1998, p. 16.

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palavras, havia sempre que aprender com qualquer um. E tal princípio verificou-se sempre na personalidade de Bernardino. Para si, era sempre possível reter novas realidades, perspectivas ou simples informações mesmo com gente pouco rica para possíveis ensinamentos. Antes de se tornar catedrático, em 1877, foi nomeado professor da Faculdade de Filosofia, sendo-lhe atribuída uma cadeira de Geologia, mas leccionou a cadeira de Agricultura, que, mais tarde e por proposta sua, viria a ser substituída pela de Antropologia9. A referida cadeira tinha por designação completa Antropologia, Paleontologia Humana e Arqueologia Pré-Histórica, área muito vasta, mas adequada à visão abrangente de Bernardino. A sua forma de leccionar seria de natureza teórico-prática, preocupando-se muito mais com os afazeres académicos dos alunos do que em levar a cabo as dissertações de natureza especulativa. De acordo com o Professor Manuel Rodrigues de Areia é o que se depreende dos trabalhos dos alunos elaborados entre 1885 e 1904, publicados em 1904, sob o título Aula de Anthropologia da Universidade de Coimbra -trabalhos de alumnos, volume I10. Ou seja, estamos perante um pedagogo que rompeu com a forma tradicional de leccionar, dando ouvidos às opiniões dos seus alunos e incentivando-os a pensarem por si próprios. Para Bernardino, a Universidade era, por excelência, um espaço de debate e análise, aberto a toda a comunidade universitária, estreitando o “fosso” existente entre professores e alunos, sendo esta perspectiva inovadora para a época. Criticava, mesmo em relação à Universidade, o estudo realizado à custa da memória, com aulas excessivamente teóricas, achando que o ensino devia ser algo que possibilitasse a sociabilização, através dos saberes-fazeres, mas igualmente através de atitudes e comportamentos11. O seu pensamento educativo já era conhecido na década de oitenta, como se comprova ao ser convidado a presidir aos Congressos Pedagógicos, que se realizaram no final do século. Aos 31 anos outra mudança ocorreu na vida de Bernardino. Como homem de acção, profundamente integrado nas grandes questões da sua época sentiu

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Machado, António – Bernardino Machado …,p. 36.

10

Areia, Manuel Laranjeira Rodrigues – “Bernardino Machado, professor de Antropologia”. In Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o político e o Pedagogo…, p.31.

11

Catroga, Fernando – “Bernardino Machado e a Maçonaria”. In Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o político e o Pedagogo, pp. 146 e 147.

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o apelo da política, depois de ter já consolidada uma carreira como pedagogo e investigador. Filiou-se então no Partido Regenerador, tendo sido proposto para deputado pelo círculo de Vila Nova de Famalicão. Contudo, cedo se apercebeu que o apoio partidário de que dispunha não era suficiente, candidatando-se, então, pelo círculo de Lamego, em 1882. Volvidos quatro anos, viu com satisfação a sua candidatura por Coimbra ser coroada de êxito. O nosso político e pedagogo viu assim concretizado o desiderato de ocupar um lugar no Parlamento, defendendo a bancada regeneradora. Sobre esta nova situação, conta-se que a vaidade natural no seu bom físico, que se traduzia pelo seu modo de vestir impecável, se evidenciou, pois quando foi apresentar cumprimentos ao Administrador do Concelho vestiu-se a primor, com um fato verde-azeitona, não dispensando as críticas do seu velho pai, sobre a indumentária que levava vestida. A opinião dos membros da família foi sempre importante para ele, característica vincada da sua personalidade a que se associava a já referida afectação na forma como se vestia. No Parlamento a temática que sempre o apaixonou foi, sem dúvida, a Educação, isso num país cujos habitantes eram, maioritariamente, analfabetos. O desejo de validar futuros cidadãos pela educação e pela cidadania mostra que Bernardino Machado seria um homem bondoso e preocupado com o progresso e bem-estar de Portugal, mais especificamente dos seus cidadãos. O seu primeiro discurso teve lugar em 1883, dedicado precisamente à Educação, pugnando pelo aperfeiçoamento em todos os graus de ensino. A sua luta como deputado disse respeito à melhor dotação de serviços de instrução, considerando bem produtivas todas as despesas nesse sentido. É nessa época que, sob proposta sua, se cria na Universidade de Coimbra a cadeira de Antropologia, e são criados Museus e Escolas Industriais. Em 1884 chegou mesmo a marcar posição na questão da liberdade de ensino, exigindo que essa liberdade fosse condicionada pela capacidade e dignidade do professorado12. A sua luta pela educação estendeu-se pela vida política, sobretudo quando foi designado Par do Reino pelos Colégios Científicos, em 1890. Sensivelmente na época em que foi eleito pela primeira vez, conheceu, no Porto, Elzira Dantas Gonçalves Pereira, uma jovem de pequeno porte, educação esmerada e, tal como Bernardino, filha de um plebeu enriquecido no Brasil, Miguel Dantas Gonçalves Pereira (1836-1905) – mais tarde Comendador

12

Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 58.

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de Mantelães – e de Bernardina Maria da Silva. A jovem Elzira nasceu no Brasil a 15 de Dezembro de 1865 e faleceu no Porto a 21 de Maio de 1942, com a idade de 77 anos. Bernardino apaixonou-se pela jovem de dezasseis anos, tendo casado com ela quanto contava 31 anos, em 1882. Apesar dos quinze anos de diferença, o casal teve sempre uma excelente relação, coroada pelo nascimento de 19 filhos13, durante os 61 anos de casamento. A fotografia que se segue mostra bem os traços muito juvenis do rosto de Elzira, quando foi mãe pela primeira vez. A esposa teve um papel fundamental na vida de Bernardino. Primeiro, contribuiu para reforçar as raízes minhotas da família, pois era oriunda de Formariz, Paredes de Coura. Segundo, abraçou causas, como o movimento de emancipação feminina, ao qual o marido era muito sensível. E foi a única mulher de um presidente da nossa Primeira República que se destacou pelas suas convicções e espírito de luta, ideal a que se dedicou, não encontrando obstáculo na numerosa prole que deu à luz.

Elzira com António, o seu primeiro filho. In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia…, p. 37.

Mesmo antes de se casar, a jovem já tinha intervenção social e política, acção a que deu continuidade, com o apoio do marido. Ainda durante a monar-

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Esteves, João – Presidentes de Portugal, As primeiras damas. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, p. 5.

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quia, juntamente com duas das suas filhas, militou na Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908-1919) e, à data da eleição do marido para o mais cargo da Nação, presidia à Associação de Propaganda Feminista (1911-1918) – agremiação fundada por Ana de Castro Osório e Carolina Beatriz Ângelo – continuando a exercer essas funções até 1917. Igualmente foi presidente da comissão dirigente e administrativa da Empresa de Propaganda Feminista e Defesa dos Direitos da Mulher, sociedade responsável pelo jornal A Semeadora (1915-1918); presidiu, em Fevereiro de 1916, à sessão comemorativa do 7º aniversário da Liga atrás referida; interveio na tentativa de assegurar a Obra Maternal, instituição criada, em 1909, por mulheres republicanas; e promoveu, a partir do Palácio de Belém, a Cruzada das Mulheres Portuguesas, obra assistencial de apoio aos soldados mobilizados para a guerra de 1914-1918, que rapidamente se desdobrou em múltiplas facetas, desde escolas profissionais, formação profissional de enfermeiras de guerra, creches, etc. O seu espírito de observação e de militância ficou patente logo após a primeira eleição de Bernardino para presidente da República, em 1915, quando passados uns escassos quatro dias, Elzira e Ana de Castro Osório apresentaram uma representação endossada aos poderes políticos, contendo reivindicações feministas consideradas prioritárias, repartidas por quatro áreas: Instrução, Assistência, Funcionalismo e Direitos Políticos. Encontramo-nos, portanto, perante uma mulher muito activa e plena de convicções quanto a lutas pelo reconhecimento social e político dos direitos femininos, tema, desde sempre, tão caro ao próprio Bernardino. O casal afastava-se, enquanto tal, dos padrões da época, em virtude de comungar ideias muito semelhantes quanto à responsabilidades e princípios de igualdade de direitos e deveres entre os dois e na relação com os filhos14. Aliás, Elzira destaca-se do conjunto de “primeiras-damas” da República, pela sua intervenção político-social, assunto que lhe era caro, independentemente do cargo ocupado pelo marido. Provavelmente a melhor época que Bernardino e Elzira viveram enquanto casal foi entre 1893 e 1903, na Quinta dos Sardões em Coimbra, onde se dedicaram aos seus filhos. É sensivelmente neste período que Bernardino coligiu notas sobre psicologia infantil, apoiado pelo seu aguçado espírito de observação em relação aos filhos. Esses apontamentos foram dados à estampa

14

Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia…, p. 33.

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com o título Notas de um pai, livro onde demonstrou todo o amor e ternura pelos descendentes e a crença nos valores morais que defendia. A ligação entre todos os membros da família era muito forte, salientando-se, a título de exemplo, que Bernardino, um obcecado pela leitura e pelo trabalho, não se importava com a algazarra infantil, trabalhando imperturbável, sempre de pé, numa escrivaninha alta15. O seu filho, redactor das suas memórias, não teve pejo em classificá-lo como tendo sido um pai notável, sempre preocupado com a família. Bernardino gostava de ficar à mesa, após as refeições, conversando com os filhos, contando histórias onde os afectos se cruzavam com uma memória notável, num discurso elegante e franco. Conta António que estar a ouvi-lo era o mesmo que ouvir lições de História Contemporânea. E apesar de uma vida preenchida com constantes cargos políticos, não descurava o apoio aos filhos, incentivando-os a estudar e a partilhar afectos. E os percursos académicos destes demonstram um cuidado muito apurado por parte dos progenitores. Os rapazes obtiveram formação académica superior e as raparigas frequentaram escolas diferentes. Uma esteve num colégio na Suíça, outra cursou o Real Colégio Ursulino das Chagas, em Coimbra e outras ainda frequentaram o Liceu Camões, em Lisboa. Todas elas estudaram, aprendendo música, canto e desportos16, seguindo a sua vida, casando e dando netos a Bernardino e Elzira. Uma delas, Gerónima, viria casar com o escritor Aquilino Ribeiro. A atenção dada aos netos levou Elzira a escrever uma obra, com contos divertidos e moralistas, aquando do segundo exílio político do casal (1927 -1940). A autora quis passar uma mensagem perene aos seus netos, de forma que estes ficassem com uma recordação do interesse e atenção da avó. O livro é mais um exemplo da importância que o casal atribuía à sua prole e à educação da mesma. A fotografia seguinte mostra a família Machado, onde se encontram incluídos alguns genros, noras e netos. A relação de Bernardino com a família de Elzira, principalmente com o pai dela, era de cortesia. O sogro, Miguel Dantas Gonçalves Pereira, teve grande orgulho em Bernardino, quando este foi nomeado ministro das Obras Públicas Comércio e Indústria, em 1893, apressando-se a oferecer o fato vistoso de ministro da monarquia, cujo aparato deslumbrava os netos. Miguel era um homem activo e inteligente que exercia uma actividade incansável de apoio à sua terra natal,

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Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 119.

16

Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia…, p. 35.

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Paredes de Coura, facto que lhe valeu o cognome de “Rei de Coura”. Fanático por essa região, conseguiu melhoramentos significativos para a mesma, mormente estradas. Quando viu o genro na pasta das Obras Públicas, a sua satisfação cresceu exponencialmente, imaginando a realização de obras que, na sua opinião, eram imprescindíveis à sua querida terra. No entanto, a decepção não tardou a chegar. Bernardino deixou bem claro que não iria interferir absolutamente em nada, justificando haver outros concelhos mais carentes em Portugal. Obviamente que a tristeza do sogro foi enorme, justificada num lamento por si proferido, no qual o seu próprio genro era o ministro que havia indeferido os tão necessitados melhoramentos da terra… no entanto, o ministro seguinte das Obras Públicas, Carlos Lobo d’Ávila, satisfez o pedido tão solicitado por Miguel Dantas, não sem a ajuda preciosa de Bernardino, como o próprio Dantas reconheceu junto do genro17.

Bernardino e Elzira com os filhos e netos. In Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o político e o Pedagogo, Actas do Colóquio dos Encontros de Outono, 1998, p. 210.

Perante o esforçado percurso académico e político de Bernardino, para não referir a sua extensa prole familiar, suscita-nos a questão de qual seria a situação económica deste Presidente da nossa Primeira República. Obviamente que nos encontramos perante um agregado familiar com posses económicas significativas. Entre o seu património encontravam-se diversas casas como o palacete já referido em Vila Nova de Famalicão, a Casa da Cividade, em Joane; e a Casa de Rorigo em S. Julião de Calendário. O casal ainda possuía

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Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 86.

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uma residência de veraneio em Moledo do Minho e a imponente habitação onde Elzira cresceu, o palacete de Mantelães, em Paredes de Coura. Mesmo considerando a esmerada e decerto dispendiosa educação que foi proporcionada aos filhos, verifica-se não haver grandes restrições financeiras. O nível de vida da comunidade familiar era sobretudo apoiado pelas fortunas de ambos os lados e pelos proventos de Bernardino, enquanto académico, e não por dinheiros auferidos no decurso de actividades políticas. Foi eleito par do reino pelos estabelecimentos científicos (1890-1895) e em Fevereiro de 1893 tornou-se ministro das Obras Públicas, isso, como já se referiu, sempre de mãos dadas com a sua vida pessoal. Como ministro, já a família se havia mudado para Lisboa, vivendo numa casa da Junqueira, ao Altinho, lugar a que remontavam as reminiscências mais antigas dos filhos. Não apenas a residência, mas igualmente o estilo de vida adoptado pelo casal marcaram os jovens e provavelmente o próprio Bernardino. A casa possuía uma traça magnífica, com um largo fronteiro à mesma, ladeado por duas peças de bronze enterradas, verticalmente no solo. A entrada tinha uma abóbada de casamata sombria, contrastando com o espaço exterior, um jardim voltado ao Sul, com vista deslumbrante sobre o Tejo. Em frente a esse terraço, visionava-se o iate real, normalmente ancorado nessa parte do rio, pintado de branco, de uma beleza elegante, e a circulação de navios que encantava os filhos de Bernardino. A magnífica residência e o seu espaço eram alvo de visitas constantes de vários amigos, destacando-se Alice Pestana, republicana convicta, sempre muito interessada pelo ensino feminino; professores empenhados no ensino primário, como António Figueirinhas, Guilherme José da Silva, jornalista e director do Valenciano e grande amigo do pai de Elzira, bem como Adolfo Coelho, professor do Curso Superior de Letras. Todas estas personalidades, bem como outras, fizeram parte de um grupo de docentes e técnicos, trabalhadores com os quais Bernardino soube alcançar os objectivos a que se abalançava nas iniciativas ministeriais18. Segundo o seu filho António, o que mais o distinguia era a naturalidade com que aparecia tanto em família, como em público, sem constrangimentos, numa atitude genuína. A sua postura contribuía para que os tímidos com quem lidava se sentissem à vontade para falar e

18

Machado, António – Bernardino Machado, Memórias…, pp.77-78.

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explicar diferentes pontos de vista, mas não poupava com achegas certeiras e sarcásticas aqueles que se sobrevalorizavam, desde catedráticos a ministros19. O dia de trabalho começava sempre por volta das oito da manhã, lendo os jornais à janela, particularmente as notícias que dissessem respeito à sua pessoa, seguindo-se a recepção das individualidades que, com ele, pretendessem falar. Como ele próprio dizia, as pessoas tinham horas de entrada mas não de saída, dando a entender que sentia prazer em falar com todos que tivessem algo para lhe dizer ou discutir com ele. Conversador infatigável prendia o seu interlocutor até quase ao esgotamento da conversa, sem definir a razão para o qual o tinha convocado. Apenas no fim e de forma discreta, abordava a questão que o preocupava20.

Lendo A Época no Palácio de Belém (1916). In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia …, p. 69.

19 20

Idem, p. 88.

Carvalho, António G.G. Ribeiro – Prelúdios de uma Ditadura. Lisboa: edição de autor, 1957, p. 8.

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De uma maneira geral, as moradias ocupadas pela família Machado representavam centros de convívio e de trocas culturais, não apenas animadas pelo desempenho da própria família, como pela participação dos que as frequentavam, com assiduidade. O casal gostava de receber os seus amigos para partilhas de pensamento e de conversas que se prolongavam por várias horas. Para além do salutar convívio com os filhos e os amigos, Bernardino era um trabalhador infatigável. A janela do seu gabinete ministerial, no velho casarão da Rua do Arsenal, encontrava-se iluminada até altas horas da noite, facto que implicava o regresso à Junqueira muito tarde, sozinho, em carruagem de aluguer, onde aproveitava para dormitar até chegar a casa21. Interessante verificar que mesmo nas épocas de maior contestação política, Bernardino, indiferente a possíveis confrontos, nunca prescindiu da sua carruagem de aluguer nem do hábito de se deslocar isolado, revelando coragem e muita certeza nas suas acções perante a opinião pública. Quando abandonou o ministério, regressou a Coimbra para tomar conta da regência da cadeira de Antropologia. Pelas suas aulas passaram diversos elementos, salientando-se Sidónio Pais, cuja tese de doutoramento foi oferecida com dedicatória afectuosa a Bernardino. Morava então, como já se disse, em Celas, Quinta dos Sardões, depois de breve passagem por Santa Cruz. E o seu lar, mais uma vez, tornou-se ponto de encontro de professores e alunos para discussão acesa e profícua de ideias. No entanto, as funções académicas e sociais não lhe tomaram o tempo todo, pois começou a escrever e a organizar documentação, atestando a sua acção governativa na pasta das Obras Públicas, obra que iria ser publicada com o título de A Indústria, em 1898 e A Agricultura, em 1900, editadas em Coimbra22. Apesar de ter sido um homem ligado ao sistema político monárquico, dele se foi progressivamente afastando, assumindo convicções republicanas. A sua intransigência em relação aos adiantamentos e subsídios extraordinários à casa real, não cativava a simpatia dos elementos do Paço. Mesmo quando Hintze Ribeiro, Presidente do Conselho, o procurou em casa, tentando obter a sua anuência para um pedido semelhante, dizendo-lhe que não saía enquanto não tivesse uma resposta positiva, Bernardino respondeu, de imediato, que seria

21

Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 84.

22

Idem, p. 109.

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uma grande alegria têlo como hóspede23. O esbanjamento de dinheiro, como aconteceu por ocasião do casamento do ainda príncipe D. Carlos, incomportável para um país de economia débil como Portugal, foi assunto severamente comentado por Bernardino24. Interessante é notar que apesar de todo o entusiasmo e força no advento da República, não criticava severamente os últimos reis de Portugal, nomeadamente D. Carlos, considerando-o mais uma vítima da decadência que tinha atingido o âmago das instituições monárquicas, no contexto de uma dinâmica centralizadora que subtraíra o poder à Nação para o entregar a forças reaccionárias, sendo que, em sua opinião, os principais responsáveis pelo regime não haviam tido energia suficiente para enfrentar tal situação. Bernardino Machado chega mesmo a lamentar a morte do infeliz rei, mormente ao considerá-la desnecessária para o surgimento de uma República que integrasse Portugal na marcha da civilização 25 . O corte com o partido Regenerador fez-se sentir, quando já era Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, filiando-se então no Partido Republicano. Em 1903 pronunciou um discurso célebre no Ateneu Comercial de Lisboa – Da Monarquia para a República – que lhe valeu um apoio muito entusiasta dos arraiais republicanos, vindo a ser eleito Presidente do Directório do Partido Republicano Português26. Em 1907, por ocasião da greve estudantil e como manifestação de solidariedade para com os estudantes, que estavam a ser vítimas do tradicional ensino da sebenta e das prepotências dos lentes, solicitou a sua exoneração de lente catedrático. Para trás ficavam quase trinta anos de magistério. Tal atitude, para além das repercussões que teve na opinião pública, mostra sobretudo o espírito determinado e as profundas convicções de liberdade e de justiça de Bernardino. Não se importava de cortar com uma situação com a qual não concordasse, ainda que tal representasse um profundo golpe na sua carreira e no seu trabalho.

23

Idem, p. 102.

24

Museu Bernardino Machado – Exposição Bernardino Machado, Descentralização e Municipalismo. Vila Nova de Famalicão: Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, 2005, p. 49. 25

Ferreira, Jaime – Bernardino Machado, p. 14.

26

António – Bernardino Machado, memórias, p. 129.

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Bernardino com António José de Almeida, António Luís Gomes e Celestino de Almeida e Afonso Costa. In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia…, p. 53.

Nos anos que antecederam a Revolução percorreu o país, proferindo conferências e participando em sessões e comícios. Apesar de ter sido convidado para reitor da Universidade por três vezes, a saber: por José Dias Ferreira; por Hintze Ribeiro e por António Sérgio, declinou as ofertas, invocando sempre razões, para si, de natureza estrutural. No entanto, muitos anos depois, lamentaria juntos dos netos não ter sido reitor para, provido de mais eficácia, ter concretizado os seus projectos no campo da educação. Outro cargo que também gostaria de ter tido era o de ministro da Instrução, para poder realizar os seus projectos de reforma e criação27. Quando estalou a Revolução de 1910, Bernardino encontrava-se na sua casa de Moledo do Minho, apressando-se a tomar o primeiro comboio para o Porto e depois para Lisboa, embora tenha ido de carro das Caldas da Rainha até à capital. Com o novo sistema político, Bernardino passou a sobraçar a pasta de Ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório – por influência de Afonso Costa – desenvolvendo a sua acção numa Europa que estava atónita com os acontecimentos em Portugal28. A nova República era

27

Machado, António de Barros – “Evocação de Bernardino Machado”. In Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o político e o pedagogo, p. 22

28

Machado, António – Bernardino Machado, memórias,p.171. 29

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vista com muita suspeita pelo estrangeiro, situação que Machado se esforçou por contrariar, mesmo muitos anos depois. Nos seus discursos de 1927, salientava o bom exemplo da República Suíça, onde havia a preocupação constante dos habitantes terem uma participação cívica muito salutar para o bem da Democracia e da Nação29. Num outro escrito, datado de 1928, criticava severamente a circunstância de a ditadura militar portuguesa ter suprimido o direito ao voto ao operariado, bem assim como outros direitos30. Na sua luta por tais valores procurava a dignificação da República em Portugal, considerando que qualquer indivíduo não era um ser isolado, mas um membro da sociedade. Foi eleito deputado às Constituintes em 28 de Maio de 191131 e Ministro de Portugal no Rio de Janeiro entre 1912 e 1913. No seu entendimento, era um dever para com a Pátria aceitar tais encargos, desde que fosse em benefício de Portugal, tentando representar o país da melhor e mais eficiente maneira.

No Rio de Janeiro, Brasil, acompanhado pelas filhas, Joaquina e Elzira, Dez. de 1913. In Museu Bernardino Machado – Bernardino Machado, O Homem …, p. 212.

29

Museu Bernardino Machado – Exposição Bernardino Machado, Descentralização e Municipalismo, p. 43. 30. 30 31

Idem, p. 50.

Ventura, António – “Bernardino Machado presidente da República Portuguesa”. In Bernardino Machado, o homem, o cientista, o político e o pedagogo, p. 71.

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Pouco tempo após o seu regresso do Rio de Janeiro, Bernardino Machado é chamado a formar governo. Toma posse a 9 de Fevereiro de 1914, dando curso a uma conseguida política tendente a apaziguar a sociedade portuguesa, minorando as acesas paixões políticas então existentes.

Bernardino Machado, Presidente do Governo e Ministro do Interior em 1914. [Desenho de Jofre de Lima Monteiro Alves]. In Padornelo [em linha] Abril de 2011. Disponível em http://padornelo.blogs.sapo.pt/2006/04/

Em 1915 tornou-se presidente da República. Bernardino e Elzira passaram a viver na então já considerada residência oficial do mais alto Magistrado da Nação. Saliente-se que durante a 1ª República, apenas duas primeiras-damas tiveram o ensejo de habitar tais aposentos: Lucrécia de Brito Barredo Furtado, esposa de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira, e Elzira Dantas. Saliente-se que durante a 1ª República, apenas duas primeiras-damas tiveram o ensejo de habitar tais aposentos: Lucrécia de Brito Barredo Furtado, esposa de Manuel José de Arriaga Brum da Silveira, e Elzira Dantas. Na realidade, as esposas dos primeiros presidentes não tinham, enquanto tal, presença pública, por força do Decreto-Lei de 24 de Agosto de 1911, cujo artigo 4º estabelecia que os familiares do presidente não poderiam ter lugar de preferência nos actos públicos32. Se na primeira presidência, Elzira e a família se fixaram no

32

Esteves, João – As Primeiras Damas, fotobiografias. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, pp. 4.

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Palácio de Belém, já na segunda, que decorreu entre 11 de Dezembro de 1925 e 28 de Maio de 1926, a esposa de Bernardino recusou ir viver para a habitação oficial, optando por ficar na Quinta da Cruz Quebrada. Apesar de não haver a noção da figura “de primeira-dama” ou de “família presidencial”, Bernardino deixou-se fotografar com a sua prole nesse ambiente. O seu papel de presidente teve apenas funções protocolares. Machado sentia mais a necessidade de circular pelo país, receber inúmeros convidados no palácio de Belém, transformando-o num centro de convívio social e mundano, com festas com as quais gastava tudo quanto recebia. Tal contrastava violentamente com o que se passava na rua. Político independente, próximo do Partido Democrático, Bernardino Machado desde sempre tinha defendido a entrada de Portugal no conflito mundial que havia eclodido em 1914. Quando em Fevereiro de 1916 foi solicitado por Inglaterra que os barcos alemães no porto de Lisboa fossem apresados, o governo português correspondeu de imediato ao apelo, atitude que levou a uma declaração de guerra a Portugal por parte da Alemanha. O facto levou a uma onda de apreensão em todo o país, pois nem todos estavam de acordo com a participação do país num conflito que já se sabia profundamente sangrento. As convulsões e dissensões internas que então se registaram em Portugal conduziram um golpe de estado, ao cair da tarde do dia 5 de Dezembro de 1917, chefiado por Sidónio Pais. Durante os momentos que antecederam o seu afastamento da presidência, Bernardino Machado teve por preocupação principal evitar a guerra civil e assegurar a legitimidade republicana. Revelou-se como homem de coragem, tendo proferido uma célebre frase: eu nunca adoeci de medo. Em consequência desse golpe de Estado, foi exilado para França, onde morreu a sua filha Maria, acontecimento trágico que o desgostou profundamente. Quando Sidónio Pais foi assassinado, a 14 de Dezembro de 1918, Bernardino esperou que fosse chamado para reassumir o cargo, dado que não havia terminado o mandato para o qual havia sido eleito. A mágoa e incompreensão pelo facto de ter sido preterido foram muito grandes, estado de espírito traduzido nos seus escritos de então, em jornais e revistas. Em 1921, o Presidente António José de Almeida convidou-o para formar governo, pelo que chefiou o executivo entre 2 de Março e 23 de Maio desse ano, acumulando com a pasta da Agricultura. Ascendendo de novo à presidência da República, em 11 de Dezembro de 1925, foi novamente deposto em 28 de Maio de 1926, partindo para o exílio, donde regressaria apenas em 1940. De 1927 a 1940, esteve exilado primeiro em Espanha e

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depois em França, assumindo um comportamento exemplar de resistência e de luta panfletária contra a opressão.

Postal redigido na Corunha em 30 de Junho de 1927, para o seu filho Narciso Machado. In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia …, p. 94.

Apraz perguntar quem foi este homem que protagonizou uma carreira política brilhante, mas, simultaneamente, polémica? Quais eram as suas apetências, os seus gostos, as suas tristezas e alegrias? Indivíduo frágil de aparência, em si guardava, porém, a força e a determinação que o tornavam um cidadão convicto, empenhado em dar o seu contributo ao aperfeiçoamento da sociedade portuguesa. Muito afável e educado por natureza, causava impressão profunda em quem com ele lidava. De carácter altruísta e generoso, era sensível ao sofrimento dos que lhe estavam próximos, sendo conhecido por estar sempre pronto a estender uma mão amiga33. Aliada a esse aspecto humano,

33

Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 33.

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ressaltava a sua inteligência e raciocínio rápido, em interligação com uma memória prodigiosa onde conseguia registar dia, hora e nomes de acontecimentos ocorridos havia muito tempo. Capacidades que causavam admiração em quem como ele privava. Perfeccionista nos trabalhos em que participava ou dirigia, escrevia de forma impulsiva, rejeitando a prolixidade e a redundância, o que o obrigava a ler e a reescrever, afincadamente. Gostava particularmente de redigir cartas e postais, embora atribuísse tais gostos às mulheres.

Caricatura de Amarelhe, bilhete postal. In Rosa – Elzira Maria Dantas Machado – Bernardino Machado, fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006.

Apesar de todos os ataques políticos de que foi alvo, ao longo da sua carreira, nunca desceu ao insulto, utilizando apenas a expressão “pedaço de asno” que, no seu entender, era algo que categorizava bem o interlocutor. A fuga ao insulto não significava, porém, o medo de enfrentar e ser contundente quando tal fosse necessário. Ou seja, à sua impecável cortesia, fazia aliar uma inflexível firmeza. Outra característica, mais intimista e pessoal, dizia respeito à sua vaidade de homem que não descurava a sua forma irrepreensível de vestir, não dispensando os colarinhos altos e os peitilhos engomados, a sua sobrecasaca e chapéu alto, quando saía à rua. Ramalho Ortigão, em 1882, descrevia-o com um homem magro, seco, nervoso, testa larga sorriso fino, olhar penetrante e

toilette escrupulosa34. Lisonjeava-o o reconhecimento público e os cumprimentos de gente anónima, que gostava de retribuir em mesuras levantando o seu chapéu, num gesto requintado e pleno de delicadeza, facto muito caricaturado nas épocas das suas duas presidências35. Não nos esqueçamos que no período de tempo a que nos reportamos – primeira e segunda décadas do século XX – a caricatura, que tanto ia desde a exploração humorística à crítica causticante, era profusamente usada como arma política. O espírito de Bernardino, que hoje chamaríamos de desportivo, fazia com que aceitasse tais brincadeiras, mais ou menos de bom-tom, excepto de uma vez, em1922, quando o “O Século” o representou com uma vénia rasgada, de chapéu na mão – o tal gesto tão típico de Bernardino – a oferecer os seus préstimos para uma segunda presidência. Ao ver-se caricaturado e acompanhado de uma mensagem que o classificava de o sempre às ordens, reagiu com veemência, mostrando uma profunda irritação. A carta, por si redigida, e que a seguir se transcreve foi a resposta dada ao editor de “O Século”: Meu caro amigo e senhor: Agradeço-lhe com todo o apreço a oferta do cliché da caricatura. “O Século” é que a acompanhou duma legenda equívoca. E contudo ele é competente para saber que não sou o sempre às ordens. Estou certamente às ordens do meu dever. Ocupo mesmo tanto de vontade os postos em que tenho de o cumprir, que muita gente imaginará que acedo menos ao desejo dos outros do que ao meu próprio. Mas o facto é que nunca os solicitei. Tenho sido tudo na política do meu país, sem chefiar nenhuma facção, repudiando clientelas, e sem haver sequer, em toda a minha longa carreira pública, jamais pedido um voto a ninguém. Disso me orgulho. E honro-me deveras de assim atestar quanto em Portugal as forças morais governam. Por não estar às ordens do arbítrio monárquico, preguei a República. Por não estar às ordens da velha reacção universitária, demiti-me de professor; por não estar às ordens de uma Constituição anti-liberal da Maçonaria, renunciei ao seu grã-mestrado. Por não estar às ordens de aventuras ditatoriais, sob a República, tenho-as combatido todas irredutivelmente, na vanguarda das reivindicações democráticas.

34

Ferreira, Jaime – Bernardino Machado, p. 17.

35

Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, fotobiografia …, p. 44.

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Por não estar às ordens de nenhum potentado estrangeiro pus-me à frente da nossa intervenção na guerra. Não estou nunca às ordens senão dos que querem fazer o bem. Disponha, pois, do Parede, 26-2-922 Seu am.º e adºr, Bernardino Machado36

Bernardino sempre sentiu um enorme respeito, tocando as raias da obsessão, pelos compromissos assumidos, conforme testemunhou Ribeiro de Carvalho – Ministro da Guerra, que com ele partilhou o exílio em Madrid e Paris37. O seu acutilante poder de reflexão e de crítica ficou bem visível quando, numa entrevista concedida ao “Notícias Ilustrado” em 1932, Bernardino se referiu à autonomia da Universidade, focando o caso particular do encerramento da primeira Faculdade de Letras do Porto. Sentia ele que o estudo das Letras era o estudo da emotividade da alma humana, o mais poderoso móvel da sua progressiva ascensão moral e, em termos portugueses, dos sentimentos delicados e nobres feitos da nossa História que iriam servir de referência às novas gerações em formação38. Apesar do discurso bem conseguido seria um homem um tanto apegado ao poder, como ele mesmo admitiria ao estabelecer uma comparação com Giner de Los Rios, Ministro do Governo Provisório da 2ª República Espanhola, que era estruturalmente político e ao contrário de quem nunca acedia à presidência, ele aceitava todas as presidências39. D. Francisco Giner de los Rios foi uma personalidade que teve grande contacto e afinidade cultural com Bernardino. Apesar de ambos terem formas de estar muito diferentes, comungavam de iguais paixões. Os dois eram pedagogos, dedicando-se ao ensino e engrandecimento das suas pátrias; a mesma coerência de vida; a fidelidade aos princípios liberais; a persistência; e a vontade de ferro. A partir de 1890, um em Espanha e outro em Portugal mantiveram uma correspondência assídua.

36

Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 89.

37

Carvalho, António G.G. Ribeiro – Prelúdios de uma Ditadura, p. 12.

38

Ferreira, Jaime – Bernardino Machado, pp. 10 e 11.

39

Carvalho, António G.G. Ribeiro – Prelúdios de uma Ditadura, p. 37.

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Bernardino Machado com Giner de Los Rios, em 1908. In ROSA, Elzira Maria – Bernardino Machado, Presidentes…, p. 45.

Homem de vários objectivos elegeu a educação como tema fundamental. É provável que a família onde foi criado, a influência da mãe e o facto de ter tido uma numerosa prole, com muitas filhas, tivessem condicionado a sua visão de que apenas a educação podia representar um avanço na cidadania e no progresso do país. O aspecto inovador em Bernardino é que estendia o ensino, sem reservas, à mulher, no pressuposto de que tal era condição imprescindível para a construção de uma sociedade mais justa e mais valorizada. Desde sempre defendeu um modelo de ensino integral e democrático. No entanto, ia mais longe, ao desejar alargar o número de alunos do ensino secundário, de criar o ensino técnico, de se abrir a educação às meninas e de apoiar as iniciativas que visassem o fomento da educação popular. Afligia-o sobremaneira a falta de isenção dos professores, considerando estarem os mesmos demasiado subordinados às forças políticas da época. E a preocupação sobre a Educação estava igualmente patente na sua imensa biblioteca privada, onde as obras orientadas para essa temática ocupavam um lugar de absoluto

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destaque. Biblioteca essa que, devido às constantes mudanças – morou no Porto, Coimbra, Lisboa, Rio de Janeiro, Madrid, La Guardia, Paris – se foi desfalcando com empréstimos nunca devolvidos, com perdas de obras autografadas ou com estrago das mesmas. Numa análise mais detalhada da educação feminina, verificamos que o assunto já tinha sido focado internacionalmente, encontrando especial eco na Península Ibérica em feministas directa ou indirectamente ligadas à Instutuición Libre de Enseñanza, como Emília Pardo Bazán ou Soledad Acosta, personalidades com quem Bernardino se relacionou. O problema da emancipação da mulher atingiu um dos seus momentos de maior relevo no Congresso Hispano- Português-Americano, havido em 1892. Bernardino alinhou com a perspectiva feminina, pois considerava que o problema passava pela integração da mulher na vida pública e profissional, através da educação e pela derrogação das disposições jurídicas que a subordinavam ao poder marital, bem assim como pela sua subtracção à influência perniciosa da Igreja Católica. Mesmo em Portugal, Bernardino teve um contacto próximo com feministas como Maria Amália Vaz de Carvalho, Carolina Michaëllis, Alice Pestana, Maria Veleda e Ana de Castro Osório, apoiando as iniciativas que levaram ao aparecimento do Grupo de Estudos Feministas (1907), da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (1908-1909), da Associação de Propaganda Feminista (1911-1918), da Associação Feminista de Propaganda Democrática (19141947) e da Cruzada das Mulheres (1916). Aliás, tanto ele como António José de Almeida foram oradores no 2º aniversário da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1911, em cuja mesa figuravam nomes femininos como Ana Dias, Ana de Castro Osório e Elzira Machado, sua esposa40. Igualmente no Primeiro Congresso Feminista e da Educação, inaugurado no âmbito do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (1924), defendeu o sufrágio feminino, não havendo, para si, qualquer contradição entre as esferas do trabalho privado, do lar, e a da participação pública. Neste contexto, não será de estranhar as actividades de Elzira, nem das suas duas filhas, Joaquina e Maria Francisca, fiéis acompanhantes dos progenitores, no empenhamento em mudar mentalidades e actuações.

40

Museu Bernardino Machado – Exposição Bernardino Machado, Descentralização e Municipalismo, p. 45.

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Por outro lado, não hesitou em apoiar várias iniciativas de carácter humano e social, como foram a construção do hospital do Porto, em Contumil, iniciada no dia 31 de Janeiro de 1916 (construção que viria a ser interrompida pelas graves dificuldades vividas com a participação de Portugal na Iª Guerra Mundial) ou participar no lançamento da primeira pedra da construção do Liceu Alexandre Herculano no Porto, na data acima citada. O seu discurso promovia habilmente a cidadania através do estudo, onde, na sua perspectiva, uma classe média, núcleo fundamental de uma sociedade, seria valorizada. Ensinar é governar: ensino despótico, governo despótico.

Bernardino e Elzira na Quinta de Mantelães, em 1940. In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, Presidentes (…), pp. 102.

O apoio que Bernardino Machado iria dar à educação básica e secundária seria um dos pilares da República que emergia de uma época de grande atraso académico e cultural. Mesmo as universidades (Porto e Lisboa) mereceram a sua atenção através da propaganda pedagógica, onde estava presente a neutralidade religiosa. Em seu entender, só seria possível a marcha da civilização

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desde que a mesma tivesse a par com as ciências e com as instituições. Esta acção em prol da reforma do ensino, escolas primárias, ensino técnico, ensino profissional para as mulheres, criação de bibliotecas provocou uma relativa mudança em Portugal. A esta postura, acrescia o seu interesse pelos mais pobres e necessitados, com ressalta de alguns dos seus discursos, designadamente o que teve por título, A Maçonaria Portuguesa, publicado em Coimbra, em 1899, onde, a dado passo, disse: “É vastíssimo o nosso campo de acção. A criança, o velho, a mulher, o proletário, o enfermo, o delinquente, e, para uma nação como esta, tão disseminada pelo Mundo e tutora de tantos povos incultos, o emigrante e o gentio, eis um sem número de entes que imploram a protecção social, e a quem por nossa parte a devemos”.41

Influenciado pelo laicismo francês, nunca foi um jacobino anti-clerical. Nunca se deteve em análises metafísicas, pois tinha sido educado e educou-se numa disciplina científica. Não hostilizava a Igreja, mostrando para com ela um espírito tolerante, sem contudo lhe dar qualquer tipo de apoio. Aliás, quando Presidente do Ministério, em 1914, limou várias arestas na aplicação da Lei de Separação do Estado e da Igreja, sem pôr em causa a intangibilidade do laicismo que se pretendia na sociedade portuguesa42. Em Coimbra ou no exílio, em La Guardia – Espanha, sempre que o tempo o permitia alongava os seus passeios para fora da cidade, acompanhado de algumas pessoas mais chegadas, regressando tarde para jantar. Gostava de falar sobre um pouco de tudo, obrigando os seus acompanhantes a desistirem das longas caminhadas, ou por cansaço ou por fraqueza de estômago. Figura muito conhecida entabulava conversa com muita facilidade com quem dele se aproximasse.

41

Machado, António – Bernardino Machado, memórias, p. 97.

42

Machado, António de Barros – “Evocação de Bernardino Machado”. In Bernardino

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O ancião Bernardino Machado. In Rosa, Elzira Maria – Bernardino Machado, Presidentes …, p. 102.

Já ancião, Bernardino Machado trabalhou até aos seus noventa anos. Dois anos depois, a sua querida Elzira, companheira de longas décadas, faleceu. É provável que a sua sobrevivência de apenas dois anos, após a partida da companheira tenha já sido por acção do desgosto de ter ficado sem a sua presença. Infelizmente não deixou os escritos das suas memórias, muito embora tivesse sido instado para tal, pelos seus amigos e familiares. Da sua memória prodigiosa, da sua dicção perfeita, do seu excelente domínio da língua portuguesa existem os seus breves escritos em jornais, a sua correspondência, as suas máximas e as referências assinaladas pelos familiares e de outros que consigo conviveram.

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BIBLIOGRAFIA Carvalho, António G.G. Ribeiro – Prelúdios de uma ditadura. Lisboa: edição de autor, 1957. Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Lisboa: Editorial Verbo, Vol. 12. Esteves, João – Presidentes de Portugal, As primeiras damas. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006 Ferreira, Jaime – “Bernardino Machado, estadista que tinha o Porto no coração”, separata de O Tripeiro, Fev. 1970, Porto. Machado, António – Bernardino Machado, memórias. Porto: Figueirinhas, 2000. Museu Bernardino Machado – Exposição Bernardino Machado, Descentralização e Municipalismo. Vila Nova de Famalicão: Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão, 2005. Museu Bernardino Machado – Bernardino Machado, O Homem, o Cientista, o Político e o Pedagogo. Vila Nova de Famalicão: 2001. Actas do Colóquio dos Encontros de Outono, 6/7 Novembro de 1998. Rosa, Elzira Maria Dantas Machado – Bernardino Machado, fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006. Saraiva, José António – O Palácio de Belém, com os seus hóspedes, os seus segredos e a sua vida quotidiana. Lisboa: Editorial Inquérito, 1985. Torgal, Luís Reis, “A Universidade entre o dinamismo e o estrangulamento cultural”. In Portugal Contemporâneo, Dir. de António Reis. Lisboa: Publicações Alfa, 1989. pp. 257 a 262.

Sidónio Pais (Museu da Presidência da República)

Maria Antónia Melo e Sá Lucas da Silva Rodrigues Técnica Superior da Câmara Municipal de Coimbra e mestranda em Arqueologia do Território pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

S

idónio Bernardino Cardoso da Silva Pais nasceu em Caminha, a 1 de Maio de 1872. Era filho de Rita Júlia Cardoso da Silva e de Sidónio Alberto Marrocos Pais. Morreu vítima de um atentado, na Estação do Rossio, em 14 de Dezembro de 1918. Sidónio Pais foi, seguramente, das personagens da nossa história contemporânea, aquele de quem nos chegaram mais pormenores físicos e mentais. Estes pormenores foram descritos até à exaustão, quer através do recurso à imagem fotográfica e caricatural, quer através de descrições intimistas de apoiantes e adversários. E Sidónio foi, também, das personalidades que mais viu devassada a sua vida privada, facto que, por vezes, se traduziu em erros de interpretação e em rumores não fundamentados, os quais, trespassando a malha do tempo, chegaram até nós ainda eivados de dúvidas quanto à sua veracidade. Um texto publicado na Revista de História, poucos meses após a sua morte, inserido num ensaio de etologia (estudos em voga na época), descrevem-nos Sidónio Pais como anatomicamente de “typos respiratórios, indivíduos particularmente dispostos para sofrer a acção da atmosfera, do meio aéreo e perfeitamente adaptáveis às suas variações (…)”1. As várias imagens fotográficas de Sidónio são condizentes com esta discrição, já que mostram um desenvolvimento notável da região média do rosto, alta e longa, com nariz alongado e estreito, com narinas dilatadas e septo patente. Segundo o exame feito durante a sua autópsia, os caracteres de simetria apresentados no rosto são concordantes com os do tórax, verticalmente grande e com longo esterno e costelas semi-ocultos na bacia. O que apenas destoa, facialmente, nesta tipologia, “é o tamanho e a forma da fronte, que mesmo nos retratos do tempo de

1

“A.A.C.F. – S/T”. In: Revista de História. Lisboa: Livraria Universal, 1920, Janeiro a Março Anno IX, n.º 33, p. 69-70. Não foi possível, até à data, identificar com segurança o autor, no entanto, parece-nos ter sido alguém próximo e simpatizante de Sidónio, pelas informações concordantes com a de outros autores contemporâneos.

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rapaz, no primeiro ano em que frequentou a Universidade, por exemplo, era alta e larga, em lugar de baixa e estreita, como sucede nos respiratórios puros. O aspecto da fronte, como o dos olhos, é de um cerebral2, e de cerebral eram os seus hábitos intelectuais e a sua conhecida irritabilidade (…)”3. Este último traço da sua personalidade vai revelar-se ao longo de toda a sua vida, principalmente na esfera privada. Mas não foram só os seus atributos físicos que chamaram a atenção de quem com ele privou. As suas qualidades intelectuais foram também destacadas, ora de uma forma positiva, ora violentamente escarnecidas. Egas Moniz, amigo e colaborador do consulado de Sidónio, definiu-o como “Homem cheio de virtudes e extraordinárias qualidades que um desvario messiânico perdeu. (…) quanto mais dele nos apartamos, mais se tornam evidentes os excepcionais dotes do seu espírito de eleição (…)”4. Raul Brandão, décadas depois do assassinato, mas dentro da mesma linha conceptual, definiu-o da seguinte forma, bastante elucidativa e pragmática: “Havia nele uma distinção que os outros não tinham: não sei o quê, que atraía os homens e principalmente as mulheres – desprendimento de si próprio, arrojo, amor dos humildes (todos os pobres de Lisboa o choraram e eles bem sabem porquê). Metade príncipe, metade condottiere, seduziu, passou como um relâmpago e não deixou vestígios, porque a força que um momento o ergueu até ao alto, se não era fictícia, desapareceu ao primeiro sopro (…)”.5 Também as suas origens estiveram sempre envoltas em polémica e informações contraditórias. O rumor de que era descendente de berberes6, usado de forma abusiva e caricatural pelos seus adversários, tinha como fundamento precisamente o facto de seu pai ter como apelido o sobrenome “Marrocos”, indiciando uma possível proveniência geográfica e raízes em África. António de Albuquerque vai ainda mais longe, naquilo que poderemos considerar um ataque pessoal, ao afirmar sem preconceito e numa linguagem clara, que Sidónio era “descendente de berberes, degenerada raça de pretóides, conhecida

2

Por oposição, segundo as teorias de Chailon e Mac – Aulffe, à do typo respiratório.

3

“A.A.C.F”. – ob. Cit., p. 69-70.

4

Moniz, Egas – Um Ano de Política. 1.ª Edição. Lisboa: Portugal-Brasil, 1919, p. 156.

5

Brandão, Raul – Memórias. In: Jornal do Foro. Lisboa: 1969, p. 443.

6

À época corria a teoria de que este grupo, oriundo do Norte de África, era uma raça inferior e não evoluída, por oposição a um chamado “homem europeu”.

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desde a mais alta antiguidade (…).”7 No entanto, acaba por reconhecer que Sidónio era já um homem civilizado, “sabendo disfarçar pela imperscrutabilidade fisionómica, os seus ferinos instintos”8. Paralelamente, muitos outros o consideravam descendente das “gentes castrejas”, um verdadeiro “celta do Minho”, homem de feitio amoroso, sedutor e bondoso, leal e sincero, traços estes bem caracterizadores da maneira de ser do povo minhoto. Num estudo9, publicado na década de 90 do século passado, ficam dissipadas as dúvidas quanto às suas origens e ascendências. Neste escrito se afirma e prova que Sidónio Pais é descendente directo da estirpe do Reverendo Diogo Brandão10, Senhor da Quinta do Paço de Alvelos e vigário de São Paio do Carvalhal, em Barcelinhos. Da união com Maria Antónia, solteira e natural daquele lugar, teve dois filhos, a um dos quais deixou testamento, precisamente reconhecendo o primogénito dessa relação, situado na linha directa da ascendência materna de Sidónio. O termo “Marrocos”, constante do seu apelido, é, segundo o referido texto, proveniente da avó paterna, D. Francisca Rita Marrocos, nascida em Caminha, como a mãe, sendo o pai desta senhora, natural de Lanhelas. O apelido Pais herdou-o do avô paterno, Bernardo José Pais de Azevedo, escrivão de Direito e Tabelião de Notas no 1.º Ofício da Comarca de Caminha, que casara, em segundas núpcias, com D. Francisca Rita Marrocos. Foi primogénito deste segundo casamento, Sidónio Alberto Marrocos Pais, o qual sucedeu a seu pai no mesmo cargo daquela comarca, mas no 2.º Ofício. Casou este a 22 de Junho de 1871, em Caminha, com D. Rita Júlia Cardoso da Silva, filha de António Joaquim Cardoso, Tabelião de Notas do 1.º Ofício e Escrivão de Direito em Caminha, ficando ligado por matrimónio a uma das bem conceituadas famílias burguesas (Coelhos da Fonseca e Xavier da Silva) de Caminha. Sidónio Pais foi precisamente o primeiro dos sete filhos a nascer da união entre D. Rita e Sidónio Alberto. O funcionalismo judicial e tabeliónico, ligado à vida profissional dos seus ascendentes, conferiram à família um estatuto médio e o reconhecimento

7

Albuquerque, António – Sidónio na Lenda. 1.ª Edição. Lisboa: Lúmen, 1922, p. 10.

8

Idem, ibidem, p. 13.

9

Silva, Armando Malheiro; Trigueiros, António Júlio Limpo – “Os Paes de Barcelos, Subsídios Genealógicos para a biografia do Presidente da República Sidónio Paes”. In: Barcelos Revista. Barcelos: Separata, 1994, p. 128. 10

Faleceu no Paço de Alvelos em 1625.

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social que, de algum modo, terá condicionado o processo formativo de Sidónio. Em simultâneo, esta aparente situação de estabilidade foi atravessada, também, por intrigas e perseguições políticas. O pai, vítima disso mesmo, foi obrigado a abandonar o lugar de escrivão de Caminha para ir para Pedrógão Grande, vindo a falecer de pneumonia em Dornes, Ferreira do Zêzere, em 27 de Agosto de 1883, quando Sidónio tinha apenas 11 anos.

Rita Júlia e Sidónio Alberto, pais de Sidónio. In Fotobiografias Século XX (Direcção de Joaquim Vieira), p. 30

Esta morte prematura terá afectado consideravelmente a situação da viúva e dos órfãos, não obstante o apoio familiar que certamente receberam dos tios e avós.11 Apesar de algum amparo financeiro que a família recebeu, o acontecimento trágico obrigou Sidónio, logo no início da sua escolaridade média, no Liceu de Viana do Castelo, e mais tarde na Universidade de Coimbra, a dar explicações aos seus colegas, para ajudar a custear a sua educação e a dos seus irmãos.12 Adolescente, matriculou-se, como já foi referido, no Liceu de Viana do Castelo com o estatuto de aluno “estranho”13 para fazer exames de classe de três disciplinas e apenas nos meses de Julho de 1884, 1885, 1886,

11

Cf. Silva, Armando Malheiro; Trigueiros, António Júlio Limpo – ob. Cit., p. 119.

12

Duarte, Teófilo – Sidónio Pais e o seu consulado. 1.ª Edição. Lisboa, s/d, p. 162-163.

13

Aluno “estranho” significava que não estava matriculado para frequentar as aulas.

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como consta dos Livros dos Termos de Exames que se encontram no Arquivo daquele liceu14. No ano lectivo de 1885-86, Sidónio Pais aparece registado também no Livro do Movimento Literário15 do Seminário Episcopal de Coimbra. Frequentou as aulas nessa instituição, tendo sido aprovado nas disciplinas de História e Geografia, justamente aquelas que não fizera no Liceu de Viana. A sua passagem pelo Seminário de Coimbra não ficou registada nos livros de matrículas, o que parece indiciar claramente que não fazia parte da lista dos que pretendiam seguir a via eclesiástica, uma vez que desses registos constava apenas o nome dos alunos internos, que no futuro aspirassem a uma carreira no seio da religião católica.

Sidónio na adolescência. In Fotobiografias Século XX (Direcção de Joaquim Vieira), p. 30

Este pormenor é de supra importância, como se verá mais à frente, na relação idiossincrática que Sidónio terá com a Igreja Católica, após chegar ao poder. Aos 16 anos entrou para a Escola do Exército. Foi subindo os vários

14

Ramalho, Nunes Miguel – Sidónio Pais, Diplomata e Conspirador (1912-1917). 2.ª Edição. Lisboa: Edições Cosmos, 2001, p.16.

15

Arquivo da Biblioteca do Seminário Maior Episcopal de Coimbra, livros 1,5,10 do Movimento Literário, ano 1885-1886.

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escalões da carreira militar16, até chegar ao posto de major, por decreto-lei de 18 de Março de 1916, quando acabado de regressar de Berlim. Na Ficha do Regimento de Infantaria N.º3 – sobre a informação anual, referida a 31 de Dezembro de 1889, como soldado aspirante a oficial, tendo apenas 17 anos – o seu chefe, Luís Pinto de Mesquita Carvalho, fez dele o seguinte juízo: “Este aspirante é inteligente, do que tem dado provas da maneira mais distinta por quem cursa a Universidade e tem boa conduta”17. O general e literato Fernandes Costa18, que foi instrutor militar de Sidónio Pais em Vendas Novas, no ano de 1893, descreve-nos a figura do seu pupilo como sendo “relativamente esbelto, aprumado, quase imberbe ainda; de faces pálidas, animando o rosto por um certo fulgor do olhar, ora doce, ora observador e penetrante – olhar que ascendia muitas vezes ao alto, que se demorava nos pequenos nadas terrenos – e por um sorriso, quase imperceptível, um tudo-nada desdenhoso, que respondia mais às reflexões íntimas do que às impressões externas; este moço de feições e linhas aristocráticas, comedido nos gestos, de palavra não abundosa, porém fluente clara e límpida; sereno e correcto em todos os seus movimentos, em todas as suas atitudes; parecia deter à distância, sem contudo

16

Sidónio Pais foi incorporado em 12 de Dezembro de 1888, como voluntário, no Regimento de Infantaria n.º 23, onde serviu durante quatro anos como sargento graduado cadete. Em Dezembro de 1892, foi promovido a 2.º tenente, transitando ao mesmo tempo para a Arma de Artilharia, sendo nomeado professor do 2.º Curso da Escola Regimental. Por decreto de 10 de Janeiro de 1895, foi promovido a 1.º tenente da mesma arma. Em 1899, e também por decreto de Janeiro, deixou de ser contado no quadro efectivo da mesma arma por ter sido nomeado lente substituto da Faculdade de Matemática da Universidade de Coimbra. Depois foi, primeiro promovido a 2.º capitão; e, em data ulterior a capitão por execução, tendo sido graduado no mesmo posto por decreto de 19 de Janeiro de 1911.

17

Arquivo Histórico Militar, Lisboa, Processo Individual do Major Sidónio Pais, caixa 1325, 3.ª Divisão, 7.ª Secção.

18

José Fernandes Costa (Lisboa, 1948-1920), general da arma de artilharia. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências, escritor e divulgador científico, fundador do Almanaque Bertrand, que dirigiu desde a sua criação, em 1900, até à sua morte. Foi ainda colaborador do Dicionário Popular de M. Pinheiro Chagas, dirigiu também o Dicionário Universal Português e exerceu ainda uma importante actividade de tradutor, sendo da sua responsabilidade a tradução de obras de Edgar Quinet, Shakespeare, entre outros.

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as melindrar, as familiaridades tão próprias entre camaradas, naquelas idades sinceras e desprevenidas”19. Na informação anual, referida a 31 de Dezembro de 1893, do Regimento de Artilharia N.º2, em Vendas Novas, consta das Notas do Registo Disciplinar que lhe foi imposta uma pena de seis dias de detenção pelo comandante do Corpo de Alunos da Escola do Exército, em virtude de “não declarar a verdade quando se procedia a averiguações motivadas por infracções disciplinares cometidas por um seu camarada aluno da escola”. Este episódio resultou da suposta agressão de Sidónio Pais a um tenente de Engenharia nas ruas de Coimbra.20 Quanto à sua capacidade intelectual, a mesma informação refere que é “inteligente, hábil e ilustrado”.

O alferes de Artilharia 2, Sidónio Pais. In Fotobiografias Século XX (Direcção de Joaquim Vieira), p. 20.

Estes testemunhos revelam que apesar de não haver registo de acções militares de grande relevância na sua carreira, as menções de elogio quanto às suas

19

Costa, José Fernandes – Elogio Académico do Dr. Sidónio Pais. 1.ª Edição. Lisboa: Livraria Aillaud e Bertrand, 1919, p. 11, 12.

20

Arquivo Histórico Militar, Lisboa, Processo Individual do Major Sidónio Pais, caixa 1325, 3.ª Divisão, 7.ª Secção.

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capacidades e aprumo pessoal dão a entender que Sidónio Pais possuía uma certa apetência para a vida castrense21. Em paralelo, e mantendo ligação ao exército, inicia a sua carreira universitária em Coimbra a 15 de Outubro de 1887, quando efectua a sua primeira matrícula nesta instituição. Formou-se em Filosofia com 19 valores e doutorou-se em Matemática, a 24 de Julho de 1898, também com a mesma avaliação. Nesse mesmo ano concorreu a lente de Matemática, tendo sido promovido por decreto de 17 de Agosto de 1904 a lente catedrático da Faculdade de Matemática, ministrando a cadeira de Cálculo Diferencial e Integral. Na sua passagem por Coimbra ocupou, para além da docência universitária, outros cargos. Assim, a partir de 1910 acumulava honorários como capitão graduado de artilharia, director e professor da Escola Industrial Brotero, vice-reitor da Universidade e Presidente da Comissão Municipal de Coimbra22. Num outro documento, datado de 12 de Julho de 1911, Sidónio esclarecia, por seu punho, os cargos que ocupava e as funções que acumulava. Nesse ano, porque pressionado, supostamente por incompatibilidade de funções, deixou a Comissão Municipal de Coimbra e o cargo de vice-reitor para ser administrador da Companhia dos Caminhos-de-ferro Portugueses23. A extensa lista de cargos e remunerações mostram-nos um Sidónio incansável, versátil, e principalmente mostra-nos um homem em busca de algum desafogo económico. Sidónio Pais destacou-se enquanto aluno universitário. Devido às suas qualidades e disciplina era considerado pelos seus pares como um aluno distinto e aplicado, um verdadeiro “urso” na gíria académica.24 As já referidas dificuldades económicas obrigaram-no a vencer na vida pelos próprios meios; ora os ideais republicanos, que então emergiam nos meios académicos, eram os que melhor serviriam a sua condição de “classe não privilegiada e por isso

21

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 18.

22

Arquivo da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Processo Individual de Sidónio Pais, caixa 195.

23

Arquivo da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Processo Individual de Sidónio Pais, caixa 195.

24

Este termo significa na gíria académica o “melhor aluno do seu curso”, visto tanto de forma positiva como negativa.

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boa leira para aquela semente.”25 Estes factos, por si só, nada provam em concreto, no entanto, a verdade é que Sidónio Pais, persuadido por João de Menezes26, foi um dos assinantes do violento manifesto contra a Monarquia em 1891, o que parece indiciar, pelo menos, a simpatia que terá nutrido pelo movimento estudantil republicano. O contacto com a maçonaria terá acontecido precisamente nesta altura da sua vida. Mas mesmo este facto apresenta pormenores pouco esclarecidos e que têm levantado mais dúvidas do que certezas. A hesitação entre os historiadores e biógrafos do sidonismo, reside em afirmar quando foi feita a sua admissão no seio do Grémio Lusitano. Um documento inédito27 existente na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, esclarece a filiação maçónica de Sidónio em Coimbra e aponta a motivação do próprio, no acto de iniciação: “Testamento Qual é o vosso nome? Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais. Idade? 38 anos. Estado? Casado Profissão? Professor da Universidade Naturalidade? Caminha Residência? Coimbra. Que religião professa? Nenhuma. Que política tendes? A forma de governo mais perfeita que conheço actualmente é a republicana. Por isso sou e sempre fui republicano. A política que preferirei é aquela que tende para o bem da Humanidade.

25

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 25.

26

João de Menezes, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, quatro anos mais velho que Sidónio Pais, colaborador do jornal A Pátria, periódico de cariz republicano, surgiu nessa altura como baluarte da academia republicana. Foi ele próprio a redigir o manifesto que sucedeu à Revolta Republicana no Porto a 31 de Janeiro de 1891, este que foi o primeiro movimento revolucionário que teve por objectivo a implantação do regime republicano em Portugal.

27

Medina, João – O Presidente – Rei Sidónio Pais. 1.ª Edição. Lisboa: Livros Horizonte, 2007, p. 82. Não nos foi facultado o acesso directo ao documento.

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Qual é o dever do Homem para consigo mesmo? (sob o ponto de vista físico, intelectual e moral)28. Sob o ponto de vista físico = o desenvolvimento do seu organismo, pela educação física; sob o ponto de vista intelectual = o desenvolvimento da sua inteligência, instruindo-se o mais possível. Sob o ponto de vista da moral = procurar conhecer-se e corrigir-se pela auto-educação. Qual é o dever do Homem para com os seus semelhantes? Sacrificar-se pelo bem deles. O heroísmo no sentido mais largo do termo, deve ser o seu ideal. (N.B. Este sentido é para mim o do sacrifício pela colectividade na defesa da Justiça, da Verdade e do Bem). Que deve o Homem à Pátria? O seu esforço máximo, até ao ponto de dar por ela a sua vida. Que merece o traidor? O desprezo. Que nome simbólico deseja adoptar? Carlyle. (Data Coimbra, 20 de Fevereiro de 1911, Nome Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais)” Até prova em contrário, este documento atesta que Sidónio Pais só se fez maçon após o advento da República, pouco antes de se candidatar como deputado, pelo círculo de Aveiro. Este último pormenor é interessante de analisar, já que embora lhe fossem reconhecidas simpatias pelo novo regime, como já foi afirmado anteriormente, e tivesse tido algum destaque no apoio às causas académicas de 190729, Sidónio não passava de um desconhecido dentro das hostes republicanas. O seu nome não aparece dentro dos 161 personagens que Roque Gameiro litografou, no seu célebre quadro documental de homenagem aos mais destacados dirigentes da propaganda, em 1909. E assim terá continuado nos anos seguintes. A sua passagem pela maçonaria, se até aqui tinha sido muito discreta, é, a partir de 1912 – ano da partida para a Legação em Berlim – aparentemente interrompida. Nos anos seguintes, até Março de 1916, quando a Alemanha declara formalmente guerra a Portugal, todos os relatos parecem apontar

28

Acrescentado à mão com uma caligrafia que parece ser a de Sidónio Pais. Cf. Medina, João – ob. cit., p.82

29

Fundamentadas na sua controversa “Oração de Sapiência” (pronunciada na sala dos Grandes Actos, oito meses depois do regicídio, a 16 de Outubro de 1908).

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para um total “apagamento” da figura de Sidónio, quer como maçon, quer como agente activo política interna portuguesa. Quando, na sequência da revolta dezembrista, se dá a conhecer na Praça no Parque Eduardo VII, a 7 de Dezembro de 1917, espanto é geral e por muitos terá passado a seguinte pergunta: quem é aquele homem? No entanto, como se verá mais adiante, constata-se que durante o tempo que esteve na Alemanha, a sua actuação como diplomata não terá sido assim tão discreta.

Ministro Plenipotenciário de Portugal em Berlim (1912-1916). In Fotobiografias Século XX (Direcção de Joaquim Vieira), p. 11

Quanto à sua morte, o mistério adensa-se mais quando verificamos que os dois atentados que sofreu, o de 5 de Dezembro e o de 14 do mesmo mês de 1918, são aparentemente considerados, por muitos dos seus seguidores, e não só, como obra da Maçonaria. Para os próceres da contra-revolução tratou-se de uma maquinação do Grande Oriente Lusitano Unido, baseada no facto de Sidónio ser, à época, um “ maçom a coberto – expressão que significa aquele que se afasta da maçonaria sem a renegar”30. A verdade, porém, é que Sidónio, já como Chefe de Estado, havia encetado perseguições contra o Grande Oriente Lusitano Unido31. Após a sua morte, logo começaram a correr rumo-

30 31

Medina, João – Ob. Cit, p. 81.

Marques, A. H. de Oliveira – Dicionário da Maçonaria Portuguesa. 1.ª Edição. Lisboa: Editorial Delta, 1986, Vol. 2, coluna 1075.

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res de que a Franco-maçonaria teria sido responsável pelo assassinato do presidente. Hipólito Raposo, tece em 1945 o seguinte comentário: “ (…) pelo antigo título do avental e trolha, haveria de cair às mãos da Maçonaria que não costuma perdoar aos adeptos que se mostram renegados ou rebeldes”32. Esta verdadeira teoria da conspiração, coloca no mesmo xadrez, em oposição um maçom, Sidónio Pais (irmão Carlyle) e alguém que é, reputadamente, um maçom33, José Júlio da Costa, autor dos disparos contra Sidónio. À teoria falta, contudo a prova da ligação dos altos responsáveis da Maçonaria, não nos parecendo portanto que a mesma tenha grande fundamento34. O relato transcrito serve-nos fundamentalmente para lançar a dúvida, que em muitas mentes também se colocou: teria Sidónio renegado convictamente a Maçonaria e o seu passado maçom? Quanto à questão do baptismo maçónico, no Testamento assinado por Sidónio, para além de notas biográficas, desde logo chama a atenção o nome simbólico que Sidónio adoptou como maçom: “Carlyle”. Carlyle (1745-1881) foi um historiador escocês, autor do livro On Heroes and Hero Worship and Heroic in History (1841)35, obra em que modela uma teorização onde patenteia uma postura arquiconservadora, saída do ambiente e do espírito da corte vitoriana. Anti-republicano, é considerado um apóstolo do culto dos heróis e dos génios na evolução da humanidade e um defensor das elites na chefia das nações. A escolha deste nome por parte de Sidónio Pais, não foi, seguramente, aleatória. Uma análise feita pelo médico monárquico integralista Fernando Garcia36 compara Sidónio Pais a uma espécie de Cromwell, na imagem do estadista

32

Raposo, Hipólito – Folhas do meu Cadastro. 1.ª Edição. Lisboa: Edição Gama, 1945, p. 36.

33

Não está inequivocamente comprovada a alegada condição de maçom de José Júlio da Costa.

34

Franco, Alberto; Barriga, Paulo – O Homem que matou Sidónio Paes. 1.ª Edição. Lisboa: Colecção o Passado e o Presente, 2008.

35 36

O livro enfatiza a importância do indivíduo na História.

Fernando Garcia foi sub-delegado de saúde em Setúbal, tendo publicado algumas obras como A Liberdade Religiosa e o Jacobinismo, Fisiologia de Setúbal, entre outras.

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britânico do tipo “herói como rei” 37. Para este médico a escolha do nome Carlyle, permitiu compreender Sidónio e os seus intuitos, já que a República Nova não passaria de uma aplicação do pensamento carlyleano e acrescenta que o seu carácter o levou a incompatibilizar-se com a República, embora fosse sinceramente republicano, e termina: “estava pois condenado a viver apenas da popularidade, uma rosa de Malherbe da política, destinada a fanar-se brevemente.” Uma opinião que não traz uma nova luz a este assunto, mas cremos que para além das leituras puramente políticas, Sidónio acreditava profundamente na teoria carlyliana e em termos pessoais acreditava mesmo que ele próprio era uma pessoa especial, com uma missão específica. De uma forma instintiva, acreditava ser uma espécie de “ungido” com uma missão especial, mesmo quando ainda longe do desenrolar da trama que o levaria ao poder? No início da conspiração, pouco depois do regresso da Alemanha, quando acrescidas circunstâncias apontavam para o abortar da conjura, em pleno momento de tensão, Sidónio está nervoso, mas consciente da importância do momento, mostrando-se como um verdadeiro líder. Para quem o vê, salta à vista a imagem de um homem que “esmagava um dos seus Baunilhas (…) esmagava-o como se pisasse o sonho, não o querendo ver esvaído em fumo”38. Um outro aspecto importante na vida privada de Sidónio Pais é o das relações que manteve com o sexo feminino. As mulheres tiveram na vida de Sidónio Pais uma importância e uma influência evidentes. Também neste particular parece haver uma contradição notória: se por um lado, ficou célebre a sua imagem de galã, que por onde passava fazia despertar paixões no sexo oposto e fazia “apaixonar lascivamente todas as fêmeas atacadas de lúbrico histerismo”39, por outro, Sidónio revela ao longo da vida um apego umbilical à sua progenitora. Esta ligação à figura materna acentua-se a partir da morte do pai. Ajuda economicamente a mãe e os irmãos, mantém-se em estreito contacto e assume, desde muito cedo, a figura de chefe de família. A comprovar esta estreita ligação, relatamos o facto de ter feito questão de ir a Caminha

37

Garcia, Fernando – “Sidónio Pais. Um ensaio de psicologia política”. 1.ª Edição. Setúbal: Edição da Associação Setubalense de Caridade, 1921. 38

Martins, Rocha – Sidónio Pais, Ídolo e Mártir da República. 1.ª Edição. Lisboa: Bonecos Rebeldes, 2008, p. 20. 39

Albuquerque, António de – ob. Cit., p.15.

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visitar a mãe, na célebre visita ao Porto, ocorrida algum tempo depois do desfecho vitorioso do Parque Eduardo VII. Ao entrar na casa materna, Sidónio procurou-a no meio das vizinhas e amigos da família: “ele já se encostava ao peito da velhinha, da mãe, que o beijava enternecidamente, diante de todos”40 (…). Ao despedir-se dela, comovido, ajoelhou-se e beijou-lhe a mão. Este episódio revela um Sidónio Pais não só amigo e próximo das suas gentes, mas mostra também a imagem de um filho afectuoso, para quem a presença materna era um bastião e um porto seguro. Aliás, convém também referir que Sidónio Pais revela, em alguns passos da sua vida, um grande apego aos seus filhos. No clímax da revolta, no Parque Eduardo VII, cruzou-se com o filho mais velho, Sidónio Bessa Pais. Este apresentava sinais de doença e estado febril. O pai, Sidónio, não hesitou em abraçá-lo e perguntar-lhe, com carinho paterno, se estava melhor de saúde41. A relação de Sidónio com este filho é constante ao longo da sua vida, como se irá verificar. Numa outra reunião da conjura, em que se preparava meticulosamente o golpe revolucionário, no quarto do Hotel Borges em Lisboa, um dos marinheiros que aí se encontrava, reticente em aderir ao movimento, pede a Sidónio Pais a garantia de que se algo lhe acontecesse, a sua mãe não ficaria desprotegida. Instintivamente, e quiçá levado pelas emoções e pelo facto de ter também ele a mãe a seu cargo, acaba não só por se emocionar, como contagia este sentimento a todos os que se encontravam na sala; Sidónio “conseguia emocionar-se e emocionar os que o rodeavam”.42 A imagem de galã e conquistador ávido do sexo oposto está ligada, muito provavelmente, a uma fase particular da sua vida privada: o desmoronar do seu casamento e a relação extra-conjugal com Ema Manso Preto. Sidónio Pais contraiu matrimónio em 1895 com Maria dos Prazeres Martins Bessa. O então jovem de 24 anos, a cumprir serviço militar no 2.º grupo do Regimento de Artilharia N.º 4, em Amarante, une-se pelos laços do matrimónio (com escritura de separação de bens), com a filha de Vitorino Ferreira Bessa, então falecido, e de Bernardina Augusta Martins Bessa. Dessa união, e já com residência em Coimbra, nasceram cinco filhos: Sidónio Bessa Pais (1896), já referido, António Bessa Pais (1897), Maria Sidónia Bessa Pais (1899), Afonso

40

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 134.

41

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 27.

42

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 22.

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Bessa Pais (1901) e no ano seguinte, o último filho do casal, de nome Pedro Bessa Pais.

Maria dos Prazeres Martins Bessa com os seus cinco filhos, nascidos do seu casamento com Sidónio Pais. In Fotobiografias Século XX (Direcção de Joaquim Vieira), p. 37

Nos anos que se seguiram ao nascimento de Pedro, Sidónio conhece em 1905, na cidade da Figueira da Foz43, aquele que viria a ser um dos grandes amores da sua vida, Ema Manso Preto, de quem virá a ter uma filha em 1907. Maria Olga Manso Preto é reconhecida como filha de Sidónio em Dezembro de 1919, por sentença proferida pelo Juiz de Direito da 6.ª vara Cível de Lisboa. Este envolvimento não foi vivido secretamente. Sidónio e Ema chegam mesmo a morar juntos em Coimbra, e depois em Lisboa! O atrevimento do casal, e particularmente de Sidónio, indo contra todas as conveniências sociais da época, com a agravante de se tratar de pessoas oriundas de famílias respeitáveis, revela uma outra faceta de Sidónio, precisamente o de sedutor, conquistador, que não tem pejo em cobiçar a mulher alheia. O próprio Sidónio não fazia questão de se desprender desta imagem, chegando até a cultivá-la; sobre isto, diria o próprio, uns anos mais tarde: “ (…) aos 10 anos comecei a

43

Ramalho, Miguel – Sidónio Pais: De Berlim ao Parque Eduardo VII. Lisboa: dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa, 1995.

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namorar”44. A sua fama de “pinga-amor”, quiçá exagerada e caricaturada pelos seus adversários, atingiu um clímax tal, que passou a ser voz corrente, entre a Academia de Coimbra a ideia de que “tudo se pode confiar a Sidónio Pais, menos a mulher!”45. A imagem pública que nos deixou foi, sem dúvida, a de um homem esbelto, brioso, de olhar franco, incisivo e leal, plebeu de porte, ao mesmo tempo patrício e castrense, que presidia com natural e varonil donaire às festividades que se multiplicavam, desde festas dadas a crianças no Parque da Pena, creches e banquetes, sopas populares dadas aos indigentes ou galas taurinas no Campo Pequeno, em Lisboa. Da mesma maneira que se movia na Capital, fez questão de levar toda esta energia ao resto país, através de visitas constantes e sempre apoteóticas. Ficaram célebres os seus discursos nas praças públicas do Porto, Viana do Castelo, Guimarães, Braga, Barreiro, Elvas, Beja, etc. Todo este aparato contribuiu de forma significativa e decisiva para a construção da imagem de um ser apoteótico, de um autêntico Messias, Salvador da Pátria, num início de século que se revelava pleno de indefinições para um Portugal, em profunda mutação política e social e calcado por uma Europa ávida de novas conquistas e plena de tensões geográficas, políticas e económicas. Até ter subido ao poder, Sidónio não mais andara fardado. Aliás as suas anteriores actividades – lente em Coimbra, membro do Governo de João Chagas, em 1911 e, um ano depois, ministro plenipotenciário de Portugal em Berlim – não se coadunavam com o uso de qualquer símbolo militar. Os quatro anos que Sidónio passou na Alemanha foram muito importantes e decisivos na formação final do seu carácter e refinamento das suas ideias políticas, aspectos que se concretizaram mais tarde, com a sua ascensão ao poder, depois de 5 de Dezembro de 1917. À chegada a Portugal, vindo de Berlim, os unionistas tinham-no recebido com o “carinho orgulhoso votado a um correligionário, lente universitário (…) sem os alucinados modos dos sábios, oficial que já esquecera o uniforme mas guardara no porte, na esbelteza, na andada, alguma coisa de militar”46 . Por norma, na fase que antecedeu a revolução, Sidónio apresentava-se “vestido de preto, de luvas na mão, muito correcto,

44

Silva, Armando Barreiros Malheiro da – Sidónio e o Sidonismo. História e Mito. Braga: Universidade do Minho, 1997, 2 vols. 45

Albuquerque, António de – ob. Cit., p. 30.

46

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 8.

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fumando com volúpia o seu “Baunilha” ou o “Antonino”, mais barato, porque os ordenados não lhe chegavam para queimar sempre o cigarro predilecto”47 . Estas afirmações merecem-nos reflexão e são reveladoras do seu carácter pessoal. Mostram um Sidónio, na forma de vestir, ajustado aos padrões da moda além Pirenéus, onde se destacava, também, um bigodinho à “kaiser”, coroado por um penteado coquete. A sua figura briosa completava-se com a volúpia com que fumava os já citados Baunilhas ou Antoninos. Estamos perante um homem de gostos finos e caros, aliás quando chegou a Berlim instalou-se no Adlon, o hotel mais luxuoso e prestigiado da capital germânica, até se mudar para a Hohenzolern Strass, no Tiergarten, junto do Reichstag. Na Alemanha não se deixou apenas influenciar pelo modo de vestir ou por outros aspectos meramente formais; é notório que aproveitou a sua estada nesse país para fazer uma aprendizagem de uma carreira diplomática e política, procurando compreender e penetrar nos bastidores da política e da imprensa germânicas. Fê-lo de uma forma assertiva e inteligente, principalmente nas relações que desde cedo estabeleceu com a imprensa local48. Para se dar a conhecer, o representante de Portugal em Berlim, começou por conceder entrevistas aos diversos jornais. Depressa se apercebeu que a imprensa alemã tinha uma opinião pouco abonatória relativamente a Portugal. Através da sua postura e atitude, levou os jornalistas a descrevê-lo com simpatia e admiração: “o seu corpo é esbelto e delgado e as suas feições pálidas e delicadas; mas animam-nas dois olhos onde brilha a inteligência, e o seu nariz aquilino denuncia naquela figura etérea uma grande força de vontade”49. O esforço desenvolvido por Sidónio Pais foi todo no sentido de fazer crer, através da imprensa, que o novo regime político português, a República, era o melhor para Portugal e que as campanhas anti-republicanas, feitas por determinadas fontes internas, não passavam de arrebatamentos ideológicos que não correspondiam aos anseios do povo português. Obviamente que se impõe

47

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 9.

48

Destacam-se o National Zeitung (órgão nacionalista e liberal), o Berliner Lokal Anzeiger (primeiro órgão oficioso da Chancelaria alemã; praticava um jornalismo tido por imparcial) e o Berliner Tageblatt (o representante de maior importância do radicalismo liberal e de maior circulação)

49

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 33. Entrevista dada por Sidónio ao National Zeitung a 17 de Dezembro de 1912.

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uma questão: este aparente “à vontade” de Sidónio perante a Imprensa, teria algo a ver com a sua personalidade de traços narcísicos? Parece-nos claro que é uma leitura abusiva, pois Sidónio não se limitava a dar “entrevistas”, e destas não há registos de que fossem fúteis ou sem interesse ou meramente baseados na sua pessoa. A este respeito é importante verificar que Sidónio esteve sempre muito atento ao que era publicado na imprensa germânica acerca da sociedade portuguesa, disso mantendo informado o seu governo50. Sidónio Pais revelou (quiçá inesperadamente) uma apetência natural para a diplomacia, procurando compreender e penetrar nos bastidores das mais altas instâncias das representações alemãs e de outras nacionalidades. Em Janeiro de 1913 é convidado, pela primeira vez, a participar num jantar diplomático na Chancelaria Imperial. Aproveitou bem este primeiro contacto, pois passou a fazer parte do círculo restrito da chancelaria e diplomacia alemãs. Se dúvidas houvesse, basta ver a festa de gala que ofereceu em nome do governo português, nos Salões do Hotel Esplanade, a 170 pessoas, entre as quais o corpo diplomático acreditado em Berlim e muitas personalidades importantes do Departamento Imperial dos Negócios Estrangeiros, da Corte e da melhor sociedade da capital alemã51. Uns dias depois da festa, que foi amplamente divulgada na imprensa, enviou para o seu ministro52 em Lisboa, toda a informação relativa ao evento e uma lista onde se encontravam algumas das individualidades presentes53. É um gesto que pode ser interpretado de uma de duas formas: pura jactância e auto-promoção ou uma prova de que os seus esforços diplomáticos estavam a dar bons resultados; fica a dúvida… seja como for, aparentemente estava a cumprir bem o seu papel! O sucesso que a seu respeito se ia publicitando acabaria por lhe valer inimizades, nomeadamente em Portugal. Numa entrevista dada por Teófilo Braga a vários jornais portugueses no estrangeiro, este literalmente goza com um convite que supostamente não tinha sido endereçado a Sidónio54: “e vão pela mesma o Sidónio das Matemáticas, que fez lá questão com o Imperador Gui-

50

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 36.

51

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 46.

52

O Ministro dos Negócios Estrangeiros era Bernardino Machado.

53

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 46.

54

Sidónio Pais reagiu a esta “provocação” com violência, exigindo do gabinete do Ministério dos Negócios Estrangeiros um desmentido público.

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lherme por causa do jantar que não comeu”55. De notar, todavia, que esta crítica à figura de Sidónio Pais não é isolada, mas feita num contexto de entrevistas concedidas por Teófilo Braga em Março e Abril de 1913, a diversos jornais, designadamente ao Século e ao Dia, sendo as opiniões expendidas muito desfavoráveis para com todos os representantes de Portugal no estrangeiro. Teófilo chega ao extremo de defender a abolição do corpo diplomático português. Ao que se sabe, Sidónio Pais, enquanto em Berlim, procurou sempre cativar a simpatia dos cônsules e dos funcionários da legação, mantendo com estes óptimas relações de trabalho, sobretudo estreitou relações de amizade com o Conselheiro da Embaixada, Costa Cabral56, seu antigo companheiro no Seminário em Coimbra. Um dos traços que também marca a esfera privada da vida de Sidónio Pais é a importância que os amigos assumem na sua existência. Na verdade, em todas as circunstâncias da sua existência, a presença de pessoas amigas será uma constante, aspecto este que não deixará de ser particularmente visível no seu funeral. Com a experiência da Alemanha, Sidónio Pais assume-se como um verdadeiro representante da diplomacia, com todas as implicações daí resultantes. No entanto, no Dezembrismo, no próprio dia 5 de Dezembro de 1917, deu-se a conhecer à turba que o apoiava vestido com uma farda de oficial do exército que o seu filho mais velho, também ele oficial do exército, lhe emprestou. Na tarde da revolta, quando se fardava, foi notório para os que o rodeavam, no quarto do Alferes Marques, de Cavalaria 7, na Rua de Gomes Freire, em Lisboa, o prazer com que Sidónio apertava o uniforme, com brio, orgulho e aparato. No fim ter-se-á virado e dito simplesmente “vamos!”57. A imagem que então transparece é a de um militar de carreira e não a do diplomata de uns anos antes. Já no poder, não hesitou em criar, por decreto, uma farda própria para o Presidente da República, com seis estrelas de ouro apostas nos punhos. Esta imagem nunca mais o abandonou, sendo até de inferir, que muito provavelmente, mesmo na vida privada, optasse por continuar a sua encenação, confundindo os dois planos da sua existência. Não se

55

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 49.

56

António Dias e Sousa da Costa Cabral, neto do famoso ministro de D. Maria II, Costa Cabral. Fez uma carreira diplomática de mérito e com alguma relevância.

57

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 24.

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limitava porém a usar a farda, completava a encenação, montando num cavalo preto, onde depois de desmontar, ensaiava gestos e pequenos tiques, como o retirar da capa que o cobria, de uma forma teatral, decerto previamente encenada. A sua imagem pública é de tal modo pensada e racionalizada que todos os gestos convergem para o mesmo fim, inerte em si mesmo: a promoção da imagem messiânica de Sidónio e do seu regime. Neste desiderato se inserem as aparições públicas, beijando crianças e envolvendo-se na multidão, tudo como se de uma cena bíblica se tratasse; provavelmente, no seu íntimo, assim pensaria. Este comportamento foi também visível em alguns episódios da sua vida privada. Como se relacionava com os que o rodeavam no seu círculo mais próximo de amizades, fazendo prevalecer a sua vontade? Segundo Rocha Martins “ com a sua doce persuasão delicada, que ocultava uma teima de aço, o chefe do movimento captava todas as simpatias”58! Veja-se, a título de exemplo, quando, após a refrega militar no Parque Eduardo VII, se recolhe ao Gabinete da Artilharia 1, com o intuito de decidir do destino do Presidente deposto, Bernardino Machado. Sidónio, certamente esfomeado, tal como os que o rodeavam, não só não o demonstra, como na presença de uns míseros croquetes e um pouco de carne a acompanhar com pão, se limita a balbuciar “Mas isto é um banquete…”59 A alteração das relações com a Igreja pauta o seu mandato. Afastando-se definitivamente da linha anti-clerical de Afonso Costa, Sidónio Pais revela aparentemente as inquietudes de um homem que tenta reconciliar-se com Deus e salvar, através do retomar do catolicismo, uma nação que num par de anos se afastara oficialmente da religião católica-romana, demasiado colada ao regime monárquico, derrubado em 1910. Logo no princípio da sua governação, Sidónio dá indicação para que sejam efectuadas diligências oficiais e diplomáticas junto da Cúria Romana. São disso prova as acções desenvolvidas por Egas Moniz, embaixador à época em Madrid, as quais resultariam na vinda a Lisboa do núncio apostólico, Monsenhor Rasonesi. As relações com a Santa Sé viriam a ser retomadas logo em Junho de 1918, sendo então nomeado Monsenhor Locatelli como representante do Vaticano em Portugal, em Agosto desse ano. Depois daquele passo, ficaram abertas as portas da Igreja para Sidónio. Ele foi, desde a queda da realeza, o primeiro chefe de

58

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 15.

59

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 72.

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estado republicano a participar em cerimónias religiosas. De todos os eventos, destaca-se o ocorrido na Sé de Lisboa, em 1918, em memória dos portugueses falecidos durante a Grande Guerra, pouco antes de ser eleito como presidente. Uma “viragem” que permitiu a Sidónio cortar “ rente com o jacobismo sectário e maçonizante dos líderes que o tinham precedido (…) Esta política de reconciliação com a Igreja traria ao Sidonismo os benefícios políticos e sociais esperados, mas seria também um valioso elemento basilar no reforço do mito pessoal do próprio líder, tomado doravante como um apaziguador da família lusitana”60. A partir da experiência colhida com a estadia na Alemanha, Sidónio julgou ver, para si e para a sua governação, vantagens políticas e sociais numa união com a religião com mais apoio popular, entendimento esse baseado na observação que fizera do que se passava no Reich, onde a religião oficial era considerada um dos pilares de manutenção do regime desse país. A saúde de Sidónio Pais é outro dos temas que tem levantado dúvidas e controvérsia. Um atestado médico, passado após o seu regresso a Portugal, em 1916, dá conta de um homem “em estado de depressão física, com sopro anémico cardíaco, palidez de tegumentos e dispneia para esforços”61. O seu estado é de tal forma debilitante que junta a este documento um pedido de licença para permanecer mais uns dias em Nice, onde tinha consultado o médico F. Gayraud. Antes de chegar a essa cidade francesa, pernoitou em Paris na casa de João Chagas. Este descreveu-o da seguinte forma: “(…) Três anos de diplomacia não o engordaram sequer. Vem magro como um cão (…) não sei porquê, ao ver-me, os seus olhos marejaram-se de lágrimas (…)”62. Este testemunho deve sempre ser visto com reserva, já que João Chagas não tinha qualquer simpatia por Sidónio, apelidando-o de “pobre Sidónio” e de “personagem insignificante de fala trôpega”. No mesmo texto63 transmite-nos a imagem de um Sidónio sem o mínimo sentido de responsabilidade de Estado, ao contar-nos que o Ministro Plenipotenciário de Portugal em Berlim não deu a devida importância ao acto formal da entrega da Declaração de

60

Medina, João – ob. Cit. p. 23.

61

Ramalho, Nunes Miguel – ob. Cit., p. 151.

62

Chagas, João – Diário. 1.ª Edição. Lisboa: Livraria Editora, 1930, Vol. III, p. 222, 223.

63

Idem, Ibidem, p. 223.

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Guerra, feito junto da sua pessoa pelo funcionário da Chancelaria Imperial, às 9 da manhã do dia 8 de Março de 1916. Trata-se de uma apreciação e nisto haverá sempre subjectividade, mas a fazer fé nas palavras de João Chagas, estaríamos em presença de uma propalada incapacidade de Sidónio Pais de percepcionar correctamente a realidade, insuficiência essa que, presuntivamente, advinha de perturbações do foro neurológico de que sofreria, sobretudo quando em situações de stress físico e mental. Uma dessas situações ocorreu enquanto aguardava o desenrolar dos acontecimentos, perto dos seus apoiantes, no Parque Eduardo VII. Nesse fim de dia “roía pedaços de chocolate, de que se provera e quedava-se encostado ao reparo de uma peça de artilharia e fumava sempre”64. Por alguns momentos foi persuadido a descansar. Sob efeito da nicotina e do cacau (ambas as substâncias possuem componentes químicos excitantes) foi acometido de um ataque de sonambulismo repentino. A sua figura magra agitou-se e num salto brusco, com a sua voz inquieta e nasalada grita: “Vêm atacar-nos! Fogo! Soldados…” (…) Atónitos, os que o acompanhavam, ficam sem reacção, com a excepção de um aluno da Escola de Guerra, que alvoraçado, responde: “Ai que o nosso comandante endoideceu! Está louco!”65. Entre o espanto de todos e o susto, Feliciano da Costa, amigo de todas as horas, respondeu com um murro ao jovem soldado. O que é impressionante neste relato de acontecimentos, é que Sidónio rapidamente se recompôs, e exclamou:” Foi um pesadelo, mas é decerto um aviso!”66. Um outro relato, passado com Sidónio Pais e Augusto de Castro67, revela-se concordante com o débil estado de saúde em que se encontrava poucos meses antes de ser assassinado. O episódio descrito na primeira pessoa, dá-nos conta de um homem profundamente agastado e desiludido, e com ataques de fúria que rapidamente davam lugar a estados de calma. A acção descrita passa-se no Palácio da Pena, onde Sidónio costumava estar com frequência:

64

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 52.

65

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 52.

66

Martins, Rocha – ob. Cit. p. 52.

67

Augusto de Castro Corte Real (Porto, 1883-1971), foi escritor, jornalista e diplomata português, formado em Direito pela Universidade de Coimbra. Teve um percurso político notável, ocupando vários cargos de responsabilidade.

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“Decorreram alguns minutos. Sidónio impacientou-se. Nervosamente, chamou de novo e, quando o oficial voltou: – Então esse dossier?... – O interpelado respondeu, timidamente, que se procurava, que ainda não fora encontrado. Sidónio ergueu-se como que impelido por uma mola, e elevou a voz, sem esconder a cólera. – É sempre isto. Não encontram? Vou lá eu. Encontro logo. – E, de facto, quase a seguir regressou com um processo pouco volumoso (…) que abriu febrilmente. E, mais calmo, disse-me logo: – Peço-lhe desculpa deste pequeno movimento de irritação. Sou assim, calmo, sem um estremecimento, posso dizer impassível, nas grandes ocasiões, mas facilmente agastado e impaciente quando não vale a pena.”68

Neste encontro, Sidónio demonstra nervosismo e plena consciência de que a sua vida corria perigo e, na sua descrição, Augusto de Castro não deixou de acrescentar: “Precipitaram-se os acontecimentos. Duas ou três semanas depois, Sidónio caía, na estação do Rossio, varado pelas balas de um assassino”69. Este relato é impressionante e Augusto de Castro expressa-o de uma forma particularmente sentida, ao acrescentar: “Na verdade, nessa tempestuosa e singular entrevista de Sintra eu tivera a antevisão da tragédia que já tocara a fronte desse Homem, portador e arauto duma ideia e duma juventude – e que o Destino traíra e a morte ia vencer” 70. Pouco menos de um ano de governação e Sidónio mostrava já sinais de inquietude… ou, visto sob um outro prisma, Sidónio era na esfera privada um ser humano frágil e doente, contrariamente à propaganda que diariamente o promovia junto daqueles que o haviam elegido. Ao analisarmos passo a passo os relatos e descrições, notamos, contudo, que há traços que se mantêm: a figura bem tratada, esbelta, o pormenor das mãos e do olhar…a forma autoritária como se movimenta no salão, para logo no momento seguinte se mostrar agastado, desiludido com uma nação inteira que o tinha apoiado, mas que agora se recusava a lutar por aquilo que ele achava ser o melhor para os destinos do país. A rotina diária do Presidente Sidónio Pais encontra-se bem documentada. O dia começava, por volta das oito horas da manhã, com o barbeiro Franco, do Hotel Avenida Palace. Ficou documentada a sua preferência em tomar o

68

Castro, Augusto de – Homens e Sombras. Lisboa: ENP, 1958, p. 121-126.

69

Castro, Augusto de – ob. Cit., p. 126.

70

Castro, Augusto de – ob. Cit., p. 126.

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café da manhã, normalmente de forma apressada e em pé. Só depois de receber os secretários de Estado, comia sentado à mesa, desta vez uma refeição mais substancial. Enquanto presidente, vivia num ambiente modesto, mas com um certo cerimonial, fazendo questão de trabalhar, sentado à secretária, com a capa de militar caída sobre os ombros e um cobertor a tapar-lhe as pernas. Nunca se deitava cedo; só por volta das 03h da manhã se recolhia ao seu quarto de dormir, não sem antes beber um copo de leite. Nesta fase da vida apontam-lhe, como principal vício, o fumo, cerca de quatro maços de cigarros por dia, da marca “baunilhas”. No testemunho já citado da Revista de História71, é afirmado o seu gosto pelo jogo, principalmente jogos de azar. Quanto a este último pormenor não encontrámos provas cabais de que seria viciado no jogo.

Cais do Sodré – funeral de Sidónio Pais. In “ Memórias de Lisboa”[em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://www.google.pt/images?hl=ptPT& source=imghp&biw=1149&bih=572&q=Sid%C3%B3nio+Pais&btnG=Procur ar+imagens&gbv=2&aq=f&aqi=&aql=&oq=&gs_rfai

O seu carisma era tão intenso, que se prolongou para além da própria vida. Nos tempos que se seguiram à sua morte, palavras e expressões, como o “Grande Morto” e o “mártir” voaram para textos e panfletos, contribuindo

71

A.A.C.F. – ob. Cit., p. 70.

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de forma decisiva para o transformar numa espécie de «santo», protector dos mais desfavorecidos. As pompas de que o seu funeral se rodeou foram aspecto ilustrativo da fascinação que a sua figura causava: as imagens do acontecimento tomaram proporções míticas e lendárias, causando fundas impressões no imaginário português e deixando recordações que o tempo rápido das realidades quotidianas demorou a apagar.

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Canto e Castro (Museu da Presidência da República)

Canto e Castro Mestre em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX (CEIS-20) da Universidade de Coimbra.

N

o dia 19 de Maio de 1862, nasceu, em Lisboa, uma das figuras mais controversas da história da nossa Primeira República. De seu nome João do Canto e Castro da Silva Antunes, era filho do general de brigada José Ricardo da Costa Silva Antunes e de sua esposa, D. Maria da Conceição Canto e Castro Mascarenhas Valdez. O apelido Canto e Castro tem origem nos Açores, no casamento ocorrido, em 1544, entre António Pires do Canto1, Provedor das Armadas e Naus da Índia, na Ilha Terceira, e uma filha do Primeiro Capitão e Governador de Santa Cruz do Cabo de Gué (actual Agadir, em Marrocos), D. Francisco de Castro. A influência espanhola em Portugal, durante a Dinastia Filipina, estabeleceu o uso do apelido materno em último lugar. Dessa forma, surgiu o apelido composto (embora não consagrado pelas regras onomásticas, uma vez que os dois apelidos se encontraram ou justapuseram por vias de casamento) Canto e Castro, que se manteve até à actualidade2. Os avós paternos de João do Canto e Castro (João António da Costa Silva Antunes e Maria do Carmo Ferreira) eram naturais de Lisboa. O seu avô materno – Francisco José do Canto e Castro Mascarenhas, natural da freguesia da Ameixoeira, em Lisboa – casou em 1818, no Rio de Janeiro, com uma aia da rainha D. Maria I, de seu nome Carlota Joaquina Mascarenhas de Mancelos Valdez. Os Mancelos eram uma família afidalgada da vila de Pombal3. 1

Descendente da família inglesa de apelido Kant, que, em tempos recuados, se instalou na Galiza. 2

Cf. Forjaz, Jorge Pamplona – O Solar de Nossa Senhora dos Remédios (Canto e Castro). Angra do Heroísmo: Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1996, pp. 13-14. Ver também Martins, Francisco Rocha – Memórias Sobre Sidónio Pais. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, Limitada, 1921, pp. 215-216. 3

Ver Geneall [em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://www.geneall.net/P/per_ page.php?id=193126.

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O pai de Canto e Castro, general de Brigada José Ricardo da Costa Silva Antunes. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 7.

Meio plebeu, meio aristocrata, João do Canto e Castro, desde tenra idade, mostrou uma forte inclinação para as coisas do mar: as suas brincadeiras sempre incluíam barcos e quando lhe dirigiam a trivial pergunta sobre o que queria ser quando fosse grande, sistematicamente respondia que haveria de ser marinheiro e navegar pelos sete mares. Uma vocação precoce que a idade não apagou, posto que, durante os seus estudos primários e secundários no Colégio Luso-Britânico, onde foi um aluno brilhante, aproveitava todos os seus tempos livres para se entregar à leitura de temas ligados ao mar e à navegação marítima. Neste Colégio, sito ao Príncipe Real, em Lisboa, no edifício do velho Palácio dos Guiões, o aluno Canto e Castro foi condiscípulo de Alfredo Keil, o autor da música de A Portuguesa. Decididamente fadado para a vida do mar, entrou, com 19 anos de idade, para a Real Escola Naval, fazendo aí, de novo com brilhantismo, o curso da Academia de Marinha. Promovido ao posto de guarda-marinha a 11 de Outubro de 1883, andou então embarcado, como oficial de guarnição, primeiro nas corvetas Bartolomeu Dias e Estefânia e, posteriormente, na fragata D. Fernando, no transporte África e nas canhoneiras Tâmega, Liberal e Zaire. Nestas suas andanças, sulcou os mares até Moçambique, Macau e Timor, nisso retemperando os seus comprovados talentos na arte de marear.

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Em 1889, já segundo-tenente, assumiu o comando interino da canhoneira Zaire e, nesse posto, rumou ao Natal, no sudeste africano, para aí apoiar as acções de mapeamento do interior do continente africano empreendidas pelo famoso explorador colonial português, Serpa Pinto4. Foi uma comissão de serviço em que teve de arrostar com tempestades e entradas em portos, para si, desconhecidos como Durban e Lourenço Marques. Em tais circunstâncias foram postos à prova os seus conhecimentos e a sua perícia de marinheiro, sendo de notar que foi sob o seu comando que pela primeira vez um navio português entrou no então difícil porto de Durban, para mais de noite e debaixo de forte temporal. O episódio, lembrando façanhas antigas do velho país de marinheiros, foi muito comentado pelos jornais da época, adquirindo o protagonista da façanha grande popularidade.

O jovem Canto e Castro, na década de 1880. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 7.

Com vinte e nove anos de idade, o então primeiro-tenente Canto e Castro, casou-se em Lisboa com Mariana de Santo António Moreira Freire Correia Manuel Torres D’Aboim, senhora de parentelas aristocráticas e que recebera

4

Alexandre Alberto da Rocha de Serpa Pinto, visconde de Serpa Pinto (1846-1900) militar, explorador e administrador colonial português, natural de de Tendais, concelho de Cinfães.

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uma edução conservadora, fundadamente católica e monárquica, sendo que um dos seus irmãos, Francisco Torres D’ Aboim, foi o primeiro Visconde da Idanha. Dessa união de João do Canto e Castro com Mariana de Santo António nascerão três filhos: Maria da Conceição do Canto e Castro, José do Canto e Castro e Josefina do Canto e Castro. José viria a morrer nos finais da década de vinte, golpe rude que atingiu profundamente a família e muito especialmente o pai, Canto e Castro, que jamais viria a recompor-se dessa enorme perda que foi para si a morte do seu único filho varão.

A esposa de Canto e Castro, Mariana de Santo António. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, pp. 9-10.

Os três filhos do casal Canto e Castro, Maria da Conceição, Josefina e José, juntamente com a ama, em 1900. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p.22.

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Veste com que foram baptizados os filhos de Canto e Castro e que era uma antiga herança de família. In Alípio, Elza Santos; Martins, Suzana – As Primeiras Damas da República Portuguesa. Lisboa, M.P.R., p. 58.

Em 1892, aproximadamente um ano depois do seu casamento, o oficial da Armada foi colocado em Moçambique, como Governador do Distrito de Lourenço Marques. Pouco tempo depois teve a primeira grande manifestação de um mal incurável – angina pectoris – de que sofria e que acabaria por ser, anos mais tarde, a causa da sua morte. Forçado a regressar à Metrópole para se tratar, manteve-se em Lisboa até à sua completa convalescença, em 1893. Preparava-se então para regressar a Lourenço Marques, quando de súbito foi incumbido de uma estranha missão. Tratava-se de acompanhar a bordo do navio São Tomé, um preso ilustre, no caso o influente jornalista e dirigente republicano João Chagas, que seguia deportado para Angola, para ali cumprir parte da pena a que havia sido condenado pela sua participação activa na Revolta do 31 de Janeiro de 1891. Acontecia porém que os dois homens eram velhos amigos, de uma amizade que vinha dos tempos de infância, nos bancos de escola. Nestas circunstâncias, o encontro revestiu-se de algum dramatismo. No seu livro sobre Canto e Castro, em prosa meio romanceada, Maurício de Oliveira conta o seguinte: “Estava uma noite desabrida de chuva e de vento. O «São Tomé», a meio do rio, em frente de Santa Apolónia, mal se divisava por entre os aguaceiros constantes. [...] Quando entrou a bordo da lancha, João Chagas [...] procurou identificar um vulto alto, esguio, que se elevava na sua frente. Fixou melhor, reconheceu-o e, parando, exclamou:

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– O quê? Tu, Canto e Castro! [...] – É verdade, João... Como vês, encarregado de te levar a bordo daquele navio. – Há quantos anos não te via! Tu... – Já lá vai um par de anos! − respondeu Canto e Castro emocionado. João Chagas, olhando a guarda a bordo da lancha, interroga: – Para quê, tanto aparato? Canto e Castro encolheu os ombros e acrescentou: – Ah! A vida … Quantas surpresas ela nos reserva… A lancha afastou-se. Os dois companheiros de infância, sob uma chuva incessante, conversaram com uma afectuosidade que não era forçada. Compreendiam-se. – Canto e Castro explicou ainda: – Convocaram-me, já tarde, ao Ministério e disseram-me que tinha de te acompanhar. Era segredo – recomendaram-me cuidadosamente. E assim, aqui me tens, no desempenho de uma missão ingrata que, só executo porque sou militar. João Chagas mostrava compreensão do transe que a farda criara ao velho amigo. Mas Canto e Castro não resistiu sem dizer mesmo: – Quando soube… Imagina como fiquei! Terrível encargo… Dez minutos depois, a lancha atracava ao «S. Tomé», a escorrer água. Os dois amigos despediram-se com um aperto de mão afectuoso. Daí a pouco, perdido na bruma dos aguaceiros, o «S. Tomé» descia o rio a caminho de Angola”5.

Não se descortinam as razões que presidiram à escolha de Canto e Castro para escoltar João Chagas desde o cais de Santa Apolónia até a bordo do barco que o levava para o exílio, no entanto é de presumir que não se tratou de mera coincidência, não sendo crível que a amizade e o passado comum que ligavam os dois homens fossem, nesse passo, aspectos ignorados por parte de quem tomou a decisão. Mistérios dos meandros políticos cujas origens ou justificações nunca vêm à luz. Seja permitido dizer-se que somente esse passado comum, essa amizade de infância, constituía traço de união entre os dois homens em presença, porque no resto eram assaz grandes as diferenças entre as duas personalidades. Enquanto João Chagas era um aguerrido revolucio-

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Oliveira, Maurício de – O Drama de Canto e Castro. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, 1944, pp. 31-33.

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nário e um consciente partidário da República, Canto e Castro, ao contrário, era um assumido monárquico, se bem que o fosse somente por questões de família e de educação e, conhecendo-se o carácter deste homem, dir-se-ia que também por lealdade para com o regime que servia. Na verdade, em Canto e Castro, o sentido do dever, do empenhamento da palavra e da necessidade imperiosa de honrar os compromissos assumidos e, enfim, a ligação e a lealdade para com os amigos eram princípios muito gravados.

Canto e Castro, à data do seu encontro com João Chagas. In Oliveira, Maurício de – O Drama de Canto e Castro. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, 1944, p. 29.

Mais por essas razões que por motivos de natureza partidária ou frutos de cultivada ideologia, o nosso marinheiro era um adepto da Monarquia, porém, justamente pela sua própria maneira de ser, por esse seu forte sentido de apego a princípios e a instituições, possuía, ao invés de muitos outros monárquicos, um código de honra muito pessoal que lhe impunha uma noção de fidelidade inabalável. Tanto assim que, pouco tempo depois da implantação da República, tentou, face aos acontecimentos e à natureza do regime, adoptar e seguir uma atitude coerente com esses seus valores. Nesse mesmo sentido pensou despir a sua farda de oficial da Marinha Portuguesa e dedicar-se a um negócio de comissões e consignações, chegando, para tanto, a abrir um escritório na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Mas, definitivamente, o homem era

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marinheiro, não era negociante, e a empresa, naturalmente, faliu. Por sorte não havia ainda oficializado o seu projecto de abandono da vida militar e assim, provado à saciedade que este era o único mister que sabia desempenhar com eficiência e, provadamente, também aquele de onde poderia tirar o rendimento necessário à subsistência da sua família e à sua própria, teve que render-se às circunstâncias e permanecer no seu posto de oficial da Armada, instituição agora republicana. Mas, uma vez tomada a decisão de servir a República, mais uma vez o seu código de honra lhe impunha que o fizesse com a maior lealdade e tão eficientemente quanto o seu saber e experiência o permitissem. Era essa a maneira de ser de Canto e Castro, porventura o seu traço mais distinto. E a República, ciente disso, manteve nele toda a confiança, dando-lhe cargos e tarefas que o honraram; cite-se a título de exemplo, o facto de lhe ter sido confiado o comando do cruzador Adamastor6, navio que à data (1913) se encontrava atracado no porto de Macau, tornando-se, por isso, necessário que Canto e Castro ali o fosse buscar. Era uma circunstância que exigia ao experimentado marinheiro uma grande viagem por terra. Partiu de Lisboa por caminho-de-ferro até Paris, onde tomou o famoso Expresso do Oriente, passando pela Alemanha (aí conheceu Sidónio Pais, então ministro de Portugal em Berlim) e pela Rússia, visitando aqui Petrogrado, Moscovo e outras cidades. Depois, a bordo do não menos famoso comboio Transiberiano chegou à China, viajando então para sul até Macau. No regresso, ao comando do seu navio, depois de tocar em Singapura, atravessou o Índico, escalou o Cabo e entrou no Atlântico Sul, rumo ao Rio de Janeiro. Fundeado ao largo da capital do Brasil, recebeu a bordo o Dr. Bernardino Machado, republicano influente que à data era embaixador de Portugal no Rio. Seguidamente, Canto e Castro encetou a etapa derradeira dessa grande viagem, por Cabo Verde e Ilha da Madeira, até Lisboa. Desta imensa jornada por três continentes, o momento mais alto foi

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O cruzador Adamastor foi comprado em 1890 com fundos de uma subscrição pública nacional, sendo esta uma das reacções do ferido orgulho português ao Ultimato Inglês, acontecido nesse ano. Construído em Itália, o navio foi entregue ao Governo Português em 1897. Em 1913 sofreu um acidente nos mares do oriente, acabando por encalhar. Após ser reparado em Hong-Kong, o seu comando foi entregue ao comandante Canto e Castro. Foi uma unidade naval com papel relevante na Revolução de 5 de Outubro de 1910, ficando, por isso e também por acções desenvolvidas durante a I Guerra Mundial, muito ligado à história da nossa Primeira República.

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sem dúvida a estadia no Rio de Janeiro e em Santos – S. Paulo, lugares onde o navio se transformou numa espécie de embaixada de Portugal junto da comunidade portuguesa no Brasil. O interesse político e diplomático dessa estada foi tal que o Governo Português sancionou a permanência do navio em águas brasileiras, durante mais tempo que o inicialmente previsto.

O Adamastor, navio da Armada Portuguesa que Canto e Castro comandou, em 1913. In Oliveira, Maurício de – O Drama de Canto e Castro. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, 1944, p. 37.

Das suas muitas viagens e locais do mundo que visitava, o nosso marinheiro trazia sempre postais, objectos exóticos e jogos e puzzles para os seus filhos, bem assim como jogos de tabuleiro, passatempo muito do agrado do casal Canto e Castro. Grande admirador das culturas e povos orientais, era possuidor de enorme colecção de desenhos chineses, feitos em papel de arroz7. Por força dessas suas andanças pelas sete partidas do mundo, o marinheiro, para além da adquirição de uma vasta e sólida cultura sobre paragens e gentes estranhas, tornou-se poliglota, falando com fluência vários idiomas – inglês, francês, espanhol, italiano, alemão – e arranhando um pouco a língua japonesa. De acordo com a descrição que dele faz Maurício de Oliveira, era um homem elegante no trato e nas maneiras, de olhar penetrante e comedido nas palavras8.

7

Cf. Casaleiro, Óscar Enrech – João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, p. 13. 8

Oliveira, Maurício de – O Drama de Canto e Castro…, p. 15.

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Tabuleiro de Gamão do século XIX em madeira e marfim, da colecção particular dos Canto e Castro. In Alípio, Elza Santos; Martins, Suzana – As Primeiras Damas da República Portuguesa. Lisboa, M.P.R., p. 56

Puzzle geográfico trazido de uma das suas viagens e oferecido aos filhos. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 14

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Mas a grande aventura da vida de Canto e Castro foi de outra natureza. Homem sem ambições políticas, parecia que uma qualquer predestinação teimava em o empurrar para essa área. Assim é que em 1908, por força de relações de amizade que mantinha com o Almirante Ferreira do Amaral e a instâncias deste, foi deputado, justamente durante a vigência do último Parlamento da Monarquia Constitucional. Mais tarde, nos finais de 1918, viu-se compelido a aceitar o cargo de Secretário de Estado da Marinha. Deve assinalar-se que começou por recusar terminantemente, com o argumento de perfilhar ideais monárquicos, facto que, a seu ver, seria incompatível com o exercício do poder no seio de uma república. Face, porém, à eventualidade da transformação e subalternização da Secretaria de Estado da Marinha numa Direcção Geral da Secretaria de Estado da Guerra e sensível aos rogos dos seus camaradas de armas para que tal não permitisse, acabou por aceitar. A este respeito relatava um jornal da época: “[...] tendo o capitão-de-fragata, Sr. José Carlos da Maia insistido pela sua exoneração do cargo de Secretário de Estado da Marinha, foi-lhe esta aceite pelo Chefe de Estado, tendo sido convidado para o substituir naquele alto cargo o contra-almirante Sr. Canto e Castro, que depois de muitíssimo instado terminou por o aceitar. Este oficial tem desempenhado na Armada importantes e honrosas comissões de serviço, sendo sempre ouvido em todos os assuntos da mais alta importância para a Marinha, por ser profundamente conhecedor de tudo o que se relaciona com ela”9. Depois, nos dias confusos que se seguiram à morte de Sidónio Pais, Canto e Castro foi eleito pelos seus pares, primeiramente Chefe de Governo e depois Presidente da República. Veja-se um testemunho da época: “ […] o gabinete decidira, por unanimidade, dar a presidência ao mais graduado e ao mais velho dos seus membros: era o almirante Canto e Castro, um velho seco, glabro, de pele em engelhas, amarfinado, de nariz saliente, bem penteado o cabelo branco”[…] nunca fora um republicano e o destino entregava-lhe a República”10. Podendo recusar, Canto e Castro não o fez porque, após as muitas solicitações, declarações e sinais de apoio recebidos, se consciencializou de que

9 10

O Século de 8 de Setembro de 1918, p. 1 (grafia actualizada).

Martins, Francisco Rocha – Memórias Sobre Sidónio Pais. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, 1921.p. 311 (grafia actualizada).

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no contexto nacional que se vivia, caracterizado por uma desesperada situação social, por extrema conflitualidade política e militar e com o espectro da guerra civil a desenhar-se próximo, a sua figura, guindada ao mais alto cargo da Nação, seria, no exercício dessas funções, a menos contestada, podendo mesmo vir a ser o elemento polarizador dos consensos necessários para se evitarem tragédias que se perfilavam no horizonte. Mais uma vez o sentido do dever se sobrepunha às suas convicções ideológicas e assim se chegava à situação, no mínimo abstrusa e inconsequente, de um Chefe de Estado de uma República ser um confesso monárquico. Curiosamente, essa condição emprestava alguma solidez à posição do Presidente Canto e Castro. É que os militares monárquicos, detentores dos comandos das guarnições e organizados nas chamadas Juntas Militares – senhores das armas – sabendo das simpatias pro-monárquicas do novo Presidente, tendiam a vê-lo como um dos seus. Pelas mesmas razões, a minoria monárquica no Parlamento votou favoravelmente a sua eleição, embora esses votos não fossem indispensáveis. Esqueceram-se os monárquicos que ele iria, no seu acto de posse, jurar a Constituição Republicana de 1911 (então reposta em vigor pelas duas câmaras do Parlamento) e esse erro foi-lhes fatal. Tendo assim empenhado a sua honra no juramento feito, já nada desviaria Canto e Castro desse caminho. Doravante assumiria a responsabilidade de salvar a República dos ataques dos seus arqui-inimigos, os monárquicos e, nesse caso, e num plano puramente teórico, de si próprio. Difícil é imaginar situação mais bizarra. Em obediência aos propósitos centrais deste livro, não nos iremos demorar em descrições ou considerações sobre o que foi o percurso político de Canto e Castro, mas no caso concreto da sua actuação como Presidente da República é necessário dizer que a mesma determinou a sua vida privada. Prisioneiro da palavra dada, encetou a defesa dos interesses e valores da República, incorrendo assim no desagrado e na incompreensão de familiares e amigos, os quais, em manifesto sinal de protesto e discordância, se afastaram, deixando de frequentar a sua casa. Na sua roda de amizades estiveram, entre outros, o poeta Afonso Lopes Vieira, o pianista e compositor Viana da Motta, o arquitecto Raul Lino e o pintor Veloso Salgado; nomes que ainda hoje são referências no campo das artes e da literatura. Por aqui se pode inferir quanto era elevado e concorrido o ambiente cultural da residência dos Canto e Castro, todavia, tudo isso se perdeu ou esbateu com a estada e actuação do Almirante na Presidência da República. Além do mais, durante todo o tempo do seu

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mandato viveu separado da família, com a esposa e os filhos a residirem na sua casa do Largo do Andaluz e ele, Canto e Castro, no Palácio de Belém, totalmente entregue às exigências do seu cargo e intensamente apostado na pacificação da sociedade portuguesa. Nesse contexto apenas uma nota familiar – o facto de o seu ajudante de campo, o 1º Tenente Nobre da Veiga ser também seu genro, casado com a filha mais velha, Maria da Conceição. Somente quando adoeceu em Maio de 1919, preso de novo ataque de angina de peito, que o obrigou a retirar-se para a cidadela de Cascais (a conselho de dois médicos da Armada) Canto e Castro permitiu nesse lugar a presença da esposa e das filhas; ainda assim, por breve tempo. Em todo o seu mandato, apenas por duas vezes foi acompanhado pela esposa, Mariana do Canto e Castro, em actos oficiais: na recepção feita ao Presidente eleito do Brasil, Epitácio Pessoa e nas Comemorações da vitória dos aliados na Primeira Guerra Mundial, respectivamente em Junho e Julho de 1919. Como apontamento curioso, que nos deixa entrever um pouco as cores e os hábitos e preferências do tempo, fica nota da excelência da ementa do jantar oferecido pelo casal Canto e Castro ao Presidente Epitácio Pessoa e respectiva comitiva: – Consomé Britanier – Bauche de la Financière – Poisson du jour, sauce Hollandaise – Filets de boeuf à Monte-Carlo – Mousse de foie-gras – Dinde a la broche, sauce Perigard – Asperges vertes, sauce riches – Dessert – Vins: Madeira, Porto, Champagne, Colares e Serradayres – café, liqueurs11

Para além de outros possíveis comentários à magnificência do repasto, o que imediatamente salta à vista é a forte influência francesa contida na elaboração do cardápio, sinal de que a França continuava a marcar a cultura europeia, mesmo depois das transformações socioculturais trazidas pelo turbilhão que havia sido a Grande Guerra. Depois desse opíparo jantar, os convidados

11

Ver jornal A Época de 9/6/1919, p. 1.

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brasileiros foram presenteados pela Presidência da República Portuguesa com um concerto de gala em S. Carlos. No camarote presidencial, ao lado do Presidente Canto e Castro e esposa, o Presidente eleito do Brasil e sua esposa, Maria da Conceição, assistiram à abertura da ópera O Guarani, executada pela Orquestra Sinfónica de Lisboa sob a regência do Maestro Viana da Mota, seguindo-se, por outros intérpretes, trechos de música de Chopin, de Massenet e de Liszt.

Binóculos de Ópera em prata e madrepérola, da colecção particular dos Canto e Castro. In Alípio, Elza Santos; Martins, Suzana – As Primeiras Damas da República Portuguesa. Lisboa, M.P.R., p. 58

Retomando o tema do elevado espírito de missão em Canto e Castro, há que dizer que esse foi um aspecto que conquistou definitivamente as simpatias dos republicanos de todos os quadrantes. Houve, como sempre há, algumas vozes discordantes. Neste particular, Canto e Castro será apelidado de presidente usurpador pelo seu amigo de infância, João Chagas, pessoa que a tal propósito produziu a afirmação seguinte: “[...] a República encontra-se com dois presidentes – um de direito, o de Paris, outro de facto, o de Lisboa”12. Outros ainda teriam o monárquico que se tornara Presidente da República na conta de um «fantasma de Presidente» e pilheriando com o seu

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Cf. Chagas, João – O Diário, IV – 1918/1921. Lisboa: Edições Rolim, s/d, p. 256.

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patronímico, chamar-lhe-iam, por troça, o senhor «Antunes da Silva»13. Mas a grande maioria dos políticos e dos homens de letras estavam conscientes do pesado sacrifício que a Presidência da República representava para Canto e Castro. Conhecedor e consciente dessa verdade, o poeta Acácio de Paiva, publicou, sob o pseudónimo de Belmiro, as páginas 3 de O Século Cómico de 6 de Janeiro de 1919, o soneto seguinte: Contra-Almirante Canto e Castro Se acaso as nossas posições cotejo Noto que a minha é pouco mais que nada; Vossa Excelência está na cumeada, Eu na planície humílima rastejo Vossa Excelência expõe qualquer desejo, Satisfaz um milhão duma assentada; A mais pequena coisa desejada Por mim, é muito raro quando a vejo No entanto, se uma fada, por ventura, Viesse neste instante ter comigo A fim de me guindar à mesma altura Posso afirmar-lhe que Belmiro amigo Mandava a sobredita criatura Onde por vergonha aqui não digo.

Finalmente, a 5 de Outubro de 1919, Canto e Castro terminou o mandato para que fora eleito. Após a cerimónia de transmissão de poderes, o Presidente cessante cumprimentou o novo Chefe de Estado, António José de Almeida, despediu-se dos membros do Governo e, saindo, tomou lugar numa carruagem que o aguardava no pátio do palácio. Aí, uma multidão compacta soltou imensos vivas a Canto e Castro, saudação que, repetidamente, ele agradeceu.

13

Cf. França, José Augusto – Os Anos Vinte em Portugal. Lisboa: Presença, 1992, p. 31, citando Visconde do Porto da Cruz – “Paixão e Morte de Sidónio”.

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Depois, o Almirante encetou o trajecto, rumo à sua casa do Largo do Andaluz, acompanhado do seu genro e ajudante de campo, Nobre da Veiga. Diz Maurício de Oliveira que, ao entrar em casa, Canto e Castro terá proferido a seguinte afirmação: “Atravessei um lodaçal sem me atascar”14. Regressado a casa e à família, o cidadão Canto e Castro levantou-se cedo na manhã de 6 de Outubro. Ao demorar a sua atenção sobre os jornais, deparou-se com um extenso artigo publicado pelo Diário de Notícias, o qual, constituindo um panegírico à sua actuação como Presidente da República, louvava ainda as suas qualidades intrínsecas de patriotismo, honradez e de lealdade para com o regime. Confirmando as opiniões já formadas e emitidas pelos republicanos em relação à pessoa e à actuação de Canto e Castro como bastião da República, o artigo, denuncia, por outro lado, como impróprias e injustas algumas críticas feitas ao Almirante, vindas de detractores seus, situados sobretudo entre as fileiras monárquicas e católicas, junto das quais pesava sobretudo a ideia da traição de Canto e Castro à sua ideologia e aos seus correligionários. Apesar de alguns exageros encomiásticos, não deixa de ser interessante o retrato feito ao homem, à sua acção e ao contexto histórico-político em que tudo teve lugar. No dia seguinte, 7 de Outubro, o jornalista António Santos do jornal A Época acercou-se da casa do Largo do Andaluz, solicitando uma entrevista ao Ex-Presidente da República. Amavelmente, como era seu timbre, Canto e Castro recusou a entrevista, dirigindo ao jornalista estas breves palavras: “Tenho trabalhado muito. Estou satisfeito. Cumpri o meu dever para com a minha Pátria que eu coloco acima de tudo. Agora o que eu desejo é descansar por muito tempo. A imprensa sempre foi amável comigo. Deixem-me agora esquecido na minha tebaida15”.

Sempre pacato, amante da tranquilidade e de uma vida discreta, e podendo agora dar lugar a essa sua maneira de ser, Canto e Castro queria afastar-se, o mais possível, do mundo da política e dos jornais. E tanto assim era que estando projectada, para o dia 26 de Outubro desse ano de 1919, uma manifestação pública de homenagem ao antigo Presidente, esta não veio a realizar-

14

Cf. Oliveira, Maurício – Ob. Cit., p. 153.

15

Cf. A Época de 7 de Outubro de 1919, p. 1.

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-se por força dos pedidos feitos nesse sentido pelo homenageado. Em todo o caso, nesse dia, numerosas personalidades – ministros e oficiais das forças armadas – foram ao Largo do Andaluz apresentar cumprimentos a Canto e Castro e muitos foram também os telegramas de saudação enviados. E em Setúbal, por iniciativa do comando militar local, houve mesmo desfile pelas ruas da cidade e vários oradores usaram da palavra para referir e saudar a acção patriótica de Canto e Castro num dos momentos mais «conturbados e graves da vida da República»16. O poder político não quis também deixar de obsequiar o homem que assim subira tão alto no conceito dos republicanos. A 21 de Outubro, Rocha e Cunha, Ministro da Marinha, apresentou na Câmara de Deputados uma proposta para a promoção do Contra-Almirante Canto e Castro ao posto de Almirante. Era uma dignificação excepcional, concedida a título honorífico, posto que tal patente não existia no quadro da Armada Portuguesa. Seria uma quarta estrela dourada a brilhar no uniforme do marinheiro, sinal de agradecimento da Pátria e da República. A acta da sessão da Câmara em que o assunto foi discutido é um documento histórico que retrata o carácter e a actuação de Canto e Castro, bem assim como as opiniões sobre ele expendidas pela classe política17. No seguimento da aprovação da proposta, a 25 de Outubro foi publicada em Diário do Governo a Lei n.º 904 que consagrava oficialmente a promoção do cidadão João do Canto e Castro Silva Antunes ao posto de Almirante da Armada Portuguesa. Nos primeiros dias do mês de Novembro de 1920, Portugal recebeu, em visita oficial, Alberto I e sua esposa Isabel, reis dos belgas. O almoço oferecido aos visitantes pelo Presidente da República, António José de Almeida reuniu, na mesma sala em Belém, dois ex-presidentes, Bernardino Machado e Canto e Castro. Os dois homens cumprimentaram-se friamente, com um ligeiro aceno de cabeça; as relações entre eles haviam sido sempre tensas porque resposta em vigor a Constituição de 1911, após a morte de Sidónio Pais, Bernardino Machado, achando-se com direito a terminar o mandado presidencial para o qual tinha sido eleito em 1915, tomou posição pública sobre o assunto. Nesse passo, embora com razão do ponto de vista jurídico-constitucional, Bernardino não foi propriamente cortês para com Canto e Castro,

16

Cf. O Diário de Notícias de 27 de Outubro de 1919, p. 1.

17

Ver Diário da Câmara de Deputados de 21 de Outubro de 1919, pp. 7

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chamando-lhe “usurpador”. Mais tarde, já na década de 40 do século XX, Bernardino Machado em entrevista ao jornalista Norberto Lopes, fará justiça a Canto e Castro, com elogios à sua figura de grande marinheiro, de patriota e de homem educado e de uma só palavra.

O Casal Canto e Castro na sua casa da Praia das Maçãs nos anos 20. In Casaleiro, Óscar E. – Presidentes de Portugal: João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006, p. 67.

Sempre ligado ao mar, Canto e Castro passava sempre os verões numa pequena casa que possuía na Praia das Maçãs, perto de Sintra. Por regra, recusava conceder entrevistas aos jornalistas que para esse efeito, frequentemente, o assediavam. A excepção foi feita a Maurício de Oliveira, jornalista do Diário de Lisboa e autor do livro a que neste trabalho se faz referência. Escusou-se, no entanto, o Almirante a fornecer quaisquer pormenores ou comentários acerca da sua passada vida de Presidente da República, limitando-se a dizer que tinha cumprido o seu dever e que se sujeitava ao julgamento da História. Admitiu então a possibilidade de se dedicar à elaboração e escrita de um livro de memórias.18

18

Cf. Oliveira, Maurício, Ob. Cit., pp. 174-179.

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Após a sua passagem à reforma em Setembro de 1932, Canto e Castro, já com netos, relegou-se para uma vida inteiramente dedicada à família.

Retrato de família na casa de férias da Praia das Maçãs, em Agosto de 1930. In Alípio, Elza Santos; Martins, Suzana – As Primeiras Damas da República Portuguesa. Lisboa, M.P.R., p. 59

Corria o ano de 1933 e Canto e Castro ainda teve de envergar o seu uniforme de gala e colocar ao peito as suas condecorações, posando para o pintor Henrique Medina, a quem tinha sido encomendado, pelo Governo de Salazar, o retrato oficial de Canto Castro, para vir a figurar na Galeria dos Presidentes, no Palácio de Belém. A inauguração oficial da obra foi em 1934, ano da morte do retratado. Ramiro Guedes de Campos, autor de uma monografia sobre Henrique Medina, escreveu sobre esta pintura o seguinte: “Neste magistral retrato, as mãos têm uma expressão que caracteriza a grande personalidade que deixou na História um nome imensamente respeitado. Com o andar do tempo, as mãos vão gradualmente acusando o envelhecimento, mas o gesto não se modifica e revela sempre o indivíduo e a sua estirpe. Neste caso, a suavidade e a firmeza. Este magistral retrato é considerado uma das obras-primas da vasta obra do pintor Medina”19.

19

Campos, Ramiro Guedes de, Dívida de Portugal a Henrique Medina, Trofa, David Jorge Pereira/Solivros de Portugal, s.d., p. 143.

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Canto e Castro, com farda de gala e a Grã-Cruz da Torre e Espada. Retrato de Henrique Medina. [em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://www.museu. presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1 In

Canto e Castro morreu serenamente, rodeado pela família, na noite de 13 para 14 de Março de 1934. Acometido de uma pequena gripe, esta fez irromper com força uma crise da doença que desde os seus trinta anos o acompanhava, a angina pectoris. Desta vez, essa inimiga de tantos anos iria concluir o seu trabalho. Por sua vontade, expressa por escrito, Canto e Castro teve um funeral discreto, sem honras militares, sem discursos, sem coroas fúnebres. Foi a enterrar pelas 15 horas do dia 15 de Março de 1934, no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa. A sua morte foi notícia, com grande destaque, em toda a imprensa de Lisboa. Presentes às exéquias estiveram alguns republicanos, o representante da família real, João de Azevedo Coutinho, elementos do corpo diplomático e algumas das figuras gradas do então recém-criado Estado Novo, bem ainda como o cardeal Manuel Cerejeira. Fazendo honras a uma lhaneza e uma desafectação proverbiais em Canto e Castro, dir-se-ia apenas que morrera um homem, ou, de acordo com as suas próprias palavras, insertas no seu testamento: “Morrera apenas um oficial de marinha”.

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FONTES E BIBLIOGRAFIA

fontes Arquivos – Arquivo Diplomático do N.N.E., caixa n.º 45,maço 5; caixa n.º 46, maço 1; e caixa n.º 51, documento M114. Periódicos e Revistas – Diários da Câmara de Deputados (1908,1910,1919) – Diário do Congresso da República (1919) – Diário do Senado (1919) – Diário de Notícias (1934) – A Época (1919) – Jornal da Tarde (1918) – A Manhã (1919) – A Pátria (1919) – O Século (1918,1919 e 1920) Outras Fontes Impressas Botelho – José Justino Teixeira – História Militar e Política dos Portugueses em Moçambique, de 1883 aos nossos dias. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1921. Chagas, João, O Diário IV – 1918/1921. Lisboa: Edições Rolim, s.d. Martins, Francisco Rocha – Memórias Sobre Sidónio Pais. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, 1921. Moniz, Egas – Um Ano de Política. Lisboa, Portugal – Brasil Editora, 1919. bibliografia Periódicos – O Diário de Lisboa (1944) Livros Ascensâo, Leão Ramos – O Integralismo Lusitano. Lisboa: Edições Gama, 1943. Campos, Ramiro Guedes de, Dívida de Portugal a Henrique Medina, Trofa, David Jorge Pereira/Solivros de Portugal, s.d.

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Casaleiro, Óscar Enrech – João do Canto e Castro, O Paradoxal. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006. Forjaz, Jorge Pamplona – O Solar de Nossa Senhor dos Remédios (Canto e Castro). Angra do Heroísmo: Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1996. Ferrão, Carlos – Em Defesa da República. Lisboa: Inquérito, s.d. França, José Augusto – Os Anos Vinte em Portugal. Lisboa: Presença, 1992. Oliveira, Maurício de – O Drama de Canto e Castro. Lisboa: Editora Marítimo Colonial, 1944. Relvas, José – Memórias Políticas. Lisboa, Terra Livre, 1978.

António José de Almeida (Museu da Presidência da República)

António Eduardo Veyrier Valério Maduro Professor da Escola Secundária Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria e Doutor em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

P

enso que se pode definir António José de Almeida como uma alma em desassossego que pelo turbilhão da palavra seminal apregoa as virtudes da República. “A sua república é a do futuro”, dizia, com propriedade, um dos seus biógrafos1. Messianismo, romantismo e espírito de cruzada na afirmação do ideal republicano constituem chaves para decifrar a personalidade do homem público e político. Estas âncoras, que norteiam toda a sua vida, malgrado as desilusões e incompreensões que vai sentir, a fogo, na pele, revelam um desajustamento concreto entre o homem e o tempo histórico. Joaquim de Carvalho apoda de anacrónica a sua eloquência2, mas é na raiz do seu pensamento que se situa o fundamento do divórcio. Numa era marcada, no domínio intelectual, pelo signo do positivismo e da objectividade, os arroubos líricos e proféticos e as incursões sentimentais no discurso político e na sociabilidade do quotidiano apresentam-se como intrusões no presente de uma carta de valores e comportamentos do passado. Sabemos que a dimensão pública e privada não são dissociáveis e que as fronteiras entre estes dois universos padecem de instabilidade, apresentando-se fluidas e movediças. As idiossincrasias dos actores sociais e os contextos em que estruturam a sua vida familiar e afectiva, em que revelam os seus hábitos, gostos e comportamentos, podem carrear luz ou sombra. A singularidade de António José de Almeida é um facto. Nele a dimensão de homem público silencia o outro lado, a política e a exposição impregnam todos os poros do seu ser, a militância e a propaganda tomam foros epidérmicos.

1

Agostinho, José – Galeria Republicana: Dr. António José d’Almeida. Lisboa: Biblioteca Democrática, 1906, p.13.

2

Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J. Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol II, p.XVI.

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António José de Almeida veio ao mundo a 17 de Julho de 1866; na pena de um convicto do seu apostolado «sahiu em bronze do ventre materno»3, como o demiurgo da República. Tem, como torrão natal, o lugar de Vale da Vinha, localizado no concelho de Penacova. O seu pai, José António de Almeida, é, por assim dizer, um “homem bom” da terra, inteligente e dinâmico, que se afirmara nos negócios, indústria e política, alcançando cargos de vereação e presidência na Câmara de Penacova4. A origem social nunca é escamoteada pelo tribuno, antes pelo contrário, permite-lhe reivindicar com orgulho o manancial moral e ético da sociedade rural. A afirmação de pertença ao povo é uma constante na sua prédica política, registo que se adequa à arquitectura e gramática demoliberal e que premeia o esforço, o mérito e o talento sobre os direitos adquiridos pelo nascimento. É a honra plebeia do trabalho e da propriedade com suor, da dignidade e carácter, que defende com unhas e dentes nas várias fases da sua vida tão atribulada. Quando afrontado por Afonso Costa para um duelo, a propósito de um artigo publicado no periódico a República de que é director, intitulado “O Partido dos Escândalos”, da autoria do redactor Alfredo Pimenta, António José de Almeida, que recusa por princípios de ordem ética e moral o confronto, exaspera-se com a tentativa de linchamento de personalidade. No artigo justamente denominado “Por Minha Honra”, publicado na República de 17 de Junho de 1911, declara com solenidade e sentimento: “Cheguei a estas alturas da existência em que me encontro após uma longa e penosa jornada. Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fôsse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. Cheguei cá sem haveres, sem ambições e sem glórias. Sou uma espécie de proletário. No entretanto, sôbre o montão de escombros em que a minha vida se desmoronou bate a luz vivíssima e bendita do meu ideal de sempre. Foi no meio dessa claridade calma, silenciosa e augusta que êsses dois homens viram o cofre dos meus únicos haveres desta hora, o cofre sagrado da minha

3

Madureira, Joaquim – Caras Amigas (Gente Limpa). Lisboa: Antiga Casa Bertrand, 1898, p.50. 4

Torgal, Luís Reis – António José de Almeida e a República: discurso de uma vida ou vida de um discurso. 1ª edição. Lisboa: Círculo de Leitores e Autor, 2005, p.30-34.

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honra, onde jamais se tinham atrevido a tocar os próprios que ousaram atentar contra a minha vida”5.

O nascimento para a República cimenta-se em Coimbra, cidade em que, nos finais da década de 80, vai cursar Medicina. Aqui afirma-se o homem revoltado e inconformado com a universidade, o país e o regime político. A sua subsistência na faculdade deve ter sido penosa, em virtude das poucas disponibilidades financeiras. Embora o seu pai não fosse um «sem eira nem beira», mas um homem de alguns haveres e influência no seu meio social, tinha oito filhos a quem dar apoio e guarida, dos quais António José de Almeida ocupava o sexto lugar. Fazendo fé nas confidências da sua mulher, António José de Almeida “para se formar em Medicina, em Coimbra, chegou a sustentar-se com as sobras do rancho dos soldados”6. No palco da universidade assume a função de liderança e combate. As frentes são múltiplas e diversificadas. O peso da tradição, o espírito avesso à renovação pedagógica, o atraso da investigação científica e a imagem anquilosada da instituição perturbam-no profundamente. Mas o grosso das suas forças e atesto das baterias têm como alvo a odiada monarquia, responsável pela degenerescência do povo e da nação. Cedo é conhecido e reconhecido entre os estudantes pela sua chama interior, determinação e perseverança.

António José de Almeida, o estudante universitário. Museu da Presidência da República.[em linha] 27/04/2011. Disponível em http://www. museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

5

Almeida, António José de – ob. Cit., p.143

6

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 37.

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O seu primeiro escrito é publicado na Via Latina, em Dezembro de 1889, em que, sob o pseudónimo de Diógenes, crítica o compêndio de matemática de Francoeur. Mas o papel de publicista e incendiário de espíritos só se desenha, de facto, com o texto “Bragança: o último”, publicado no jornal académico o Ultimatum, a 23 de de Março de 1890. Conduzido à barra do tribunal por ofensas explícitas ao rei, vai ser defendido por Manuel de Arriaga. Julgado, no dia 25 de Junho de 1890, é sentenciado a três meses de prisão. Crente na sua causa e na justeza das palavras utilizadas recusa o perdão real, dado que a aceitação implicava tacitamente o reconhecimento da legitimidade do poder monárquico e anularia a almejada condição de mártir romântico. A detenção constitui um estímulo para o novo herói da academia. Aí matura a sua ira e fortalece a consciência republicana. Do cárcere saem libelos acusatórios, como as Palavras de um Intransigente. O seu pai, a quem a cegueira debilitara, honrado com a postura e verticalidade do filho, adere ao Partido Republicano e demite-se do exercício municipal7. Habilmente, António José, consegue conciliar os estudos, assumir a vanguarda da contestação universitária de fundo republicano, iniciar-se no jornalismo de matriz política, moral e cívica, em jornais como o Alarme e a Azagaia, e notabilizar-se pela palavra em discursos memoriais. Representa os estudantes da Faculdade de Medicina no Congresso de Estudantes Portugueses, com o propósito de apreciar e debater os Estatutos da Federação Académica Portuguesa, participa nas manifestações académicas de 18 de Novembro de 1891, testemunhando o desagrado pela passagem por Coimbra da família real. Os seus dotes de orador vão ser testados na cerimónia fúnebre do lente de matemática José Falcão, a 15 de Janeiro de 1893, no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Neste discurso destaca os atributos do mestre, nomeadamente a elevação e paixão da alma, a bonomia e afecto do coração, o comprometimento social e político na causa da República e da humanidade: “O seu espírito lembrava-me um pedaço de gêlo conservando-se frigidíssimo e intacto no meio do fogo divino que a sua alma de poeta tinha acendido e as amarguras de quem sofre pelos outros constantemente haviam ateado”8.

7 8

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.33-34, 47-48.

Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol I, p.57.

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Mas este frenesim não o deixa descurar os estudos. A política, ao invés de constituir uma distracção, torna-se uma fonte de responsabilidade, agora que tantos olhares repousam sobre os ombros do jovem revolucionário: “(...) elle que, até ahi, cabulára e se deixara ir na gandaiagem dos annos perdidos atirou-se aos livros com o mesmo arreganho que entrara na refrega contra a monarquia e p’ra manter uma linha de orgulho e de independencia a sua individualidade de estudante rebelde e insubmisso, quando os outros procuraram na politica pretexto para a cabula, António José de Almeida livrou-se da cabula pela República”9.

Mas a política vai ser madrasta das suas pretensões académicas. A sua postura de radical, aliada aos ferrões críticos com que martirizava a cultura universitária e denunciava a falta de conhecimento, de critérios pedagógicos e a ética de alguns lentes, vai acabar por fazer ruir todas as esperanças numa carreira professoral. Pouco lhe valeu ter-se notabilizado como estudante e ter sido agraciado, no 4º ano de Medicina, com o prémio Barão de Castelo de Paiva10. Como recusa da injusta e penalizadora sanção, publica, em 1895, a obra Desafronta (história de uma perseguição), em que expõe, olhos nos olhos, os lentes que contra si conspiraram arduamente e que feriram a sua honra de estudante e cidadão. O ostracismo a que foi sujeito e que, em parte, o vai conduzir, desiludido e amargurado, a terras de S. Tomé, empurra António José de Almeida decisivamente para o palco exclusivo da política. Neste destino longínquo busca provavelmente a sorte, angariar um pé-de-meia para solver dívidas contraídas durante os estudos universitários11 e estabelecer consultório na capital. Ou talvez este degredo auto-imposto sirva de preparação para a dura refrega da vida. Antes da diáspora africana reclama o aconchego e comunhão dos seus em Vale da Vinha. Declara, expressamente, ir “ganhar fôrças e coragem para me aventurar até à terra selvagem onde vivo hoje”12. O amargo exílio de longos sete anos granjeia-lhe experiência no campo das doenças tropicais, faculta-lhe 9

Madureira, Joaquim – Ob. Cit., p.51.

10

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.40.

11

Madureira, Joaquim – Ob. Cit., p.53.

12

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p.61.

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o convívio com os “capitães” das Roças e os simples nativos que tanto mostra estimar e, sobretudo, faz crescer o homem e agigantar as ideias. Mas este afastamento é apenas geográfico, porque na sua mente o agitador republicano está mais do que vivo. Mesmo distante colabora nos periódicos do continente. Testemunho evidente que a luz do orador não esmoreceu constitui o artigo de homenagem póstuma ao Doutor Sousa Martins, publicado no jornal o País, a 11 de Outubro de 1897. No elogio rasgado ao cientista, ao médico e ao homem, surge sempre a omnipresença do comunicador familiar, assertivo e moral, como se de uma imagem reflexa se tratasse: “Na sua prosa, frequentemente difusa, de uma plasticidade perfeita, percebia-se o rasgo ondeante de uma formosa imaginação, e na precisão austera dos vocábulos tacteava-se a disciplina de um perscrutador de verdades. A sua locução era cheia e dilatada, mas sempre obedecendo a leis determinadas e tocando balizas precisas: (...) Tinha ímpetos formidáveis, dantonianos por vezes, dêsses que se simbolizam em quatro palavras e ficam impressos na alma de quem ouve, como, numa anca, fica impressa uma marca a fogo; mas eram rápidos, porque o encadear da palavra, vertiginosa e corredia, não permitia redemoínhos de oratória” (...) Da exibição extraordinária da sua ciência esta nota saltava: um grande espírito cultivado com tôdas as floras e um grande coração arroteado por todos os afectos (...)”13.

O espírito de solidariedade e fraternidade para com os nativos e os portugueses sem recursos, que mourejavam nas ilhas, granjeia-lhe amplas simpatias entre a população. Encarando as colónias como extensões naturais da Pátria e a colonização como uma função de mérito civilizacional, não pôde deixar de se envolver pessoalmente e de pugnar pelo bom tratamento a dispensar aos nativos, pois esta era a sua noção de política. Esta preocupação nunca abandonou a sua mente. Numa intervenção na Câmara dos Deputados, a 1 de Fevereiro de 1907, a propósito do projecto-lei sobre o “Descanso Semanal”, defende a equidade de direitos entre brancos e negros14. Os colonos europeus desprovidos de recursos beneficiaram dos cuidados da Associação Pró-Pátria,

13

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p.60, 64, 67.

14

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol II, p.31-32.

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de que António José de Almeida foi alma mater, tanto para efeitos de repatriação como de assistência médica15. A acção médica nas ilhas notabiliza-o pelo cuidado profissional e pela atenção com que agracia o padecente, independentemente da classe social. Indignado com as condições sub-humanas de exercício da medicina nas ilhas, reclama com veemência, no artigo “S. Tomé” publicado no Resistência, de 17 de Março de 1898: “Em S. Tomé não há um microscópio! Vergonha comparável a esta só a maior ainda de não existir um hospital, onde o colono europeu possa ao menos morrer em paz. O pardieiro, que tem o nome pomposo de hospital militar e civil, é um casarão imundo, cheirando mal, sob o sol e sob as moscas”16.

António José de Almeida em terras de S. Tomé. Museu da Presidência da República. [em linha] 27/04/2011. Disponível em http://www. museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

Numa proclamação de modéstia declara-se “um pobre médico de pretos”17. O bom João Semana a todos atendia, tivessem ou não capital para satisfazer os honorários médicos. Segundo o depoimento de sua mulher: “Chamavam-lhe «o 200» porque cobrava apenas 200 réis por consulta, e, isto, mesmo apenas a quem os tivesse”18. Este amor e desvelo pelos outros são retribuídos

15

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p. 24.

16

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol II, p.75.

17

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol II, p.107.

18

EVA, 1000, Maio de 1955, p.37.

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na homenagem que a comunidade local lhe dedica quando cessa a sua missão por terras de África19. Ainda, segundo a sua mulher, a gratidão pela obra do seu marido materializa-se nos generosos legados que são feitos à sua filha: “(...) anos depois, morreu um preto que conhecera o meu marido em S. Tomé; e deixou um legado de 12 contos à nossa filha, à filha daquele homem branco que andara por África aliviando as dores dos nativos. E também o Padre Amaral, que lá o conheceu, como simples médico, deixou 15 contos à nossa filha, quando morreu, em recordação do sacerdócio do meu marido por aquelas terras”20.

Retorna a Portugal no vapor Luanda, a 22 de Julho de 1903. Parece que ainda encarava com esperança a ideia de abraçar uma cátedra universitária, redimido pelo calvário africano. Com algum cabedal, abandona de imediato Lisboa e inaugura um périplo por algumas cidades europeias, procurando aperfeiçoar-se nas artes médicas e banhar-se no doce amplexo da civilização ocidental. Mas o querer político continua a dominar a sua vontade e, em Paris, sob a luz de Danton, herói e mártir da Convenção, que tanto venera, concebe um texto intitulado “Partido Republicano”, em que apela para uma reorganização do partido a fim de alcançar o desiderato do poder pelo superior convencimento das massas. Neste artigo publicado no Mundo, em 21 de Novembro de 1903, revela a ideia generosa e conciliadora que há-de orientar a sua praxis política futura: “Nós queremos uma República larga e equitativa, sem represálias nem vinditas, não para um partido mas para a Nação. Queremos ressuscitar a Liberdade já morta, estabelecer a Igualdade, salvar o património colonial, restaurar a fazenda Pública, fazer um amplo regime de moralidade, resgatar, pela educação, a alma do povo e redimir uns poucos anos de História”21.

De volta a Lisboa, corria já o ano de 1904, estabelece consultório na Rua do Ouro, declarando a especialidade de doenças dos países quentes. A redes-

19

Azevedo, Manuel Roque – “Inquérito sobre o Partido Republicano Evolucionista (19121919)”. In: Nova História – 1ª República Portuguesa, 1984, 2, p.113. 20

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 41.

21

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p.84.

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coberta pública da sua oratória faz-se, uma vez mais, em exéquias fúnebres, desta vez junto ao féretro do grande artista Rafael Bordalo Pinheiro, em 24 de Janeiro de 1905. De entre os seus escassos prazeres revelados destaca-se a arte teatral. A paixão pela oratória política, o gosto no aplauso da multidão aproximam e enamoram, definitivamente, António José de Almeida pelo teatro. Este interesse, porventura, já latente no seu espírito, desperta com a digressão, na Primavera de 1905, da actriz dramática Italia Vitaliani a Portugal. Sôfrega e atentamente, assiste ao conjunto de récitas da diva e visita-a no seu camarim. A actriz retribui-lhe a atenção, declarando a vontade em escutar os dotes de eloquência do tribuno. A homenagem prevista não se concretiza, mas António José publica, a 25 de Junho de 1905, no jornal Resistência, as memórias e reflexões sobre a passagem da actriz22. Neste texto revela-se platonicamente apaixonado pelo génio e criatividade de Italia Vitaliani, pela versatilidade, atmosfera e substância que empresta à representação: “Durante cinco noites eu a vi e estudei tudo: na sua fé de possuída, no seu tom fugitivamente alacre e estouvado de quem conserva ainda muita meninice naquela idade, na plasticidade da sua concepção, na lógica da sua interpretação, na exteriorização magnética da atitude e do gesto, na enregistração da máscara dócil, que obedece à imposição do pensamento com a rapidez de um catavento à brisa que o sopra”23.

A elevação da artista contrasta, todavia, com a menoridade das peças teatrais “sem psicologia e sem nexo”. Mas é nessa adversidade que, segundo a sua ideia, a actriz revela a sua plenitude: “Em logar de ver as pérolas do seu génio dispostas, e alinhadas nalguma deslumbrante constelação, vi-as sôltas, sem esfôrço, em plena natureza, como sôbre a simples areia, húmidas ainda na última onda que as beijou. Não me dou por infeliz”24.

22

Rosa, Álvaro Barros – Médicos portugueses notáveis fora da medicina: António José de Almeida. Lisboa: Soc. Ind. Farmacêutica, 1965, p.9.

23

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p.100.

24

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol I, p.106.

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O político recusa o teatro frívolo e banal, o espectáculo de puro entretenimento e ilusão, a arte pela arte. Daí que, numa ambição focalizada na pressão social dos tempos modernos, declare: “(...) eu desejo à Vitaliani que ainda em sua vida apareça o homem de superior talento, que, numa série sucessiva, ordenada e harmónica de peças teatrais, faça toda a anotação da ansiedade que agita a vida social do nosso tempo, para ela representar essas peças”25.

O teatro deve, na sua opinião, conceder ao espectador um fresco impressionista da sociedade, expondo as contradições e conflitos, os dramas individuais e colectivos, ousando constituir-se como um instrumento de apelo cívico, moral, pedagógico e político. A arte teatral terá acompanhado a vida do político e do estadista. Fontes Vital, chefe de pessoal do Palácio de Belém, refere que António José, ao longo do seu mandato como Presidente da República, solicitava sempre a sua companhia quando assistia a peças nos camarotes presidenciais26. Os anos até ao findar da monarquia são turbulentos e neste contexto, seriamente agudizado pelo autoritarismo e despotismo de João Franco, António José de Almeida, em detrimento da medicina, mergulha de corpo e alma nas conspirações anti-monárquicas. Filia-se na Maçonaria (loja Montanha nº 214, de Lisboa) e na Carbonária, sendo detido por implicações na tentativa de golpe de 28 de Janeiro de 190827. Pela primeira vez, na sua história de vida, o partido republicano abandonava a solução eleitoral e ensaiava o golpe revolucionário. Daí ao regicídio foi um passo curto. Rocha Martins refere a convicção do espingardeiro Heitor Ferreira de que foi a prisão de António José de Almeida que desencadeou a acção criminosa, pelo ardor e veneração que o Costa lhe tinha28. A influência do tribuno nos meios radicais irá, alguns

25

Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol I, p.107.

26

Vital, Fontes – Servidor de Reis e de Presidentes. 1ª Edição. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, 1945, p.112.

27

Martins, Rocha – Vermelhos, Brancos e Azuis: Homens de Estado, Homens de Armas, Homens de Letras. Lisboa: Vida Mundial, 1948-1951, Vol II, p.324; Santos, Fernando Piteira – “António José de Almeida o tribuno da República”. In: História, 1979, 12, p.61. 28

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.320, 324.

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meses mais tarde, evitar novo derramamento de sangue real. Graças ao seu poder persuasivo consegue dissuadir o homem que vai perpetrar o atentado contra a vida de D. Manuel II, acção que devia ocorrer durante a cerimónia por alma do monarca e do príncipe herdeiro no Mosteiro dos Jerónimos29. Note-se que o conceito de revolução para António José de Almeida deve ser expurgado de violência gratuita. Na “Carta-Circular” publicada, a 14 de Maio de 1906, na Vanguarda, reafirma o seu espírito pacifista: “Sou revolucionário na ampla, larga e humanitária acepção da palavra. Antipatizo com a violência. Detesto o sangue. A vida humana é para mim uma coisa sagrada...” (...) Sou simplesmente um agitador republicano, um tribuno do povo, que deseja que se crie, desenvolva e propague, na Pátria portuguesa, um espírito novo de rehabilitação e progresso. A Revolução que eu quero é aquela que, transbordando das almas, fecunde tôda a raça portuguesa com o seu praiamar redentor”30.

Para o tribuno, o devir republicano constitui um determinismo histórico e o sangue a pagar pela Pátria deve ser limpo de vilanias. O íntimo credo na implantação da República leva-o a protelar o casamento por oito anos. Conhece a sua futura mulher, Maria Joana Morais Queiroga, num comício de propaganda republicana na cidade de Évora em 1902. Esta jovem de 18 anos, natural do Redondo e residente em Évora, era mais nova do que ele 19 anos. O seu pai era um lavrador alentejano com simpatias republicanas e gosto pelos inventos mecânicos, alguns dos quais objecto de exposição e aplicação na indústria agrícola31. Segundo a mulher, o receio pela vida, o risco de prisão ou deportação jogaram no adiamento do casamento, aguardando esperançosamente os namorados a serenidade e segurança dos tempos vindouros para constituir família32.

29

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.326-327.

30

Almeida, António José de – Ob. Cit., Vol II, p.145.

31

Grande Enciclopédia Luso-Brasileira, vol. XXIII, p.889.

32

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 41.

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António José de Almeida, o político republicano. Museu da Presidência da República. [em linha] 27/04/2011. Disponível em http://www. museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

Implantada a República, o casamento civil é agendado para 14 de Dezembro de 1910. Posteriormente, ter-se-ão casado pela Igreja, o que, segundo Rocha Martins, provocou duras críticas jacobinas33. Esta concessão compreende-se face ao tradicionalismo da sociedade portuguesa, à proveniência geográfica, social e cultural da família da noiva e quiçá ao ajuizar de uma justa recompensa pela espera angustiosa a que foram sujeitos. Precisemos que António José de Almeida não se reconhece no ateísmo, mas como “um livre-pensador, embora felizmente um livre-pensador religioso”34. Este fundo religioso e místico que adorna a sua alma é fruto da maturação da idade, dado alguns textos denunciarem um ateísmo prático e, provavelmente, conveniente, em função do contexto de laicidade e anti-clericalismo do alvor republicano e do exercício do cargo de ministro do interior, no Governo Provisório. De facto, no artigo acerca da demissão do Bispo do Porto, acção fundamentada na pastoral em que o prelado contestava a política secular e a laicidade do Estado republicano, apelando para o desrespeito por parte do clero, o tribuno da república perora sobre a origem do poder e do governo, repudiando a própria existência do criador:

33

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.333.

34

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.358.

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“Seria ridículo que ela (República) lhes demonstrasse que o direito emanado do Povo, fonte de toda a soberania, nada vale em comparação com o poder oriundo desse Deus fantasma que os homens inventaram para si próprios para se torturarem e escravizarem”35.

O código ético e moral que António José de Almeida reivindica como farol identitário da sua conduta pública e privada, filia-se, inapelavelmente, no cadinho judaico-cristão em que germina o Ocidente e é neste sentido difuso e global que se pode entender o seu conceito de cristão. O tomar Cristo como referência e valor da liberdade dos homens e do progresso moral das civilizações não invalida, portanto, a rejeição das religiões organizadas que, por via de regra, se aliavam às instituições políticas mais retrógradas e despóticas. A revolução e a tradição casam-se na sua vida. A revolução identificada com o projecto republicano demoliberal e a tradição como uma orientação de vida e pensamento pautado pela honra e bom-nome, pelos valores familiares estabelecidos, pela adesão ao ideário social de matriz conservadora das classes médias da província. As suas paixões são a família e a República. Durante o seu mandato presidencial, entre 1919 e 1923, fazia-se acompanhar comummente pela sua filha, rebento isolado do seu casamento, em inúmeras cerimónias oficiais, deixando-se fotografar pela imprensa da época. O seu amor pela filha sobressai no périplo presidencial pelo Brasil, aquando da oferta de uma boneca no Grémio Republicano Português, em que o estadista declara comovido e pleno de saudade: “Agora quero apenas agradecer as palavras que tiveram para comigo e a gentil boneca, que trouxeram para a Maria Teresa, a alegria que me deram com isso e a alegria que vão dar à minha filha, de 11 anos. Esta boneca ficará desde hoje e até que eu volte à Pátria, junto de mim, no meu quarto, para me dar a ilusão de que tenho minha filha ao meu lado; e quando regressar, eu poderei dizer a minha filha que não me separei dela senão para lhe vir buscar esta boneca”36.

35

Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J. Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol IIII, p.41. 36

Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J. Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol IV, p.284.

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A sua vida conjugal terá sido feliz e harmoniosa não se lhe conhecendo envolvimentos extra-conjugais. São reveladoras, a este propósito, as palavras da sua mulher: “Vivia só para mim, para a nossa filha, para a sua República. Não tinha nada de aventureiro...”37.

A ideia de proximidade e intimidade do casal associada à de pobreza e probidade do político é enfatizada pela sua mulher ao recordar a viagem presidencial ao Brasil: “Foi a única vez que estivemos separados: quando ele foi ao Brasil, no centenário da Independência... Pois não o acompanhei porque ele não tinha dinheiro para me apresentar condignamente... Como poderia ele apresentar-me nas recepções oficiais no Rio de Janeiro, à altura da minha situação?... essa «primeira dama» não tinha jóias nem toilletes...”38.

António José de Almeida acompanhado pela mulher e filha. Museu da Presidência da República. [em linha] 27/04/2011. Disponível em http:// www.museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

António José de Almeida foi o caudilho mais idolatrado entre as lideranças republicanas, a palavra viva e ardorosa, o gesto e a expressão emotiva, o dis-

37

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 13.

38

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 13.

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curso cheio e radical arrancaram aplausos e paixões à plebe republicana. Os mais próximos descrevem o entusiasmo contagiante da sua palavra: “O belo tribuno parece ubíquo e, em todo o terreno que pisa, brotam as adesões como as rosas debaixo dos pés de um taumaturgo”39.

O seu território de eleição natural era o da comunhão com as massas, o de sentir e tomar o pulso das ruas, desvendar os anseios da população a fim de incorporar essas esperanças na mensagem propagandística. O convívio com os “simples” e os indefectíveis da ideia republicana apresenta-se como uma estratégia política recorrente; assim entendemos as conversas com o latoeiro da Graça40, a consideração elevada pela classe dos barbeiros como veículo privilegiado de distribuição e troca de ideias41. Mas esta vontade de sintonia com as massas não pode ser apenas interpretada como alvo político, algo descartável e reutilizável nos desígnios sórdidos de um demagogo. Esta ligação que tanto cuidou, como delicados frutos da terra do jardim familiar, evidencia, antes de tudo, gratidão e prazer sincero e talvez uma necessidade de ser amado pelo povo de quem quer ser voz. Pela própria essência como pessoa, no seu discurso político sente-se permanentemente o tempo e o espaço das ruas, daí ser inapropriado às formalidades, regras e exigências parlamentares, como lhe fizeram com propriedade notar: “O senhor fala aqui como nos comícios». «Pudera – respondeu o orador – esta tribuna para mim só vale como tablado da praça pública e verdadeiramente eu, falando não vejo deputados diante de mim; vejo, para além das paredes desta casa, a movediça avalanche do povo português”42.

A idolatria de que beneficiou materializou-se numa profusão invulgar e inaudita de objectos do quotidiano, comércio vulgar decerto, mas que demonstra cabalmente que o folclore da sua representação no tablado dos

39

Agostinho, José – Ob. Cit., p.16.

40

Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol II, p.203-209.

41

Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol II, p.43.

42

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.21.

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comícios penetrou no âmago do imaginário popular. A sua imagem, como de um santinho de altar se tratasse, reproduz-se em: “(...) latas de bolacha, sabonetes, côco, licores, canivetes, alfinetes de gravata, broches, canecas p’ra vinho, tampas de relogio, moringues p’ra agua, pastas dentifricas, pomada p’ra callos, bustos de gesso, caixas phosphoros, anilhas de charutos, oleographias baratas, gravuras sordidas, postaes illustrados...”43.

Esta oratória, que reputamos de sincera, era repudiada pelos sectores mais intelectuais da República, ao denunciarem os nutrientes populistas do discurso, a “ignorância enciclopédica” do tribuno, o vazio clamoroso da sua mensagem44. Com a tomada do poder pelo Partido Republicano, António José de Almeida vai assumir a pasta do Ministério do Interior no Governo Provisório, aproveitando para concretizar um mapa de reformas substantivas ao nível da educação e das universidades45. “A conversão do «agitador revolucionário», do «apóstolo da subversão», em estabilizador da nova ordem burguesa, não se fez sem dificuldade e sem desgaste»46. A metamorfose foi deveras mal recebida pela população de fiéis que da incredulidade e desilusão iniciais passaram à fúria avassaladora, apeando do pedestal o ídolo tão querido. A harmonia no governo provisório da República começa cedo a estalar e as fracturas programáticas, ideológicas e de carácter entre o escol republicano depressa vêm à tona. As polémicas amontoam-se e os lados da barricada extremam as suas posições. A união tornou-se em divisão exacerbada nas querelas dos empregos públicos, em que António José de Almeida resiste estoicamente à tentativa de controlo do Estado pelos republicanos mais radicais; na promulgação da lei eleitoral de 14 de Março de 1911, em que é acusado de favorecer a eleição de monárquicos; na defesa de amnistias a monárquicos e

43

Madureira, Joaquim – Ob. Cit., p.48.

44

Reis, Luís da Câmara – Vida Política. Lisboa: Tipografia Mendonça, 1912, p.130-131.

45

Ferrão, Carlos – A Obra da República. Lisboa, Editorial Século, 1966, p.94-96.

46

Santos, Fernando Piteira – “ António José de Almeida o tribuno da República”. In: História, 1979, 12, p.62.

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grevistas e recusa concomitante das leis de excepção47; nas críticas que faz à severidade da lei da separação da Igreja do Estado48... De um lado, os moderados e, do outro, os radicais, esgrimindo ambos as suas bandeiras e utilizando como armas um jornalismo militante que se encarregava, sistematicamente, de zurzir com afinco, tanto pela palavra como pela caricatura mordaz, os novos adversários. Um dos primeiros pontos capitais de discórdia acende-se, de facto, com a necessidade urgente para os sectores mais radicais da República da depuração e renovação da administração pública e serviços do Estado. António José de Almeida, cuja pasta do Interior controlava o bolo maior da empregabilidade, mostrava-se intransigente e irredutível, negando-se a enxamear o aparelho de Estado com revolucionários, pelo que é acusado de manter o status quo e, assim, eternizar a clientela do rotativismo e até de viabilizar a contra-revolução monárquica49. Defendendo a prioridade da competência profissional sobre o critério de índole política, caiu na desgraça daqueles que pretendiam colher os louros da revolução. Américo de Oliveira, seu compadre e herói civil da Rotunda, vê ser-lhe rejeitado um simples pedido para fiscal dos caminhos-de-ferro50. Esta rectidão para com os íntimos de origens mais abastadas era suavizada quando se tratava de acorrer aos mais necessitados. Prova cabal do humor do ministro segue-se ao protesto por parte do Director do Museu das Janelas Verdes, o crítico de arte José de Figueiredo, a propósito da entrada no Museu de um indivíduo sem qualquer preparação técnica e cultural e de hábitos pouco recomendáveis, a que António José de Almeida gravemente retorquiu:

47

Veja-se o Discurso na Câmara de Deputados sob o título “A Amnistia a crimes políticos”: Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol III, p.102-123. 48

Veja-se o programa do partido evolucionista a propósito do problema religioso: Azevedo, Manuel Roque – Ob. Cit., p.92-93.

49

Valente, Vasco Pulido – “Moderados e Radicais na I República: da conciliação ao terror (Outubro de 1910- Agosto de 1911)”. In: Análise Social, 1975, 42-43, p.236-240.

50

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.336; Villa Nova, Silvino – Figuras de Alcobaça e sua Região, 1960, Vol II, p.24-27.

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“– Mas sabe quem é aquele homem? Deveras pasmado, o crítico de arte ouviu a revelação: – É um grande revolucionário... A gaguez do director aumentou na resposta: – mas... o lu...gar é de con...servador...”51.

Mas o rubro da contenda entre o futuro líder dos evolucionistas e os democráticos de Afonso Costa ocorre com a magna questão do divórcio entre Igreja e Estado. As críticas dos moderados advogando a tolerância religiosa e princípio da neutralidade em detrimento de um anti-catolicismo insano foram entendidas como traição explícita e favoráveis à contra-revolução talassa e jesuítica. Cedo é increpado e agredido no Rossio, em Lisboa, e o Mundo, jornal de expressão democrática, vem, de forma nua e crua, legitimar o acontecimento, atribuindo o incidente às incongruências do próprio António José de Almeida: “Este antigo caudilho republicano dirigiu-se para o Rocio e foi prevenido na rua do Carmo que era uma imprudência passar ali (...) Houve gritos contra o Bloco, contra a política de atracção... Lembremos que o sr. Almeida foi, nos tempos da propaganda, o mais radical dos propagandistas republicanos... O sr. Almeida mostrava-se mais que republicano: o sr Almeida, por vezes, mostrava-se partidario do ideal anarchista. E no que se transformou o sr. Almeida depois de proclamada a República? O sr. Almeida enfileirou-se entre os mais conservadores. O sr. Almeida, no ministério, no parlamento e até na imprensa, rodeou-se de elementos que pareciam incompatíveis com o seu radicalismo... Mais ainda o sr. Almeida atacava obras que representavam os bons princípios republicanos. Ainda ante-hontem, no seu jornal era atacada a lei da separação. O sr. Almeida criou assim simpatias e aplausos nas classes conservadoras. Mas irritou logicamente aquelles que se apaixonaram pela sua palavra e que acreditavam que ella traduzia um programa sagrado. Quem tem, pois, a culpa que a multidão vaiasse? É a multidão que deve ser increpada? Não. É o sr. António José de Almeida, que se transviou... Foi o Bloco que semeou ódios no seio da Revolução... O sr. Almeida não é bem o chefe do Bloco, o chefe é o sr. Capitão Camacho. O sr. Almeida é um cabo de ordens”52.

51

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.337.

52

O Mundo, 994, 22 de Outubro de 1911.

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Também o jornal humorístico, Os Ridículos, aproveita para parodiar o caudilho caído em desgraça: “Catecismo Republicano (Lição II): P. Qual das 3 distintas pessoas se fez mao ómen. R. O Zé d’Almeida. P. Onde se fez mau? R. No Centro... político da República Nossa Sénhora. P. Para que se fez mau? R. Para poder padecer, ser insultado, ameaçado e assobiado em pleno Rocio P. Por obra de quem se fez mau. R. Por obra e graça do Espírito Santo... de orelha”53.

A queda do ídolo passa a tema caricatural recorrente, onde o humor corrosivo põe a nu o manancial aparente de contradições da vida, comportamentos e obras. A erosão moral soma-se à dessacralização política, banalizando a personagem, tornando-a igual aos comuns54. As alcunhas desprestigiantes surgem como epitáfio político. Estabelecendo a analogia com as lideranças da revolução francesa e, em particular, com o nome de Danton, baptizam-no de forma escarninha de “dantonces”55. António José de Almeida, o ex-radical, pugnava por uma política de reconciliação nacional com vista à consolidação do regime republicano, de atracção para irmanar os irmãos desavindos e aproximar da República as classes médias conservadoras e católicas, em suma, pretendia criar um estado de direito integrador e aceite por todas as tendências políticas da nação. Mas a ira dos tempos facilitou o sobressalto e a instabilidade, deveras agravada pelo despoletar do primeiro conflito mundial e pelas experiências governativas ditatoriais prenunciadoras do regime de Estado Novo. Sempre disponível para a luta política, encabeça o governo da União Sagrada, em que, depois de tanta tormenta, se aliam democráticos e evolucionistas a fim de enfrentar a penosa Guerra, o que na pena ácida de João Chagas: “Não é uma reconciliação. É um holocausto. Affirmam ambos que d’este modo sacrificam no altar da patria”56.

53

Os Ridículos, 869, 21/02/1912.

54

Veja-se: Homem, Amadeu Carvalho – “Riso e Poder. Uma abordagem teórica da caricatura política”. In: Revista de História das Ideias, Vol 28, 2007, p.697-721.

55

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.342.

56

Chagas, João – Diário II 1915-1916-1917. Lisboa: Edições Rolim, p.225.

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A sua rectidão de alma e reconhecimento pela generosidade dos outros, mais do que porventura o receio de represálias, levam-no a calar o conhecimento do golpe de Sidónio. Este facto é assinalado com destaque pela sua mulher: “Quando foi a revolução do Sidónio?... O movimento rebentou durante a noite, mas, na tarde anterior, um oficial sidonista veio a nossa casa para prevenir o meu marido que fugisse (...). «Não convém que o doutor esteja em casa, podem querer enxovalhá-lo». E lá foi, de consciência aliviada. Daí a pouco chegou o meu marido, e eu contei-lhe. Pois ele podia denunciar a revolução que ia rebentar, não senhor, não o fez: isso era pagar aquela bela acção com uma traição ao amigo e adversário que se preocupara com a sua vida”57.

A sua carreira política ainda vai conhecer a época presidencial de Agosto de 1919 a Outubro de 1923, sendo o único presidente da Primeira República a cumprir integralmente o mandato. Este período de glorificação e de renovo da popularidade é marcado por uma pesada instabilidade social e política, em que pontua o episódio negro da Noite Sangrenta. Belém não atrai o estadista, preferindo este a privacidade e aconchego do seu palacete na Avenida António Augusto de Aguiar. Só visitava o palácio presidencial duas vezes por semana e em cerimónias oficiais58. Esta rotina, avara em deslocações, deve-se, provavelmente, à sua saúde precária. Mas o mandato presidencial guardava-lhe algumas alegrias, entre as quais se destaca a viagem ao Brasil no âmbito das cerimónias comemorativas do centenário da independência, digressão de Estado já pensada desde o tempo do rei D. Carlos59. Os seus discursos arrebatadores cativam as audiências ao longo da estada por terras de Vera Cruz e levam a que alguém exclame: “Vá-se embora, senhor Presidente, depressa, senão o Brasil perde outra vez a independência!”60.

57

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 41.

58

Vital, Fontes – Ob. Cit., p.111-112.

59

Vital, Fontes – Ob. Cit., p.118.

60

Vital, Fontes – Ob. Cit., p.122.

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Outras alegrias e vitórias materializam-se na epopeia de Gago Coutinho e Sacadura Cabral e na cerimónia de trasladação dos soldados desconhecidos para a Batalha.

António José de Almeida na companhia de Guerra Junqueiro. Museu da Presidência da República. [em linha] 27/04/2011. Disponível em http:// www.museu.presidencia.pt/presidentes_rep.php?id=26&IMG=3609&PAGE=1

A resistência do estadista aos padecimentos morais e físicos revela a têmpera do homem. Vítima de longa data de artritismo gotoso e de doenças oportunistas associadas ao seu estado de debilidade física, experimentou curas termais e tratamentos dentro e fora de portas, mas tudo em vão, face ao desconhecimento médico da etiologia e tratamento da maleita. Pode-se presumir que a dieta alimentar tenha contribuído para a instalação e agravamento gradual da doença, sinal de que temos indícios na frequência de crises hepáticas. Várias são as referências ao seu estado precário de saúde, aos recolhimentos forçados (que o levam, por exemplo, a falhar as cerimónias fúnebres, em 14 de Julho de 1923, do escritor Guerra Junqueiro61) às visitações antigas e regulares a estâncias termais (nas termas de Vichy, em 1904; nas de Baden-Baden, em Outubro de 190962; nas Termas da Curia, em Setembro de 191063; a partida para as Termas de Dax, no Sud Express, a 20 de Setembro de 192564...), à

61

Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol IV, p.315.

62

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.194.

63

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.194.

64

Tarde, 645, 19/09/1925; 650, 25/09/1925.

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consulta de especialistas internacionais (caso do Dr. Goldscheider65, no Sanatório de Bad-Nauheim, em 1928, ou do Dr. Azuero66, em San Sebastien, em 1929), ao seu corpo envelhecido prematuramente, ao “caminhar vacilante”, como se de um ancião se tratasse, até a doença lhe incapacitar por completo o movimento. O termo do quadriénio presidencial constituiu a última gota de água em matéria de resistência e o seu corpo esvaído soçobrou de vez à doença. A exaustão do tribuno popular arrasta-o para um calvário de uns longos sete anos; na expressão de sua mulher que foi a sua enfermeira privativa – “sete anos de agonia”67. Ainda foi eleito Grão-Mestre do Oriente Lusitano para o triénio de 1929-32, cargo de que nunca tomou posse. O seu reingresso no jornal a República, de que foi fundador, prometido na cerimónia de despedida da imprensa no Palácio de Belém, também não se veio a concretizar68, assim como o sonho de vir a representar a Nação na qualidade de embaixador em terras do Brasil69. A morte, em família, chega, sem surpreender, na madrugada de 31 de Outubro de 1929, contava António José de Almeida apenas 63 anos. O eco da sua morte comove a nação, acentuando a histórica chaga da orfandade e, neste contexto de espanto e dor, mitifica-se o último acto de vida ao atribuir-se-lhe frases lapidares e consensuais. O povo, sempre o povo, essa poderosa mole humana sem rosto, acolhe nas ruas o féretro do tribuno da República e, anos mais tarde, desemboca, qual rio caudaloso, junto ao monumento que lhe foi erguido na Avenida com o seu nome, como quem vem selar uma aliança inquebrantável e imorredoura.

65

Torgal, Luís Reis – Ob. Cit., p.196

66

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.373-74.

67

EVA, 1000, Maio de 1955, p. 42.

68

Almeida, António José de – Ob. Cit, Vol IV, p.312.

69

Martins, Rocha – Ob. Cit., p.367.

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BIBLIOGRAFIA Agostinho, José – Galeria Republicana: Dr António José d’Almeida. Lisboa: Biblioteca Democrática, 1906. Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol I. Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol II. Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J Ro drigues & Cª, 1933-34, Vol IIII. Almeida, António José de – Quarenta Anos de Vida Literária e Política. Lisboa: J Rodrigues & Cª, 1933-34, Vol IV. Azevedo, Manuel Roque – “Inquérito sobre o Partido Republicano Evolucionista (1912-1919)”. In: Nova História – 1ª República Portuguesa, 1984, 2, p.74-122. Chagas, João – Diário I 1914. Lisboa: Edições Rolim, 1986. Chagas, João – Diário II 1915-1916-1917. Lisboa: Edições Rolim. Chagas, João – Diário III 1918. Lisboa: Edições Rolim, 1987. Derouet, Luís – Duas Pátrias: o que foi a visita do Sr. Dr. António José de Almeida ao Brasil. Lisboa: Soc. Ed. O Mundo, 1923. Ferrão, Carlos – A Obra da República. Lisboa, Editorial Século, 1966. Ferreira, David – “António José de Almeida”. In: Dicionário de História de Portugal, Vol I, p.114-115. Gonçalves, Maria Neves Leal – “A greve Académica de 1907. Suas repercussões políticas e educacionais”. In: Revista Lusófona de Educação, 2007, 9, p.61-84. Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira, “António José de Almeida”, Vol III, p.35-36. Homem, Amadeu Carvalho – “Riso e Poder. Uma abordagem teórica da caricatura política”. In:Revista de História das Ideias, Vol 28, 2007, p.697-721. Leal, Ernesto Castro – “António José de Almeida”. In: História de Portugal A República I (dir. João Medina), 1996. Amadora: Clube Internacional do Livro, p.218-222. Madureira, Joaquim – Caras Amigas (Gente Limpa). Lisboa. Antiga Casa Bertrand, 1898, p.35-59. Martins, Rocha – Vermelhos, Brancos e Azuis: homens de Estado, homens de armas, homens de letras. Lisboa: Vida Mundial, 1948-1951, Vol II. Marques, A H do Oliveira – “António José de Almeida”. In: Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e da Teoria Literária, 1977, Vol I, p.151-152.

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Ramos, Rui – História de Portugal A Segunda Fundação (1890-1926), 1994, Vol VI. Círculo dos Leitores (dir. de José Mattoso). Reis, Luís da Câmara – Vida Política. Lisboa: Tipografia Mendonça, 1912. Rosa, Álvaro Barros – Médicos portugueses notáveis fora da medicina: António José de Almeida: Soc Ind. Farmacêutica, 1965. Santos, Fernando Piteira – “António José de Almeida o tribuno da República”. In: História, 1979, 12, p.60-65. Torgal, Luís Reis – António José de Almeida e a República: discurso de uma vida ou a vida de um discurso. 1ª Edição. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005, 255 p. Valente, Vasco Pulido – “Moderados e Radicais na I República: da conciliação ao terror (Outubro de 1910- Agosto de 1911)”. In: Análise Social, 1975, 42-43, p.232-265. Vital, Fontes – Servidor de Reis e de Presidentes. 1ª Edição Lisboa: Edição Marítimo-Colonial, 1945, p.111-123. Wheler, Douglas – História Política de Portugal 1910-1926. Mem Martins: Publicações Europa-América, sd, 342 p.

Manuel Teixeira Gomes (Museu da Presidência da República)

Miguel Dias Santos Doutorado em História Contemporânea pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Professor do Ensino Secundário e Investigador do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra.

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o dissecar o perfil psicológico de Manuel Teixeira Gomes, os seus principais estudiosos oferecem-nos uma visão interpretativa que se submete invariavelmente a categorias mitológicas e filosóficas da antiguidade1. A sua vida privada seria assim ditada por uma espécie de compromisso dialéctico entre a virtude e o prazer, o seu espírito serpenteava entre os devaneios de Eros e as exigências da Polis. Na conjugação destas duas esferas, o privado e o público surgiam como duas faces da mesma moeda: Teixeira Gomes ora se estreitava dentro dos cânones do mais acendrado estoicismo, cumprindo os deveres impostos pela família e pela pátria, ora se dilatava no mais desenfreado epicurismo, excessivamente boémio e voluptuoso. Na contemplação do esteta, na ebulição do artista apolíneo, perfilava-se afinal a submissão ao festim dionisíaco que se contemplava magistralmente na sua obra, em simples divagações estéticas ou no amor à vida que sempre apregoou. Não foi o próprio Teixeira Gomes quem, no final da vida, anunciou gloriosamente que não teve “uma hora de aborrecimento”2? Enquanto realidade histórica, a vida privada de Manuel Teixeira Gomes atravessou parte de dois séculos distintos, que conheceram formas divergentes de relacionar a esfera do privado com o domínio público. Na burguesia europeia da segunda metade do século XIX, a que pertencia a família Teixeira Gomes, existia um “muro na vida privada” que separava os dois domí-

1

Leia-se Rodrigues, Urbano Tavares – M. Teixeira-Gomes: O Discurso do Desejo. Lisboa: Edições 70, 1982; Idem – “Da Memória e do Desejo”. In JL, jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: ano XI, n.º 485, 22-10-1991; Seabra, José Augusto – “Manuel Teixeira Gomes: entre Eros e a Polis”. In JL, jornal de letras, artes e ideias. Lisboa: ano XI, n.º 485, 22-10-1991. 2

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos. 4.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 217. Escreveu então: “Basta dizer que não tive, nesta minha já tão longa vida, uma hora de aborrecimento. Sofrimentos, desgostos, arrelias, sim; o tédio, o fastio do ocioso mandrião, nunca experimentei”.

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nios, demarcando esta dimensão pessoal, centrada na família, nos negócios e nas crenças, da esfera pública3. O século XX operou uma transformação nas relações sociais, impondo a opinião pública e os meios de comunicação de massas que lentamente foram diluindo as barreiras do privado. Manuel Teixeira Gomes pertenceu ao universo dos homens “públicos-privados”, categoria resultante da visibilidade pública que certas actividades, como a política, emprestaram às personalidades que passaram a estar sujeitas ao escrutínio apertado da opinião e ao espectáculo da política4. A sua vida constitui um exemplo paradigmático destas transições epocais, em que a opinião pública se vai apropriando do privado, num assalto voraz ao refúgio da intimidade, em busca de escândalos e segredos. No caso de Teixeira Gomes, a exposição da vida privada transformou-se a certa altura num imperativo de consciência. Se nos primeiros livros, como Inventário de Junho (1899), Cartas sem Moral nenhuma (1903) e Agosto Azul (1904) já se desvendam janelas para a vida privada, a obra produzida no exílio carrega toda uma feição autobiográfica deliberada e consciente. Através dos escritos desse período, marcados pela forma epistolar, acedemos aos seus pensamentos mais íntimos e penetramos nos estados de alma que os humores e a vida vão tecendo. Entre as mais eclécticas e erráticas divagações, o escritor conduz-nos às delícias dos pequenos e grandes prazeres, aos gostos e preferências, ao mais esconso da sua vida mundana. Os estudiosos da sua obra encontram o caminho aplanado por páginas de verdadeira sementeira literária, enquanto os interessados na vida privada podem colher nas abundantes referências autobiográficas. Mesmo o perfil psicológico encontra em páginas avulsas de introspecção campo fértil para o historiador interessado nos traços de espírito: personalidade forte e determinada, e em alguns casos obstinada, revela um carácter recto, solidário e tolerante. Como explicar esta “fúria epistolar”, supostamente concebida para aliviar as feridas da solidão intelectual de um exílio auto-imposto em 19255? Como analisar este exacerbado exercício introspectivo fora das elucidações simplistas que nos legou o próprio escritor, que o atribuiu à satisfação “plena” do “ego-

3

Prost, Antoine – “Fronteiras e espaços do privado”. In: ARIÈS, Philippe; Duby, Georges – História da Vida Privada. 1.ª edição. Porto: Edições Afrontamento, 1991, vol. 5, p. 15. 4

Idem, Ibidem, pp. 149-150.

5

Gomes, Manuel – Miscelânea. 3.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 40.

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ísmo” e da “preguiça”6? Uma explicação possível pode encontrar-se nos resquícios da sua vida política, nos severos julgamentos da praça pública. Importa recordar que a vida política dessa época distante estava sujeita à luta encarniçada das facções partidárias, que não se coibiam de cobrir os adversários políticos com as mais aviltantes calúnias e com os mais soezes doestos. O boato e a calúnia faziam as delícias das turbas políticas e Manuel Teixeira Gomes, já na presidência da república, recebia “quase diariamente” cartas anónimas que “eram francamente insultuosas para mim, ou para os meus supostos inimigos”7. O antigo presidente desvalorizou então a sua importância, mas estaria a ser sincero? Escreveu ele anos mais tarde: “As cartas anónimas recheadas de ameaças e insultos a meu respeito pouco ou nada me interessavam, pois eram de uma monotonia lúgubre”8. Apesar desta abordagem aparentemente descontraída e desinteressada, as ditas cartas estavam recheadas de acusações nodosas sobre a vida privada dos visados, desde “burlas” e “trapaças” até aos “ramo das perversões sexuais”. Algumas destas difamações, como veremos, penderam sobre Teixeira Gomes como a espada de Dâmocles9. No seu caso, haveriam os caluniadores de propalar que as aleivosias eram inventadas pelo próprio presidente da república, com o objectivo de se “tecer uma lenda de imperador romano”10. Esta intensa e encarniçada campanha política, que Teixeira Gomes explica ironicamente com “os ódios” inusitados que se levantaram contra a sua actuação presidencial11, justificam o desencanto que a sua passagem pelo “cativeiro” político provocou – os “quinze anos de serviço abominável”12. Ele escreverá a

6

Idem, Ibidem.

7

Gomes, Manuel Teixeira – Carnaval Literário. 3.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, 1993, p. 124. 8

Idem, Ibidem, p. 125.

9

Idem, Ibidem.

10

Idem, Ibidem, p. 18.

11

Idem – Agosto Azul. 4.ª edição. Venda Nova: Bertrand Editora, 1986, p. 114. Escreveu Teixeira Gomes: “[…] eu, sem ter feito nada, nem de bom, nem de mau – limitei-me ao estrito cumprimento das minhas obrigações de mestre-sala – , levantei, no meu país, contra mim, os ódios que só costumam inspirar os grandes benfeitores da Humanidade (com H grande)”.

12

Gomes, Manuel Teixeira – Carnaval Literário, cit., p. 100.

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propósito que o seu “recente passado de escravo” raramente o importunava: “até a lembrança dos dias da Presidência raro me acode à memória, e, se isso sucede, logo a repilo [sic] com tédio, como se tratasse de extenso lodaçal, que atravessei milagrosamente sem nele me afundar”13. Apesar do conforto aparente, a sua obra está pejada de referências negativas sobre a tempestuosa passagem pela presidência da república. Não erraremos muito afirmando que no seu espírito ficou a mágoa imposta pelos vilipêndios e pela campanha de difamação que se abateu sob a sua vida pessoal. Teixeira Gomes não escondeu então a sua repulsa pela política e pelos políticos portugueses14. Adivinhava-se por isso a necessidade (mesmo que apenas subconsciente) de (re)construir a sua imagem de homem privado, de aproveitar a trombeta de Clio para se revelar às gerações vindouras. Foram, aliás, razões de idiossincrasia pessoal, mais do que o seu “precoce” republicanismo15, cultivado depois na companhia de Brito Camacho e da Luta, que ditaram a sua incursão política. A sua aparição como homem público da república deu-se em 1911, quando Bernardino Machado, ministro dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório, o nomeou para o cargo de ministro plenipotenciário em Londres. Já então as suas qualidades pessoais – era fluente em quatro línguas estrangeiras16 –, juntamente com o “seu talento literário” e a “elegância das suas maneiras e da agudeza do seu espírito de homem viajado” pareciam indicá-lo para o cargo17. Os seus predicados para o posto foram assim comentados por João Chagas, que o conhecera no Porto no período boémio de 1880: “Fui eu o primeiro homem que em Portugal

13

Ibidem, p. 101.

14

Na verdade, havia um misto de repulsa e de admiração: “Com tal gente, é dificílimo trabalhar em concerto, ou desenvolver cooperação seguida; as suas paixões e ódios pessoais sobrelevam até o sentimento do próprio risco, mesmo quando esse risco é de morte, e tudo esquece para dar satisfação aos seus rancores, e às suas vaidades. Porém, a par de tantos defeitos, como são admiráveis as suas qualidades! Que entusiasmo espontâneo e fácil, que formidável ímpeto no primeiro arranco, que delírio no início das empresas; que assombrosas entradas de leão, enfim!” [Miscelânea, p. 50]. 15

Cf. Miscelânea, p. 50.

16

Teixeira Gomes era fluente em castelhano, francês, italiano e inglês.

17

Teria sido nestes termos que Brito Camacho o apresentou a Bernardino Machado. Cf. Leal, Cunha – Coisas de Tempos Idos – As Minhas Memórias. Lisboa: Edição do Autor, 1967, vol. II, p. 445.

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lembrou este Teixeira Gomes para diplomata. Quando veio a República, era tão pequeno o número de pessoas de boas maneiras ao seu serviço, que eu lembrei-me dele, posto o não visse há muitos anos, por ter ideia de que era um rapaz inteligente, artista, ou vagamente artista, um pouco poseur, o que não prejudicava o caso e que não se arranjava mal” 18. A partir desse momento teve início uma vasta “campanha ignóbil de cafés” contra o substituto de Soveral na capital inglesa e que este atribuiu à proverbial inveja portuguesa: “Eu suponho que era porque comia no melhor hotel de Londres, o Carlton, e tinha o melhor cozinheiro do mundo, que fazia comida especial para mim. E admiravam-se de algumas vitórias fáceis que consegui”19. As animosidades não se encontravam apenas nos cafés e chafaricas. Aparentemente, e apesar da nomeação, Bernardino Machado “não gostou dele” por “lhe parecer impertinente, ou desrespeitoso”20. Manuel Teixeira Gomes retribuiu o desprezo, acusando-o em algumas ocasiões de perseguição e apodando-o de “desavergonhado histrião” e “troca-tintas” enquanto chefe de governo. Bernardino era para ele um “trapalhão que se em vez de traficar em política negociasse em qualquer ramo do comércio não obteria crédito de um pataco por parte de pessoa que se prezasse de ser honrada”21.

18

Chagas, João – Diário I. Lisboa: Edições Rolim, 1986, p. 169.

19

Lopes, Norberto – O Exilado de Bougie: perfil de Teixeira Gomes (com um estudo de João de Barros). Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1942, p. 246-247. 20

Chagas, João – ob. Cit., p. 169. Segundo João Chagas, “o amor-próprio de Bernardino não suporta aparências altivas”. Cunha Leal revela afirmações de Bernardino que comprovam esta animosidade: “Tanto insistiram comigo que acabei por recebê-lo. Confesso que não desgostei da criatura. Dias depois, sem se fazer anunciar, entrou pelo meu gabinete dentro. Achei que era demasiado à vontade para tão pouco trato anterior. Por isso, o detive a meio do caminho com um gesto imperativo da minha mão direita, ao mesmo tempo que lhe dizia com o melhor dos meus sorrisos: “Oh meu caro Teixeira Gomes, gostei tanto da nossa primeira conversação que lhe peço o favor de não mais se me dirigir sem prévia marcação de audiência, para que eu não sofra o desgosto de me ver, como agora, privado de recebê-lo por causa de negócios urgentes que tenho de estudar e despachar. Enfim, acabei por promovê-lo no ambicioso posto […]” [ob. Cit., p. 445-446].

21

Gomes, Manuel Teixeira – Correspondência I – Cartas para Políticos e Diplomatas (colectânea, introdução e notas de Castelo Branco Chaves). Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 164, carta a Brito Camacho, de 15-05-1915.

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O Ministro Plenipotenciário de Portugal em Londres, pouco tempo antes de ser eleito para a Presidência da República. In Canaveira, Luís Filipe – Manuel Teixeira Gomes…, p.75.

A eleição presidencial de Teixeira Gomes ilustra bem o papel que representava a esfera privada na elaboração da imagem pública, e do seu significado na luta político-partidária. Em 1923, a doença de António José de Almeida obrigava o regime a seleccionar novo candidato presidencial. Vários nomes foram equacionados para o cargo, como Teófilo Braga, Magalhães Lima, Duarte Leite ou António Luís Gomes. O Mundo, dirigido então por Urbano Rodrigues, fez campanha por Teixeira Gomes, enquanto este hesitava argumentando com a “falta de conhecimento dos homens”22. Como se sabe, Teixeira Gomes aceitou ser candidato pelo Partido Democrático por sugestão de Afonso Costa, que residia então em Paris. Esta intromissão externa não foi bem vista por vários sectores do partido, que resolveram apoiar a candidatura de Bernardino Machado, a quem supostamente se devia uma “reparação por ter sido expulso por Sidónio Pais”23. Se o Mundo fazia campanha aberta a favor de Teixeira Gomes, a imprensa da época atacou-o ferozmente, estabelecendo-lhe o perfil e definindo-lhe as fraquezas. Na Capital, apesar do tom geralmente moderado deste periódico,

22

Rodrigues, Urbano – A Vida Romanesca de Teixeira Gomes: notas para o estudo da sua personalidade e da sua obra. Lisboa: Editora Marítimo Colonial, 1946, p. 202-203.

23

Idem, Ibidem; Leal, Cunha – ob. Cit., p. 359.

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a sua candidatura foi assim apreciada: “Temos, portanto, que, para se ser um presidente ideal, à altura da nossa situação especialíssima, é condição primordial ser irresponsável, absolutamente ignorante dos vitalíssimos problemas nacionais, inteiramente deslocado do nosso ambiente político – desnacionalizado, se quiserem – conhecendo de Portugal o que pode conhecer qualquer pessoa a quem este país não interesse”24. Esta suposta ignorância das coisas e dos homens públicos nacionais rivalizava afinal com o seu espírito dócil, com a sua vontade permissiva e interesseira, imagem que os conhecedores de Teixeira Gomes repelem imediatamente. Assim sendo, qual a origem deste retrato tão pejorativo e pouco cortês de um candidato a presidente da república? Os ataques políticos que Cunha Leal desferiu publicamente sobre o chefe de Estado poderão lançar alguma luz sobre esta questão. Cunha Leal foi talvez um dos mais ferozes adversários políticos de Teixeira Gomes no decorrer da sua presidência, entre 1923 e 1925. O Partido Nacionalista, que liderava, e que recusou apoiar a sua candidatura, colocando nas urnas 68 listas em branco25, nunca concordou com a forma como o presidente da república lidou com as diferentes crises político-militares, acusando Teixeira Gomes de apenas chamar ao governo figuras do Partido Democrático e ignorar as outras forças políticas presentes no Congresso26. No parlamento, Cunha Leal insis-

24

A Capital, ano 15, n.º 4445, 01-08-1923, p. 1. “O Sr. Teixeira Gomes não tem responsabilidade na nossa administração pública, não conhece o nosso problema económico-financeiro, ignora a questão religiosa e a questão social, está em branco a propósito do problema militar e naval – perdeu inteiramente o contacto com a opinião pública portuguesa, desconhece o estado actual do nosso ambiente político, ignora as tendências e os pontos de vista dos nossos estadistas; sabe que Portugal existe – porque o Algarve, de onde é oriundo, e onde tem a sua grande fortuna, é uma província de Portugal. […] O Sr. Teixeira Gomes amoldar-se-á, sem esforço, aos jeitos e trejeitos de quem quer que venha a orientá-lo; depois, com a garantia que exige para aceitar o sacrifício da presidência, de voltar para a legação de Londres logo que termine o mandato e com a choruda dotação que o parlamento votará a instâncias suas”.

25

No terceiro escrutínio, Teixeira Gomes teve 121 votos, Bernardino Machado 5 e contaram-se 68 listas brancas. Cf. Leal, Cunha – ob. Cit., p. 361.

26

Idem, Ibidem, p. 361 e ss. Em 1925, perante a ameaça de abdicação de Teixeira Gomes, Cunha Leal afirmou então no parlamento: “Para que a Câmara possa compreender nitidamente as atitudes do Sr. Presidente da República em relação ao Partido Nacionalista permita-me V. Exa. Sr. Presidente, que eu recorde o que se passou no dia em que S. Exa. foi eleito, faz hoje precisamente dois anos. O Partido Nacionalista, verificando, depois do segundo

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tiu sempre na ideia de que a recusa do presidente em convidá-lo para chefiar o governo se devia à existência das listas brancas, “foi o desejo de dar uma bofetada no Partido Nacionalista”27. Em 1925, quando a crise do sistema político-partidário estava ao rubro, com a ameaça de um movimento militar, que teria lugar a 18 de Abril, a pugna parlamentar tomou o presidente da república como alvo dos ataques e ironias de Cunha Leal. Este político aproveitaria a obra literária de Teixeira Gomes para desferir vibrante estocada na sua intimidade, sujeitando-o a um exame moral rigoroso: “Sr. Presidente: a todas as pessoas assiste o direito de ter gostos caprichosos. Recordo-me bem de certas páginas macabras de um livro que em tempos apareceu em Portugal, intitulado O Gosto Azul [sic], e em que o seu autor aludia a um homem já falecido, o Sr. Henrique de Vasconcelos, recordando certos passeios nocturnos com uma senhora sevilhana, procurando alguém que pudesse satisfazer os gostos complicados a essa dama. Na política é lícito ter gostos, repito, tão, complicados como na literatura. É lícito fazer fantasia, é lícito recordar as noitadas do Triana, o fumo dos cigarros e o perfume das cigarreiras. Em política tudo é lícito. Lícito é complicar um caminho e procurar emaranhá-lo, como pretende um homem de gostos complicados, que, tendo viajado por todo o mundo, não sabe já como há-de satisfazer as torturas da sua imaginação”28.

escrutínio, que a maioria democrática não desistia do fazer vingar a eleição do seu candidato, resolveu votar com listas brancas no escrutínio final. Fê-lo conscientemente, propositadamente, para afirmar um protesto e vincar uma atitude. Cumpria ao Chefe do Estado, depois de eleito, demonstrar pelos seus actos que as nossas apreensões eram erradas, que ele seria, na verdade, não o representante de uma facção, tudo comprometendo para defender os seus interesses, mas um Chefe de Estado que sabia impor-se ao respeito e à consideração de todos os portugueses. Não sucedeu assim. Os factos vieram demonstrar que os nossos receios eram cabidos, que o nosso protesto se justificava” [Diário da Câmara dos Deputados, sessão de 05-08-1925, p. 15]. 27

Diário da Câmara dos Deputados, sessão de 18-02-1925, p. 11: “O Sr. Presidente da República fez-nos, pura e simplesmente, engolir o marmelo cru do Sr. Vitorino Guimarães. O que houve, acima de tudo, foi o desejo de dar uma bofetada no Partido Nacionalista. Ah! Que bem tem pago o Partido Nacionalista as listas brancas com que votou o nome do Sr. Teixeira Gomes! A esse pagamento apenas conseguiu eximir-se o Sr. Álvaro de Castro! Ainda se fôssemos só nós a pagar o gesto que tivemos, bem estava, e eu por mim, pagá-lo-ia gostosamente. O pior é que o pagam, connosco, a República e a Nação”.

28

Diário da Câmara dos Deputados, sessão de 05-08-1925, p. 15.

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O livro Agosto Azul, objecto de várias referências políticas, servia de menu ao combate político, manobrado com profunda ironia por Cunha Leal – que o identificou como “O Gosto Azul” – para definir as excentricidades de Teixeira Gomes e provar sua a incompatibilidade com a dignidade do alto cargo que ocupava. Vale a pena transcrever outra pérola da prosa de Cunha Leal, que parte das “bizarras” concepções estéticas de Teixeira Gomes para estabelecer o seu perfil psicológico: “Conhecíamos, de resto, alguns trechos dos seus livros, que nos mostravam suficientemente as vertiginosas alturas por onde pairava a sua bizarra compleição artística, à busca de emoções inéditas, de sensações rafinées. Não, Sr. Presidente! Nem nós poderíamos compreender esse artista, nem ele nos compreenderia a nós. Votámos em listas brancas. Quer V. Exa. conhecer, Sr. Presidente, um trecho onde transparece, veladamente embora, o estranho temperamento artístico do cidadão que foi eleito há dois anos Presidente da República? Vem no Agosto Azul, a pags. XXV. Vou ler à Câmara: «Ora a ideia manifesta uma forma de sentir, uma percepção do mundo externo que deve ser, como ele, omnímoda, e então acode-me que o artista exclusivamente viril ou exclusivamente feminino, a quem falte o hermafroditismo intelectual suficiente para destrinçar as sensações e os sentimentos dos dois sexos e ainda idealizar o que seriam os sentimentos no estado andrógino integral, esse artista afirmar-se-á sempre incompleto e quase sempre banal». Ora nós consideramos o cidadão em causa como um artista completo!”29. Poder-se-á argumentar que este processo público de julgamento moral, carregado de insinuações, tem a legitimá-lo o facto de ter origem nos arrebatamentos insanos do confronto político-partidário, e no extremo revela a tacanhez e o canhestro do ambiente cultural e intelectual do país. Mas nas memórias de Cunha Leal, já distanciadas do ambiente febril do jogo político, ressumbram os mesmos severos juízos do retratado. Apesar de reconhecer o seu “grande talento literário que aflorava na sua conversa cintilante a atractiva”, Cunha Leal insistia em denunciar “aquelas desabusadas concepções filosóficas sobre o mundo, os homens e a vida que esmaltavam a personagem de Fradique Mendes, ideada por Eça de Queiroz”30. Esta evocação da célebre per-

29

Ibidem. Veja-se o trecho citado em Gomes, Manuel Teixeira – Agosto Azul. 4.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, 1986, p. 18-19.

30

Leal, Cunha – ob. Cit., p. 368.

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sonagem queirosiana é reveladora. Lembramos que Fradique Mendes surgiu da imaginação do ilustre autor da Correspondência de Fradique Mendes, que o definiu como “homem distinto, poeta, viajante, filósofo nas horas vagas, diletante e voluptuoso”31. Mais à frente, o antigo chefe nacionalista revelava como um qualquer Fradique Mendes não poderia servir o país com competência, apesar das suas elevadas “intenções patrióticas”: “Ele quis, sem dúvida, servi-lo, mas não soube fazê-lo, por isso que a aprendizagem para tanto teria de ser realizada em escola diversa daquela em que se fabricavam outrora os dandys do tipo de Byron ou, mais modestamente, de Fradique Mendes, que fora seu modelo em pleno desabrochar da mocidade”32. As digressões apreciativas de Cunha Leal, pese embora pretendessem depreciar, retirando profundidade intelectual e artística ao visado, não distavam totalmente do perfil traçado na época pelos principais estudiosos de Teixeira Gomes. Para Norberto Lopes, “Teixeira Gomes foi o verdadeiro tipo de diletante. Diletante em tudo: nos estudos, na vida, nas letras, na política. Tinha maneiras aristocráticas, hábitos fidalgos. Foi um epicurista. Fumava cachimbo. Bebia champanhe”33. À luz de tais considerandos, a vida privada de Manuel Teixeira Gomes ganha um lustro de interesse renovado, para o público e para o historiador. Aparentemente, o estudo da sua vida privada e a definição da sua personalidade aparecem facilitados pela existência de uma obra diversificada que os mais reputados especialistas também classificam de autobiográfica34. Mas o historiador interessado nas minudências da vida privada, que vão do quotidiano à mais recôndita intimidade, esbarra por vezes em contingências insuperáveis. Em primeiro lugar, as fontes. Os “lugares da memória” da vida privada encontram-se nos diários íntimos, na correspondência, nas memórias e autobiografias. Mas estas são “fontes pletóricas,

31

Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins, de 10-06-1885, in Queiroz, Eça de – Correspondência. Amadora: Ediclube, s/d, p. 116.

32

Ibidem, p. 445.

33

Lopes, Norberto – ob. Cit., p. 59.

34

Cf. Rodrigues, Urbano Tavares – M. Teixeira-Gomes: O Discurso do Desejo. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 22-23. Escreveu este autor: “Se há na literatura portuguesa dos fins do século XIX e começos do XX escritor em cuja obra, múltipla e diversificada (que vai do louvor e do hino à beleza à acentuação do grotesco, à abertura ao fantástico), se manifeste e orgulhosamente se afirme uma personalidade excepcional, essa é bem a de M. Teixeira-Gomes”.

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lacunares, indispensáveis, muitas vezes duvidosas”35. Como observa Gerard Vicent, “ousou já alguém escrever a sua vida privada, sem coisas silenciadas, sem exibicionismo? Sem recuar perante confissões que põem terceiros em causa, com risco de represálias? Ninguém, pensamos”36. Veja-se o caso de Regressos, onde Teixeira Gomes compõe uma autêntica romaria pela memória, (re)construindo uma vida de boémia e luxúria que se encontra em revelações sobre a primeira namorada, a primeira experiência sexual ou numa síntese da vida de uma boémia jactante de diplomatas, como Cranneville, a “personificação da insolência”: “Jantámos juntos e levámos a noite, até manhã, a correr os três b: barracas, botequins e bordéis. Na cervejaria da Trindade, o Cranneville, já bastante bêbado, para estontear o gerente, desvenda-lhe o seu incógnito sem produzir grande impressão. O gerente é boémio e apresenta-nos a mulher, criatura loira e lunar, com uma testa de requeijão”37. Os textos autobiográficos de Teixeira Gomes revelam a justeza das reflexões de Gerard Vicent, pois as suas divagações pela memória individual são muitas vezes anunciadas com limitações autojustificadas pela moral social e pelo perigo das inconfidências. Foi o que aconteceu, por exemplo, com o período da sua “Boémia diplomática”, ocorrida em Lisboa aí por 1895, quando o escritor avisa que as suas narrações não serão feitas “com a liberdade que teria se o redigisse daqui a cem anos”38. No fim desse capítulo dos Regressos, Teixeira Gomes voltaria a insistir nesses estrangulamentos compulsivos da memória, evocando “cenas e imagens que se viessem a público melindrariam muita gente […]. Feitas bem as contas concluí que nem a literatura nem a história perderiam coisa alguma com a supressão dessas passagens, e rasguei os capítulos que as continham”39. Mas então, como interpretar as divagações autobiográficas de Teixeira Gomes? É o próprio escritor quem imprime

35

Vincent, Gerard – “Uma história do Segredo”. In: Ariès, Philippe, Duby, Georges – ob. Cit., p. 162.

36

Idem, Ibidem. Para este historiador, “o indizível não é o que o código social condena ao silêncio. O indizível procede igualmente do acto de escrever, «tradução» aproximativa, empobrecedora da «vida interior»”. 37

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos. 4.ª edição. Lisboa: Bertrand Editora, 1991, p. 204.

38

Idem, Ibidem, p. 152.

39

Idem, Ibidem, p. 214.

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a dúvida no rescaldo das erráticas reminiscências, revelando-se por um lado “cuidadoso em esconder e sepultar as fezes do espírito”40, e assumindo-se por outro com a clarividência de “um fanático da ilusão!”41. Produzidas tais reflexões, que avisam o leitor para a precariedade das considerações e desocultações que vão tecer-se em torno da vida privada de Manuel Teixeira Gomes, iniciamos esta deambulação prospectiva analisando as questões da família e da sua vida íntima. Teixeira Gomes nasceu no seio de uma família burguesa, a 27 de Maio de 1860, filho de José Libânio Gomes Xavier e Maria da Glória Teixeira. Teve três irmãos, duas raparigas mais velhas, Ana e Maria da Glória, e um rapaz mais novo, José.

Teixeira Gomes aos 5 anos de idade com as suas irmãs.

Aos 12 anos, aluno do Seminário de Coimbra.

In Canaveira, Manuel Filipe – Manuel Teixeira Gomes. Fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, pp. 17 e 22.

40

Idem, Miscelânea, cit., p. 96.

41

Idem – Londres Maravilhosa. 2.ª edição. Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 110.

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Portugal vivia então um período de construção de uma sociedade burguesa, depois do período tenso e agitado das invasões francesas e das lutas liberais, onde o seu avô paterno, Manuel Gomes Xavier de Ataíde, teve grande protagonismo. Foi alferes da Legião Lusitana, combateu os invasores franceses e aderiu ao liberalismo, tendo sido preso por ordem de D. Miguel e encarcerado no Limoeiro, onde viria a morrer. O pai emigrou para a França, em 1845, para aprender com um negociante de figos secos, de Rouen, as “as artes do comércio”42. Regressado a Portugal, viria a criar a sua própria empresa de comércio de figos, que depressa se destacaram pela qualidade do produto, sendo premiado em diferentes certames internacionais43.

Os pais de Manuel Teixeira Gomes, José Libânio Gomes Xavier e Maria da Glória Teixeira. In Agosto Azul [em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://agostoazul.wordpress.com/?pages-list

Nascido em família abastada, o pequeno Manuel viveu numa casa “alegre e espaçosa”, com o conforto próprio das vivendas da burguesia da época44. As

42

Ventura, Maria da Graça Mateus – “A família de Manuel Teixeira Gomes”. Disponível em URL:http//www.AgostoAzul.wordpress.com.

43

Idem, Ibidem, nomeadamente na Exposição Internacional de Londres (1851) e na Feira Internacional de Paris (1855).

44

Cf. Nunes, António Joaquim – Da Vida e da Obra de Teixeira-Gomes. Lisboa: edição do autor, 1976, p. 13.

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suas evocações apaixonadas de Portimão e de Ferragudo revelam uma infância feliz, no contacto com as graciosas e solarengas paisagens da costa algarvia. O mar era então o centro do seu mundo, pois terá passado “metade da mocidade metido em água salgada”, de onde saía para “secar o corpo nu ao sol” 45 . Entre os passeios pela praia, os aniversários à beira-mar e, já adulto, as múltiplas excursões a Lagos46, o Algarve ressoa nas suas memórias em quadros pitorescos que retratam a natureza na sua pureza original, intocada, dominada pela luz do sol e pelo azul do céu. À falta de outros monumentos, Teixeira Gomes evocou nas suas memórias as paisagens que constituíram as delícias da sua infância e juventude, desse “paraíso” que mais tarde a “indústria (aliás tão louvável e proveitosa) da conserva de peixe, ter empestado essa região”47.

Casa onde nasceu e viveu Manuel Teixeira Gomes, hoje Casa-Museu Manuel Teixeira Gomes. Alberga um importante fundo bibliográfico local e o espólio pessoal do político e escritor Manuel Teixeira Gomes. In Google Imagens [em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://portimaomonchiqueonline.blogspot.com/2008/02/casa-museu-manuel-teixeira-gomes_18.html

45

Gomes, Manuel Teixeira – Cartas a Columbano. 3.ª edição, Lisboa: Bertrand Editora, 1989, p. 88-89. 46

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos. Ob. Cit., p. 141 e ss.

47

Idem, ibidem, p. 86-87. A descrição do Algarve encontra-se a páginas 83-98.

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Uma das preocupações nodais de todas as famílias burguesas passava pela transmissão do negócio, numa época em que predominava a empresa de tipo familiar. A instrução era entendida pela sociedade burguesa de Oitocentos como essencial ao progresso económico e ao desenvolvimento moral do indivíduo. Garantia a sucessão empresarial e perfilava-se como um novo instrumento de mobilidade e ascensão social, o que em Portugal implicava muitas vezes a formação universitária. Isto explica talvez que José Libânio tenha confiado a educação do filho ao rígido seminário de Coimbra, instituição rigorosa no domínio dos espíritos rebeldes. Seguir-se-ia a Universidade, para cursar medicina. O objectivo de José Libânio encontrou a resistência do espírito independente e anárquico de Teixeira Gomes, que passou os anos da juventude entre a Boémia de Coimbra, Lisboa e Porto, e o serviço militar, cumprido nesta última cidade. Neste período de “experiências lírico-sensuais”, Teixeira Gomes frequentou cafés, “pensões manhosas”48, teatros49 e prostíbulos50. O resultado desta primeira peregrinação hedonista, marcada muito especialmente pela “miséria” e pela “fome”, foi o regresso a Portimão: “Mas a lição dessa vida de privações e desordem frutificou na firme resolução de a abandonar, e tentar a dura cruzada da independência económica”51. Tornou-se por isso comerciante de figos. O seu pai formara em 1891 uma sociedade comercial que funcionava no contexto do Sindicato de Exportadores de Figos do Algarve. Manuel Teixeira Gomes tinha como função colocar os produtos no mercado exterior, o que o obrigava a viagens constantes para França, Bélgica e Holanda. Desfeita a sociedade ao fim de três anos, a empresa familiar continuou no negócio, com Manuel empenhado na expansão da actividade, lançando as suas próprias marcas52 e introduzindo novos produtos, como o mel. Mais tarde, com a morte dos pais, Teixeira Gomes herdaria toda a mercancia e as propriedades de família e, “comprando mais”, tornou-se “lavrador abastado”53.

48

Cf. Rodrigues, Urbano Tavares – ob cit., p. 25.

49

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos, cit., p. 160.

50

Ibidem, p. 182.

51

Idem – Miscelânea, ob. cit., p. 98.

52

Cf. Lopes, Norberto – ob. Cit., p. 59-60.

53

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, ob. Cit., p. 141 e ss.

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Viajante e negociante dos produtos do Algarve. In Agosto Azul [em linha] Agosto de 2010. Disponível em http://agostoazul.wordpress.com/?pages-list

A tradição burguesa de Oitocentos, sujeita a rituais estabelecidos e a um rígido código de conduta moral, prescrevia o casamento como organização de enquadramento dos indivíduos na sociedade. Ser bem sucedido e abastado pressupunha organizar a vida a dois para procriar e educar os filhos, aumentar o património e garantir as condições necessárias à sua transmissão54. No caso de Teixeira Gomes, a aceitação das convenções sociais significava contrariar o seu espírito independente e o ideal de liberdade que sempre professou, e traduzia afinal uma ruptura com um passado de aventura e boémia. Como interpretar, neste contexto, a sua súbita relação com Belmira das Neves, uma jovem filha de pescadores, que tinha cerca de metade da sua idade, e de quem viria a ter duas filhas? A referência a uma paixão, indicada por várias fontes, parece conformar-se com o espírito de Teixeira Gomes, mas contradiz a moral burguesa, para quem o casamento era essencialmente um contrato de implicações jurídicas e patrimoniais onde o sentimento teria um

54

Cf. Prost, Antoine – ob. Cit., p. 87.

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lugar secundário. Os historiadores têm dificuldade em precisar o papel dos afectos conjugais no casamento, mas a norma social não fazia do amor uma condição para o sucesso da relação. Em França, pelo menos, só a partir da década de 30 do século XX a dimensão afectiva terá começado a assumir um papel central nos casamentos, enquanto aumentava o número de famílias informais55. No caso de Teixeira Gomes e Belmira das Neves, a relação terá começado como um “devaneio” de amor, devido aos “dotes físicos que atraíram o janota portimonense” e “nunca para se ligar por paixão a uma família de condição modesta”56. Mas se as diferenças sociais constituíam um entrave efectivo ao enlace matrimonial, parece-nos, todavia, que é na idiossincrasia de Teixeira Gomes que reside a chave da sua intimidade e desta relação. Com efeito, habituado à boémia e à luxúria, ao ambiente de sedução e às relações amorosas fortuitas, nada indiciava uma concessão repentina ao casamento no sentido convencional da época. Mesmo vivendo em união de facto com Belmira, por quem parecia nutrir verdadeiro afecto, Teixeira Gomes continuou durante alguns anos a ter relacionamentos amorosos com outras mulheres. Veja-se os relatos em forma de bosquejo diarístico que estão publicados no Carnaval Literário referentes à sua passagem por Lisboa, em 1905. Para além do convívio com alguns amigos dos círculos intelectuais, como Fialho de Almeida ou Correia de Oliveira, o escritor deixa perceber uma relação íntima com uma mulher identificada apenas como B57. Este comportamento rompia com as ideias que circulavam na segunda metade do século XIX, segundo as quais o casamento era o meio mais favorável a um “regime sexual” moderado e saudável. Lembramos que neste período predominavam as “mitologias de hereditariedade”, carregadas do medo dos grandes “flagelos sociais”, como a sífilis, a tuberculose e o alcoolismo, que exigiam comporta-

55 PROST

, Antoine – ob. cit., p. 87-91.

56 57

Nunes, António Joaquim – ob. Cit., p. 34.

Gomes, Manuel Teixeira – Londres Maravilhosa, p. 83-98. Eis alguns trechos: “24. Dia lindo. Vou levar a B. a casa da tia e depois venho à livraria encontrar-me com o Fialho que ficou revendo as provas da Londres Maravilhosa para a Vida e Arte. […] Fui buscar a B., jantámos no Tavares, depois fomos à livraria onde conversámos com o Fialho, passeámos na Avenida, fomos à cervejaria da Trindade e às 11 horas estávamos em casa” [p. 88-89]; “Maio (1905) 6 – Dia lindo. Descemos a rua do Alecrim alegremente porque dormimos muito bem – a B. e eu – e encontrámos ao fim da rua Sara da M. V. que eu reconheço...” [p. 98].

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mentos regrados e controlados pela família. Uma máxima da época considerava que “O leito conjugal é o altar das celebrações legítimas”58. Parece que a interpretação historiográfica não pode furtar-se ao óbvio: Manuel Teixeira Gomes não tinha vocação para abordar a família no sentido tradicional. Mas não se depreenda daqui o total desinteresse pela família e pela gestão do património. Bem pelo contrário. Na sua correspondência com o poeta Afonso Lopes Vieira, datada de 1909, Teixeira Gomes revela uma mudança significativa na sua predisposição pessoal. Pelo menos naquele período, tinha esmorecido “a febre de luxúria”. Nesse ano fatídico perdeu a mãe, deixando ao filho a responsabilidade da “exploração de propriedades extensas e que andavam abandonadas”. Ainda que o seu espírito demandasse empresas estéticas, Teixeira Gomes estava então totalmente concentrado na subsistência material da família: “Actualmente a todas as minhas preocupações sobreleva a do futuro da minha filha – o “futuro”, essa contingência máxima, para ela o quero preparar como se fosse um problema positivo, matematicamente resolúvel! Pode, no entanto, falhar, o futuro da minha filha; mas eu é que não falharei na ânsia de o desempeçar, de o desanuviar, de o limpar de apreensões molestas e sinto-me de aço cada vez que se torna mester empreender qualquer campanha a bem da sua felicidade. Desaparece o artista, evapora-se o sonhador e fica a inteligência fria e prática, o cálculo rigoroso, a sugerir lições e combinações proveitosas. E muito resignadamente e contente pus ombros aos trabalhos agrícolas e novamente me tornei exclusivamente lavrador, Deus sabe por quanto tempo”59. Hoje sabemos que tal resolução durou pouco tempo. Dois anos depois, em Abril de 1911, Teixeira Gomes abandonava o país para servir a República em Londres, pouco depois de nascer a segunda filha. Dessa decisão nunca se arrependeu, mesmo quando teve que lidar com contrariedades e obstáculos que se levantaram ao exercício competente do cargo. Recordemos a título de exemplo que foi obrigado a suportar algumas das despesas da Legação com os seus rendimentos pessoais. Num dos muitos lamentos enviados aos amigos

58

Hall, Catherine – “Lar, doce lar”. In: Ariès, Philippe, Duby, Georges – História da Vida Privada. 1.ª edição. Porto: Edições Afrontamento, 1991, vol. 4, p. 115.

59

Rodrigues, Urbano Tavares e Ferreira, Vitor Wladimiro (Apresentação) – O Cristal da Palavra. Cartas inéditas de M. Teixeira Gomes a Afonso Lopes Vieira. Portimão: Edições Colibri e Câmara Municipal de Portimão, 1999, p. 33-34.

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próximos, evocava com saudades a família, mas mantendo sempre o espírito firme nas suas obrigações patrióticas: “Penso então que deixei as minhas filhas, a minha mulher (de quem gosto deveras), as minhas coisas de casa, fazendas que arranjara e às quais tinha amor, como se toma à terra quando vamos para velhos, e tudo isso para desbaratar o resto da minha saúde, embaraçar a minha situação económica, e ser fábula do mundo, sem utilidade para ninguém. Pois, meu amigo, penso em tudo isto e sinto mais coragem!”60. Apesar da distância, Teixeira Gomes não deixava de pensar na família, especialmente nas filhas, acossadas por diferentes mazelas61. Em 1913, numa carta a Afonso Lopes Vieira, confessava intimamente a sua felicidade familiar, no contexto de um regresso fugaz a Portimão: “Estou no paraíso, como julga, entre as minhas filhas e a mãe que ainda amo”62. Tais afirmações de afecto não interferiam com a sua visão hedonista da vida, como era aliás tradição entre as classes superiores. Em Londres ressumbrava o Teixeira Gomes galante, cultivando os gostos próprios duma cidade cosmopolita, atraído pelos rituais de sedução com mulheres cultas, modernas, sofisticadas e com gostos tão requintados quanto o seu63. Ainda que ele próprio resumisse tais flirts a meras “brincadeiras”, à maneira dos romances64, a vivência londrina crismou entre os seus contemporâneos a imagem de dandy e de diletante voluptuoso. Apesar da luxúria planturosa, a intimidade do autor de Sabina Freire, no campo das inclinações sexuais, tornou-se objecto de referências públicas pouco abonatórias para o antigo presidente da república. Para se poder avaliar a forma como os coevos julgaram Teixeira Gomes, atente-se nas afirmações produzidas por João Chagas, no seu Diário, em 1914. Escreveu então o chefe da Legação de Portugal em Paris: “O Teixeira Gomes é uma espécie de Óscar Wilde, com alguns vícios deste e sem o seu talento. É um céptico e, sem injustiça, um cínico. Ri constantemente, mostrando uns dentes de coelho. Não é

60

Gomes, Manuel Teixeira Gomes – Correspondência I, ob. cit., p. 50, carta a João Chagas, de 29-06-1911. 61

O Cristal da Palavra, ob. cit., p. 89-90, cartas de 10 e 29-06-1912.

62

Ibidem, p. 96, carta de 28-04-1913.

63

Veja-se uma longa descrição de vários episódios em Rodrigues, Urbano – A vida romanesca de Teixeira Gomes. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, Lda., 1946, p. 37 e ss. 64

Idem, Ibidem, p. 44.

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feio homem, mas falta-lhe nobreza. Os seus cabelos e a sua barba são brancos, mas não inspiram respeito. Parece um clown enfarinhado”65. O retrato, saído da pena corrosiva do velho panfletário antidinástico, investiu contra a imagem de Teixeira Gomes com a fúria inexorável dos ferretes que ferem a carne e penetram fundo na alma. As razões para um retrato tão vincadamente acintoso não são fáceis de discernir66. Os dois políticos ter-se-iam conhecido muitos anos antes, no Porto, quando Teixeira Gomes frequentou o círculo de Sampaio Bruno. Reencontraram-se no alvor do novo regime e depois, ambos com responsabilidades diplomáticas elevadas, trocavam correspondência com regularidade67. Para compreender o alcance da “caricatura” de Chagas, o leitor deve ter presente a magnitude dos acontecimentos que rodearam Óscar Wilde. Acusado e condenado a dois anos de prisão por homossexualidade, em 1895, o caso foi muito comentado na imprensa francesa interessada em explorar os escândalos e crimes passionais. O próprio Teixeira Gomes confirmaria o interesse do público português: “O caso Óscar Wilde e a sua condenação, continuam na berra pelo jornalismo francês e nas conversações alfacinhas”68. As reflexões de Teixeira Gomes sobre o célebre escritor inglês têm a esta luz um interesse especial. O escritor português cita um jornalista francês do Fígaro que teria aproveitado uma das personagens de Óscar Wilde para o caracterizar como “diletante de coisas deliciosas, grande artista, pintor, crítico de arte, etc.”. Qual a intenção de Teixeira Gomes ao recordar neste contexto o escritor inglês? Nunca o saberemos. A verdade é que o autor de Novelas Eróticas parece interessado em produzir a defesa moral de Óscar

65

Chagas, João – ob. cit., p. 169-170.

66

Teixeira Gomes atribuiu a página à inveja de Chagas pelo seu sucesso em Londres: “É uma caricatura rancorosa ditada pela inveja. Essa página tem a data de 1914. Mais tarde, quando chefiei a delegação portuguesa em Genebra, não teve ele rebuço de mendigar os meus favores” [Lopes, Norberto – ob. cit. p 248].

67

Gomes, Teixeira – Regressos, cit., p. 103. Veja-se também Gomes, Manuel Teixeira – Correspondência, cit. Sobre João Chagas, leia-se Novais, Noémia Malva – João Chagas. A Diplomacia e a Guerra (1914-1918). Coimbra: Minerva Coimbra, 2006. 68

Gomes, Teixeira – Regressos, cit., p. 179.

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Wilde, citando-o de novo para afirmar que “a moral de cada um tem que ver com o valor artístico da sua prosa”69. O estribilho pérfido de João Chagas, tornado público em 1929, reflectindo as devassas que se tornariam célebres entre as chafaricas de Lisboa, era uma das “perversões sexuais” com que a rapina política esventrava a honra e o nome dos adversários. Que esta interpretação do libelo de João Chagas está correcta pode depreender-se pela reacção tempestiva de Teixeira Gomes, ele que era um espírito calmo e contemplativo: “Em certa altura, como se eu fizesse referência à atmosfera de boatos e de baixa intriga política que caracterizou essa época nefasta para o país e para o regime, Teixeira Gomes soergueu-se, os olhos fuzilaram-lhe, fincou o cotovelo esquerdo na beira da cama e, agitando no ar o braço direito, de punho cerrado, numa atitude terrível, como se quisesse vibrar um soco num invisível inimigo, exclamou em tom de indignação que jamais esquecerei: «Como essa calúnia ignóbil que correu os cafés de Lisboa a meu respeito... Pederasta, eu, que toda a minha vida gostei de mulheres!»70. Esta especulação em torno da sua intimidade espicaçou a verrina e o “fel” de Teixeira Gomes que não poupou o antigo correligionário: “Não é o João Chagas, como se poderá supor: foi lá que o conheci. Era um preto anónimo e retinto que passava orgulhoso e balouçado como um camelo, levando à cabeça um vaso onde florescia a mais docemente rósea das hortênsias”71. Existem na vida privada de Teixeira Gomes indícios mais do que suficientes para refutar a sugestão encapotada de João Chagas. Urbano Rodrigues, que escreveu a Vida Romanesca de Teixeira Gomes, levanta um pouco o véu sobre a vida íntima do ministro em Londres, exibindo a atmosfera lúbrica que o cobria e expondo romances ou flirts que observou ou apenas entreviu. É ele próprio quem recusa a insinuação: “Era este homem que em determi-

69

Ibidem. Referindo-se a Tomás Wainewright, célebre falsário francês que foi estudado por Óscar Wilde, escreveu Teixeira Gomes: “Esse Tomás Wainewright foi condenado em 1837 a degredo, por toda a vida, para Van Diemen, onde morreu na companhia dum gato que adorava. Frascário, assassino e falsário, crimes de que ninguém culpou o Wilde nem por sombras, só um francês poderia encontra-lhe paridade […]”.

70

Lopes, Norberto – ob. cit. p 23.

71

Gomes, Teixeira – Regressos, cit., p. 103.

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nado momento de desvairo político, se acusava de não se interessar pelo belo sexo”72. Na verdade, a sua vida íntima encontra-se repleta de mulheres e casos amorosos, tal como a sua obra literária se oferece recoberta de intensa sensualidade e erotismo73. Poder-se-á argumentar com a existência de “silêncios” que escondem as profundezas da intimidade, em particular quando certos comportamentos são reprovados por códigos sociais rígidos, como aquele que vigorava na Europa na passagem do século XIX para o século XX. Naquela época, “um homossexual não é identificável pelo público como o é o padre numa determinada paróquia […]; que só a ele pertence revelar a sua condição, sabendo que esta é considerada como anormal por uma parte do público […]”74. Para o historiador que ambiciona a objectividade possível, que estriba as suas conclusões em factos e não em insinuações vagas e comprometidas, parece claro o caminho da sua interpretação. Manuel Teixeira Gomes, que terá sido muito “precoce no amor”75, viveu toda a sua vida sob a inspiração de Eros. Não é aqui o lugar para elaborar um guia quantitativo dos namoros, paixões, aventuras ou simples flirts que preencheram a sua vida sob o signo de Afrodite. É conhecida a sua primeira paixão avassaladora, tinha apenas oito anos, por uma volteadora de uma companhia de cavalinhos, chamada Eleonora, e sentiu-se tão enlevado pela sua beleza de mulher já feita que o jovem adoeceu quando esta partiu76. O seu primeiro namoro teve lugar em Ferragudo, a pequena aldeia junto de Portimão, com uma jovem chamada Marta. Foi por esta altura da sua adolescência, num dos períodos de férias de Coimbra, que terá tido a sua primeira experiência sexual. Começava uma vida de amores e paixões, fortes como a de Sevilha, ou simples aventuras, em Coimbra, no Porto, em Lisboa e pelas cidades da Europa onde a sua actividade de comerciante o levava cerca de nove meses

72

Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 59.

73

É aliás a substância da notável obra interpretativa de Urbano Tavares Rodrigues em O Discurso do Desejo. Leia-se também “Da Memória e do Desejo”, in JL, jornal de letras, artes e ideias, XI, n.º 485, 22-10-1991].

74

Antoine Prost – ob. cit., p. 177.

75

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 96.

76

Idem, Ibidem, p. 97.

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do ano77. Norberto Lopes sintetizou já esse período de inebriante luxúria e entusiasmo erótico: “Aos 23 anos, ama desesperadamente, em Sevilha – amor casto – uma menina que os pais não consentiram em dar-lhe para mulher. Em Anvers, «novo, forte, petulante», enamora-se pelos sentidos duma flamenga exuberante, com sangue espanhol nas veias e os olhos dum profundo azul nocturno, que o «prendeu de corpo e alma». Em Amesterdão foge com uma rapariga de quinze anos, mas com o desenvolvimento de mulher feita, lançando-se numa aventura deplorável, a que pôs termo o pai da rapariga, arrancando-lha dos braços quase pela violência. Em Córdova sente um desejo louco por uma cigana ardente que lhe leu a buena-dicha e nunca mais voltou a ver, depois de uma noite abrasante de amor. Em Florença apaixona-se por uma jovem argentina de carnação mimosa, de imensos olhos de veludo, de opulento cabelo negro, ondeado e macio, com quem trocou apenas um beijo apressado e sôfrego, «um desses beijos que valem por mil promessas formais de casamento». Em Génova entrevê uma hora de amor deliciosa com uma bailarina de braços frágeis e olhos garços que conhecera a bordo e lhe marcara um encontro para Turim. […] Em Siracusa possui pela força, num minuto desvairado de luxúria, uma espécie de deusa oriental, visão deslumbrante, criatura de lenda arrancada a uma página heróica dos «Nibelungos». Ainda em Amesterdão deixa-se prender pelos encantos duma «loira de vinte e cinco anos com grandes olhos azuis melancólicos e a carnação imaculada das raças do Norte», que friamente premeditara a sua conquista com fins interesseiros”78. Mas ainda quando alguns dos relatos possam ser interpretados como excessos da fecunda imaginação de Manuel Teixeira Gomes, ou concebidos para edificar mitos e derrubar falácias, existe um depoimento insuspeito de 1909, numa carta dirigida ao poeta Afonso Lopes Vieira que não visava o público: “Parece-me até que vivo já quase exclusivamente de saudades, e agora tenho-as de tudo; das mulheres que amei e possuí, das que amei de longe, das

77

Da sua passagem pela Bélgica escreveu: “Mas eu conservo em Anvers amigos que também o eram seus, e alguns até parentes, com quem participei plenamente da planturosa e sensual vida belga, que para um rapaz não sofre comparação com a melhor do mundo inteiro. De recordação em recordação chegámos às confidências sentimentais; mulheres havia ali que a ambos nos tinham prodigalizado as delícias dos seus corpos admiráveis” [Regressos, p. 169].

78

Ob. cit., p. 61-62.

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que idealizei sem nunca existirem, dos vinhos que bebi e da sua turbulenta embriaguez, de tudo, de tudo”79. Entre os amores descritos por Teixeira Gomes, alguns relatam relações com mulheres muito jovens. A sua mais arrebatada paixão, acontecida em Sevilha, quando tinha 23 anos, começou pela sedução de uma “menina, quase criança ainda” que desembocou numa relação em “regime romântico”. Só não terminou em casamento porque a isso se opôs a determinação do pai, chefe de uma família de “fortuna imensa”80. Noutra ocasião, em Amesterdão, fugiu com uma rapariga de 15 anos “mas com o desenvolvimento de mulher feita”. Outra aventura que terminaria com a intervenção do pai, que lha arrancou dos braços “quase pela violência”81. Num outro desabafo, em tom crítico e algo cínico, Teixeira Gomes deixa subentender o seu gosto por jovens raparigas, mesmo na velhice: “E no primacial capítulo da volúpia? Imagine um velhote, ainda «verde», mas de jaquetão e rabona, a beijar, para desabafo urgente, uma rapariguinha tenrinha, posto que ladina e experimentada: é um sátiro ignóbil. Agora figure um idoso paxá caduco, de nívea e longa barba, reclinado em fofo divã, e cercado de virgens impúberes, que ele afanosamente acaricia: um patriarca bíblico!”82. Tais arrebatamentos da paixão, que seriam hoje objecto de apreciação diferente, tanto pela moral como pelas leis penais do país, revelam as inexoráveis diferenças de valores entre Teixeira Gomes e a sociedade do seu tempo. Nos últimos anos da vida, as pulsões sexuais de Teixeira Gomes cingiam-se à sua imaginação fértil. Numa carta a Columbano, datada de 1927, o exilado evocava as “delícias intelectuais de Paris”, confidenciando ao seu predilecto amigo que a idade havia então afastado as “irrebatíveis exigências sexuais”83. É certo que a visão de mulheres bonitas não o deixava indiferente84, mas

79

O Cristal da Palavra, cit., p. 41-42, carta de Portimão, de 1-01-1910.

80

Cf. Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 78-80.

81

Cf. Lopes, Norberto – ob. Cit., 61.

82

Gomes, Manuel Teixeira – Cartas a Columbano, cit., p. 82-83.

83

Ibidem, p. 104.

84

Na sua visita a Florença escreveu: “Mas se a verdura perdeu com o calor, em compensação ganham com ele as raparigas, que já andam quase nuas, com dois retalhinhos de seda transparente sobre a pele. A mulher florentina, geralmente, é bem feita, com o seio farto e levantado, cintura fina e quadris opulentos. E que delicioso espectáculo é vê-las tomar gela-

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agora a líbido centrava-se apenas numa sensualidade arquitectada no mais recôndito dos refúgios: “E as evocações da sensualidade e do amor? É agora que eu tenho beijado, abraçado e gozado, as mais belas mulheres do mundo, das quais algumas nunca haviam consentido em sair da sua imobilidade de estátuas. Admira-se? Sonhando eu dei uma vez um beijo de que ainda me escaldam os lábios”85. A história da vida íntima de Teixeira Gomes não pode ser compreendida sem termos presente uma concepção hedonista da vida, de um amor carnal e dionisíaco, que se expressava nas vivências e na estética, na literatura, nas artes plásticas e na música, numa explosão constante de sensualidade. Tal dimensão encontra-se bem evidenciada nas suas reflexões sobre o nu, entendidas dentro da ideia grega de beleza e de perfeição. Teixeira Gomes censurava a incapacidade da cultura cristã para aceitar a beleza plástica do corpo humano, que vislumbrava no nu a “última expressão da obscenidade”: “Um efebo nu é sempre, no seu entender, espectáculo só apreciável a sodomitas”86. Estas ideias e concepções estéticas revelam a profundidade da formação intelectual de Teixeira Gomes. Mas também aqui o antigo presidente trilhou um percurso diferente do habitual nos meios burgueses. Depois de cinco anos a estudar no Seminário de Coimbra, conhecido pelo seu conservadorismo e rigidez pedagógica, o autor de Maria Adelaide deambulou entre o curso médico da Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e a Escola Politécnica do Porto. Pelo meio cumpriu a o serviço militar. A verdade é que as sebentas e os compêndios não tiveram artes para seduzir a sua natureza impulsiva e lúbrica, o seu intelecto preferia os jogos da imaginação aos ditames e às lógicas da razão87. De Coimbra ficara-lhe a pairar a “sombra” dos mestres “inquisitoriais” e dos “imaginados ou verídicos tormentos pedagógicos, a bárbara autoridade dos mestres, a regulamentação deprimente de estudos ressequidos”, para ele “despidos de interesse quando feitos com violência”.88 As ilusões do pai foram brutalmente esmagadas por uma carta explicativa em

dos: a voluptuosidade com que elas os lambem, chupam e sorvem…” [Cartas a Columbano, cit., p. 34]. 85

Gomes, Manuel Teixeira Miscelânea, cit., p. 110.

86

Ibidem, p. 217.

87

Ibidem, p. 98.

88

Idem, Regressos, cit., p. 128.

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que, dando-se “ares byronianos”, assumia romanticamente a “cabulice” e o horror da “Lusa Atenas”. Nas suas memórias evocava os sete anos de Coimbra como os “piores da minha existência”89. A segunda metade do século XIX representa já a consolidação do poder intelectual em Portugal, empenhado na destruição dos velhos resquícios do Antigo Regime e no esforço de consolidação de uma ordem burguesa. A nova ordem político-social, fundada no sufrágio (mesmo restrito) pressupunha uma opinião pública informada. Os intelectuais, enquanto portadores de um novo poder, o “poder espiritual”, desenvolveram um esforço para instrumentalizar a cultura na criação dos necessários consensos sociais. A acção dos intelectuais do «Cenáculo», através da imprensa e da conferência, como sejam as Conferências do Casino, procura colocar o país em contacto com as novas concepções filosóficas e político-sociais. Aspirava-se à completa laicização do Estado e da cultura e à libertação do conhecimento face às instituições religiosas. No campo das ideias, o cientismo, o positivismo e o materialismo surgiam a inspirar novas crenças, como o evolucionismo ou o transformismo. Aprofundou-se a teorização republicana, estribada nas novas concepções filosóficas, que apresentavam a República como realidade irreversível porque inscrita na ordem do Universo, proposição que se acreditava ser demonstrável pelas leis da física social (sociologia) 90. Este frenesim intelectual justifica a formação de cenáculos de artistas e literatos, em torno de um jornal ou de uma figura de intelectual, fosse Antero de Quental, Oliveira Martins, Teófilo Braga, ou Sampaio Bruno. Esta dinâmica das elites intelectuais, e os novos meios de acesso à cultura, mais informais, centrados na sociabilidade, atraíram o espírito irrequieto e idealista de Teixeira Gomes. A universidade deixava de ter o exclusivo do saber e do conhecimento. O jovem portimonense, recusando qualquer autoridade91, preferia seleccionar as suas próprias leituras, tornou-se por isso um autodidacta, como já o tinham sido intelectuais notáveis da envergadura de um Alexandre Herculano.

89

Ibidem.

90

Leia-se, entre outros, Homem, Amadeu Carvalho – Do Romantismo ao Realismo. Temas de Cultura Portuguesa (Séc. XIX). Porto: Fundação Eng. António de Almeida, 2005; Idem – “Linhas Gerais da Cultura”. In: Sousa, Fernando de; Marques, A. H. Oliveira – Nova História de Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 2004, vol. X, p. 340-383.

91

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 157.

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Abandonou por isso Coimbra para se fixar em Lisboa, sem qualquer apoio familiar, “alimentado a pão e queijo”, passando a frequentar a Biblioteca Nacional, onde terá lido “todos os filósofos em série cronológica”92 – que conhecia “como os meus dedos”93 – e alguns teólogos. Aqui leu, entre outros, Leibnitz, Schopenhauer, Kant, Nietzsche, Hartaann, Heine, Nerval, Edgar Põe e Zola94. Fez amizades com escritores mais velhos, como João de Deus ou Fialho de Almeida. Com João de Deus discutia filosofia e teologia, tendo então tomado contacto com a “figura colossal de Santo Agostinho”95. Entre os autores que mais o marcaram, pelo seu inconfundível cepticismo, conta-se a figura de Heine, que descobriu em Coimbra: “Aos dezasseis anos o Reisebilder era o meu livro de cabeceira; era o livro que eu trazia sempre comigo; que ia ler para o Penedo da Saudade; nos idílicos recessos do Choupal […]. Onde é que não cabia a enternecida ironia de Heine?”96. Mas é na filosofia que, segundo Urbano Tavares Rodrigues, Teixeira encontra os seus mentores, em Montaigne, Kant e Nietzsche, “do último dos quais hauriu, senão o sentido dionisíaco da vida, boa parte dos argumentos com que o exprime”97. Dos autores portugueses exaltava o padre Manuel Bernardes, o António Feliciano de Castilho e o Camilo Castelo Branco, que enaltecia como os grandes prosadores da língua portuguesa. Não lhes aclamava apenas a qualidade dos vocábulos, encarecia a capacidade para recriar novos sentidos às palavras e à linguagem, pelas “analogias que lhes descobre no sen-

92

Idem, Regressos, cit., p. 166.

93

Lopes, Norberto – ob. cit., p. 254

94

Nunes, António Joaquim – ob. cit., p. 23; LOPES, Norberto – ob. cit., p. 254.

95

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 157.

96

Idem, Ibidem, p. 182.

97

Rodrigues, Urbano Tavares – ob. cit., p. 11. Teixeira Gomes acrescenta a esta lista Schopenhauer: “Convém lembrar que o Schopenhauer era um artista, e os seus livros lêem-se com o interesse que em geral só inspiram os romances. Eu li e reli não sei quantas vezes, e sempre com intenso prazer, os seus Fundamentos da Moral. É, com alguns capítulos do Montaigne, o único produto da filosofia moderna – posterior ao Marco Aurélio – que assim me cativou” [Cartas a Columbano, p. 136].

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tido, aproveitando-as em metáforas que alargam a significação e fortalecem o carácter das coisas que descreve”98. No Porto, para onde rumou no início da década de 1880,Teixeira Gomes conviveu com outros grupos de jovens intelectuais, escritores, jornalistas e artistas plásticos, onde pontificava Sampaio Bruno. Entre os mais relevantes contavam-se Basílio Teles, Soares dos Reis, Marques de Oliveira, Queirós Veloso, Joaquim Coimbra, e Francisco Carrelhas. Neste período colaborou no Primeiro de Janeiro, na revista Folha Nova, fundada por Queirós Veloso, e na Folha de Hoje. Mais tarde fundou também um jornal de teatro com o título Gil Vicente, ao lado de Queirós Veloso e Joaquim Coimbra99. Quase todos os títulos tinham fraca longevidade, como acontecia à generalidade dos projectos da mocidade. Este ambiente cultural, associado às inclinações do seu espírito, parecia anunciar um destino ligado à escrita e às demandas estéticas. Mas o regresso a Portimão, à família e aos negócios, a boémia e as viagens constantes de comerciante afastaram-no dos círculos intelectuais. De repente, perto dos quarenta anos, rompeu-lhe “o apetite para escrever um livro”, e assim surgiu Inventário de Junho, publicado no Porto em 1899. Nesta primeira fase, antes de se tornar político activo, publicou ainda Cartas sem Moral Nenhuma (1903), Agosto Azul (1904), Sabina Freira (1905) e Gente Singular (1909). Obra de difícil catalogação, era sobretudo constituída por contos, novelas, cartas e a única peça que escreveu, Sabina Freire. No global da sua obra, nem sempre é fácil discernir a ficção da realidade do mundo do narrador. Depois do exílio, voltaria a escrever o essencial da sua obra, no seu estilo epistolar, marcado pelo afastamento da pátria e pelas experiências das viagens, dos lugares e monumentos que visitara. Obra essencialmente autobiográfica, vive da força da memória distante e da capacidade de observação do escritor, capacidade que se detém sobre o pormenor; produto de um autêntico esteta, revela a vasta cultura de Teixeira Gomes, que descreve com rara beleza obras de arte e artistas plásticos, monumentos e sítios arqueológicos; discorre com pertinácia estética

98

Gomes, Manuel Teixeira – Carnaval Literário, cit., p. 24. O seu desprezo pelo mundo das letras é bem evidente na “desordem da linguagem” que descobre no seu tempo. Cf. Miscelânea, cit., p. 111-112.

99

Nunes, António Joaquim – ob. cit., p. 25.

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pela música (árabe100, clássica e jazz101), pela fotografia102 e disserta filosoficamente sobre a estética e o belo103. É especialmente nas Cartas a Columbano que Teixeira Gomes analisa as questões estéticas essenciais como o significado da arte, as fontes e os processos usados pelo artista; divaga sobre o papel da imaginação e da realidade na construção; reflecte criticamente sobre o retrato e discute as novas concepções artísticas, revelando alguma acrimónia contra o modernismo dos impressionistas e de alguns vanguardistas. De todos elogia Columbano – que fez três retratos de Teixeira Gomes – e Rúbens e exorta com a descoberta da cor e a luz de Turner104. Finalmente, em Novelas Eróticas (1934) e Maria Adelaide (1938) regressa de novo a sensualidade e o erotismo e o amor temperado de quadros sociais. Em toda a sua obra perpassa o “discurso do desejo”, o “mundo afrodisíaco” que Urbano Tavares Rodrigues sintetiza magistralmente: “O que emerge desse conjunto de livros que condensam o melhor da cultura de uma época, reflexões sobre a pintura e a escultura, sobre a literatura e a música e a convergência das artes, é ainda e sempre a sensualidade, dinamizadora e triunfal. Uma sensualidade que anima a própria escrita, toda ela ressumante de desejo, seja na descrição de uma paisagem, de um óleo, de uma estátua, e que metamorfoseia o mundo. Vejam-se textos, quase insuperáveis de beleza visual, como «Vénus Momentânea», o trecho epónimo de Agosto Azul, a noveleta madeirense de Cartas sem Moral Nenhuma”105. Manuel Teixeira Gomes foi um verdadeiro diletante, um apaixonado pela arte e pela cultura. Cliente assíduo de museus, de teatros e de espectáculos, frequentava a ópera, o S. Carlos e os saraus musicais que eram habituais na alta sociedade lisboeta de Oitocentos106. Se quisermos situar Teixeira Gomes na sociedade da sua época, ele foi um burguês de gostos culturais e artísticos

100

Cf. Miscelânea, p. 123.

101

Cf. Cartas a Columbano, p. 106-107.

102

Cf. O Cristal da Palavra, cit., p. 65.

103

Leia-se especialmente Cartas a Columbano, citado.

104

Ibidem, p. 99.

105

Rodrigues, Urbano Tavares – “Da Memória e do Desejo», in JL, jornal de letras, artes e ideias, ano XI, n.º 485, 22-10-1991, p. 6. O estudo de fôlego da obra de Teixeira Gomes encontra-se no trabalho académico do mesmo autor com o título O Discurso do Desejo, já citado.

106

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos, cit., p. 171-172.

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requintados e exigentes, era um esteta de profunda sensibilidade artística. Era um verdadeiro cosmopolita, num país onde alguns intelectuais se compraziam de nunca ou raramente terem saído de Portugal, apesar de cultivarem vivamente as ideias e as concepções que lhes chegavam do exterior, especialmente de França107. As muitas viagens que fazia, as maneiras delicadas, os gostos requintados e o seu “look dandy” emprestavam-lhe o ar “bizarro” e “estrangeirado” que alguns dos seus contemporâneos depreciavam. Para viver como cosmopolita, Teixeira Gomes beneficiava da sua fortuna pessoal. O dinheiro ajuda a construir a identidade privada. Para Gérard Vincent, “o enigma do bom gosto, caro a Kant, é também o enigma das contas bancárias”108. Mas se a abundância de dinheiro favorecia as “excentricidades” do antigo presidente da república, em alguns campos limitou-se a acompanhar as tendências da moda. É o caso da aparência física. Os historiadores registam uma mudança comportamental entre as duas guerras, quando a burguesia se descobre à libertação do corpo, até aqui escondido e apertado. A evolução é lenta: “Começa com a substituição dos colarinhos quebrados e dos chapéus rígidos pelos colarinhos leves e pelos chapéus de feltro moles. A sobrecasaca dá lugar ao casaco e torna-se fato de cerimónia”109. Teixeira Gomes revela uma grande preocupação com a sua aparência física. Já no Algarve impressionava os seus patrícios com o seu ar distinto, elegante, “vestindo sempre a primor, lindos coletes, lindas gravatas, quando o tempo o permitia polainas brancas imaculadas”110. O aprumo da indumentária era a sua imagem de referência. Nos alvores da república, andava “sempre vestido com esmero, mesmo garridice”111. Mais tarde, na presidência da república, o seu secretário particular registava a elegância extrema, pois “parecia um príncipe árabe vestido em Londres. Vestia ainda melhor que o sr. Bernardino Machado, mais à inglesa, com chapéus claros, como se usa em Londres”. Para

107

“O Fialho afirmou que tu pareces cada vez mais cosmopolita, estrangeirado. Repliqueilhe que o achava a ele cosmopolita e estrangeirado como ninguém, embora nunca tivesse saído do reino e fosse provinciano e gema” [Regressos, cit., p. 199]. 108

Vincent, Gérard – ob. cit., p. 165.

109

Prost, Antoine – ob. cit., p. 97.

110

Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 316.

111

Correspondência I – Cartas para Políticos e Diplomatas (colectânea, introdução e notas de Castelo Branco Chaves), cit., p. 10.

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actividades públicas, como a tourada, de que era grande aficionado, surgia sempre muito “elegante” com o seu “fraque e chapéu de coco cinzento”. Mas, se a sua adesão à moda se desvendava imediatamente na preferência pelo chapéu mole112, no campo feminino confessava algum conservadorismo. Na verdade, a libertação do corpo da mulher colidia com o fascínio da imaginação que Teixeira Gomes exigia para a volúpia e a sensualidade poderem operar, e por isso vituperava as saias curtas e a carnação visível que expunha sem rebuço os defeitos físicos das Afrodites modernas113. O dinheiro permitia aos homens de bom gosto ambicionar mais do que a simples indumentária. Teixeira Gomes ficaria conhecido por ser um viajante inveterado, ele que idolatrava Fernão Mendes Pinto e a Peregrinação114. Durante anos viajou por imperativos comerciais, especialmente para o norte da Europa. Mas viajou também por ócio e prazer, calcorreando o Norte de África, a Itália, Grécia, Ásia Menor e a Europa Ocidental. Depois do exílio, a partir de 1926, regressou ao Norte de África, e aos lugares e cidades que mais o marcaram, como a Itália, em Nápoles, Veneza e Florença. Mais tarde voltaria a Paris, no Verão de 1927, para regressar a Tunes. Teixeira Gomes preferia o barco ao automóvel ou comboio. Saiu de Lisboa, no dia 17 de Dezembro de 1925, a bordo de um navio de carga chamado Zeus, que alguns dos presentes então baptizaram de “iate presidencial”115. Fosse no Mediterrâneo ou viajando para o Norte da Europa, o barco era o seu meio de transporte preferido, para o qual, aliás, estava devidamente apetrechado. Com efeito, o antigo presidente possuía uma grande mala de viagem, a “Never Break”, que funcionava como uma autêntico “guarda-roupa” que provia a todas a suas necessidades de viajante crónico: “Imponente no aspecto, desafia a codícia

112

Fontes, Vital – Servidor de Reis e de presidentes. Lisboa: Editora Marítimo-Colonial, Lda., 1945, p. 123-133. 113 “Essas mulheres com as saias por cima dos joelhos, as pernas tortas, os pés enormes, levando pela mão, quase de rastos, crianças pouco menos que nuas, esqueléticas e macrocéfalas! Mulheres gordíssimas, cobertas de luto pesado, rindo às bandeiras despregadas; mulheres calçadas de pele de cobra, vestidas de pele de onça, com chapéus de pele de lontra, deixando transparecer o negro lanzudo da pernaça pela desbotada cor de carne da meia rala!...” [Cartas a Columbano, cit., p. 115]. 114 Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 102. 115 Tarde, ano 3, n.º 719, 17-12-1925, p. 3.

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dos carregadores; vazia, o seu peso é respeitável, e cheia, como anda a minha, ultrapassa os cem quilos”116. No que toca a viagens, Teixeira Gomes permaneceu um espírito do século XIX, não gostava de “viajar depressa”: “De automóvel pode-se passar mil vezes pelo mesmo caminho, sem ver metade do que nos mostra um único passeio a pé. […] Parar numa cidade a ver, e demorar o suficiente para a ver melhor, para a ver bem, é a regra racional das viagens”117. Dependente das sensações e das emoções dos lugares, paisagens e monumentos que visitava, foi sempre fiel a esta regra. Nos museus detinha-se durante dias ou semanas, descobrindo obras e artistas e deleitando-se até à emoção máxima118. Foi o que aconteceu em Londres, quando descobriu a obra de Turner: “A descoberta de Turner foi um dos assombros da minha vida. Durante semanas, dia e noite, (isso aconteceu na era vitoriana; os museus então abriam das dez às dez, e acendiam as luzes, mesmo de dia, para obviar aos caprichos do clima londrino) estudei a sua obra, e impregnado de tanta fantasia; encadeado no prisma opulento e fascinador da sua paleta; arrastado para o sonho da cor extreme e fluida das suas últimas composições; deslumbrado, e orgulhoso de me ter enriquecido em tal tesouro de sensações, sucedeu que de repente me encontrei com o seu auto-retrato, e as lágrimas rebentaram-me dos olhos. Lágrimas que nunca tentei explicar mas que marcaram na minha existência um perpétuo e fulgurante ponto de referência; nesse instante, ao contemplar a face do «mago», para o qual todos os milagres foram possíveis, julguei divisar-lhe a expressão de benévola camaradagem que o génio dispensa aos espíritos compreensivos”119. Mas o dinheiro não facultava apenas os meios para viajar. Num espírito superior e requintado, permitia gostos dispendiosos, que ofereciam ao seu proprietário o prazer da posse e do desfrute. Teixeira Gomes frequentava os melhores hotéis e restaurantes, deliciava-se com menus preparados por alguns dos mais notáveis gourmets europeus. Foi assim em Londres, onde o “Carlton” o recebia e aos seus convidados, entre os quais diplomatas, políticos do

116

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 33.

117

Ibidem, p. 130.

118

“Há mais de um mês que eu lá [ao Louvre] vou passar as manhãs (cinco vezes por semana) e sempre com a mesma curiosidade desperta, e sem um só momento de fadiga, fastio, ou saciedade” [Miscelânea, p. 132].

119

Idem, Cartas a Columbano, cit., p. 98-99.

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Foreign Office, como Sir Eyre Crowe, e algumas senhoras da sociedade londrina. Um desses ágapes distintos foi descrito por uma testemunha: “A famosa caldeirada, que o grande chefe vigiara e mandara servir com todos os ritos e o vinho próprio, impôs-se antes de aparecer fumegante nas grandes caçoilas de prata pelos utensílios distribuídos a cada conviva que devia saboreá-la: colheres, garfos e facas de todas as espécies, ganchas, pinças e alicates!”. A refeição era regada com vinho francês, “um tinto grosso da Borgonha”, e terminava com o habitual Champagne120. O “grande chefe” era francês, chamava-se Scoffier e era amigo pessoal de Teixeira Gomes. Quando assumiu a presidência da república, o antigo ministro em Londres levou consigo um cozinheiro – que pagava do seu bolso – para lhe preparar todas as refeições. Apreciava sobretudo refeições confeccionadas com produtos frescos, em especial as frutas e os legumes. O pequeno-almoço incluía sempre frutas e ovos frescos121. Um dos seus pratos preferidos nesse período era a maionese de lagosta. Como bom degustador, Teixeira Gomes apreciava, para além dos bons vinhos, conhaque, “bem velho”, que gostava de acompanhar com outro dos seus prazeres predilectos, o café e o charuto122. No Palácio de Belém recebia, todos os dias da semana, ao almoço, um membro do governo ou oficial do exército, dando continuidade ao ritual londrino. Teixeira Gomes teve sempre o gosto dos pequenos prazeres, fossem os pastéis de Tentúgal, a cerveja da Trindade ou a aguardente e o café após um repasto bem regado a tinto123. O charuto acompanhou-o pela vida fora, tal como o champanhe. Em Londres terminava a noite fumando um desses havanos, muitas vezes acompanhado de conhaque. Já no fim da vida, quando a saúde recomendava severa contenção, não abdicava destes pequenos hábitos. Em entrevista a Norberto Lopes afirmou: “Aqui estou eu com o meu charuto 120

Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 184-186.

121

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 128.

122

Fontes, Vital – ob. cit., p. 123-133. Mais tarde explicará assim a escolha de Bougie: “Entretanto aproveito como posso destes restos, gozando (com moderação) as paisagens da feiticeira Bougie e a delícia das suas frutas. Acresce que em parte alguma se prepara melhor o café, e se fumam tabacos melhores nem mais baratos do que na Argélia. Para remate, pois, não escolhi mal...” [Amaro, Luís, Chaves, Castelo Branco – “Cartas Inéditas de Manuel Teixeira Gomes”. In: Revista Colóquio/Letras, Julho de 1973, p. 45].

123

Gomes, Manuel Teixeira – Regressos, cit., p. 132 e 183; Londres Maravilhosa, cit., p. 102-103.

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e o meu copito de champanhe. Ocupam-me sempre uma hora depois de jantar”124. Mas o gosto e a fortuna permitiam-lhe prazeres mais requintados como o coleccionismo. Não se tratava de mero devaneio do espírito ou do pecúlio, coleccionava por paixão e saber obras de arte125 (pintura e escultura), moedas126, mobiliário, tapetes, arte japonesa, frascos de rapé, etc. Só a colecção de arte asiática, mais tarde oferecida ao Museu Machado Castro, em Coimbra, contava cerca de mil peças, entre as quais se incluíam 631 frascos de rapé127. O valor dos seus objectos chineses foi motivo de reflexão pelo próprio proprietário, que admirava a “perfeição decorativa” das pequenas peças e as enaltecia como “manifestações artísticas de um povo”128. O prazer da aquisição foi testemunhado por Urbano Rodrigues, que visitara os seus aposentos em Londres: “Sempre que adquiria um quadro, uma escultura, um bibelot, o seu maior prazer era ir admirá-lo, limpá-lo às vezes ele próprio, e escolher-lhe o lugar”129. A história da vida privada de Teixeira Gomes, como a de qualquer indivíduo, não ficaria completa sem uma referência ao corpo e, por extensão, à velhice e à morte. A historiografia assinala uma diferença na abordagem do corpo entre a burguesia e as classes populares. Nestas, viradas para os trabalhos manuais, era importante possuir um corpo robusto e resistente. Na burguesia, pelo contrário, predominava a “vida de representação, a aparência

124

Lopes, Norberto – ob. cit., p. 262.

125

Idem, Cartas a Columbano, cit., p. 93.

126

Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 303. A sua colecção de numismática foi depois oferecida à Casa da Moeda. 127

Cf. Ribeiro, José Diogo Henrique Seco – “Subsídios para o Estudo do Património Artístico de Coimbra. A colecção de frascos de Rapé de Manuel Teixeira Gomes”. Dissertação de mestrado em Museologia e património Cultural. Coimbra: Faculdade de Letras, 2005, p. 2 e 34. 128 129

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 138-139.

Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 70. Urbano Rodrigues escreveu a propósito que os “seus quadros e bugigangas” poderiam “pelo número e qualidade constituir um museu”. Cf Rodrigues, Urbano – ob. cit., p. 303

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contava mais”130. Com a libertação do corpo, mais exposto do que no século XIX, a saúde passou a ter maior atenção das classe médias altas: mais cuidado com a higiene, uma alimentação mais regrada e ligeira – surgem as primeiras dietas – e a importância do exercício físico para manter o corpo jovem e elegante. A partir de uma certa idade, a “reabilitação do corpo” passa a estar a associada à identidade do indivíduo mas também às ameaças das doenças e do envelhecimento precoce: “de repente a morte escandaliza se vier antes da velhice”131. Como lidou Teixeira Gomes com o corpo e a saúde? Como enfrentou o envelhecimento e a morte? A sua saúde foi brutalmente ameaçada aos treze anos por uma escarlatina que lhe “avariou o coração” e lhe provocou “crises tremendas” ao longo da vida132. Outros tormentos o afectaram depois, como o mau funcionamento renal e a “próstata alcachofrada”133. Não sabemos se atacou os problemas com recurso aos fármacos. Entre os curativos possíveis, deu preferência à “ginástica respiratória”, bálsamo que praticou com grande regularidade para estancar estas e outras maleitas do corpo. O Dr. Henrique Barros, seu amigo de estimação, confirmou que os exercícios lhe permitiram “domar o coração”. Mas tais maleitas não o impediam de cometer o habitual pecado da gula, e, mesmo para os excessos pantagruélicos, os exercícios respiratórios pareciam acalmar as “crises agudas de indigestão” 134. Parece assim evidente que desde cedo, e apesar de alguns excessos, Teixeira Gomes foi obrigado a cuidar do corpo para evitar o agravamento da doença cardíaca. Isso explicará a importância que deu aos passeios que pontuaram a sua vida de homem privado: no Algarve, em Coimbra, em Lisboa, em Paris, Florença, Argel ou Bougie, já no final da vida, os passeios a pé, que chegavam a contabilizar “dez quilómetros”, faziam parte do seu ritual. A partir do exílio escreveu: “Na harmonia desta minha última fase da vida, os meus passeios a pé merecem uma menção especialíssima. São o que se poderia chamar a eflorescência do dia”. Neste período da vida, sem outras preocupações, a saúde

130

Prost, Antoine – ob. cit., p. 95-96.

131

Ibidem, p. 94-108.

132

Lopes, Norberto – ob. cit., p. 221, carta a João de Barros.

133

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 176.

134

Ibidem, p. 176-177.

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toma foros de prioridade: “Pouco ou nada leio; como e bebo com apetite e proveito; durmo a noite em dois sonos de pedra; faço todas as manhãs uma hora de ginástica e à tarde dou um passeio regularmente de dez quilómetros” 135 . Ao longo da vida sofreria os efeitos dos padecimentos que atingem todos os humanos. Em Londres sofreu com as gripes e as complicações próprias de um clima mais rigoroso e da “imprudência”136. Nos primeiros meses do exílio ainda sofreu com os ataques de uns antrazes que lhe apareceram no peito, uma infecção grave de pele acompanhada de abcessos profundos, que lhe causaram “grande sofrimento”137. Mais tarde, numa viagem a Constantinopla, foi atacado pela Malária138. Mas, durante alguns anos, apesar de ter que cortar com certos pequenos prazeres, como as bebidas destiladas139, a vida foi-lhe sorrindo, sem achaques nem misérias do corpo, “nem uma leve dor de cabeça”140.

135

Ibidem, p. 108-109.

136

Carta inédita de M. Teixeira-Gomes para Afonso Lopes Vieira”, in Revista Colóquio/ Letras. Documentos, n.º 37, Maio de 1977, p. 50-56. Escreveu o ministro em Londres: “Para um cardíaco isto é uma festa perpétua com pontificais nocturnos, de tosse, dispneia e sufocações. [...] A imprudência [...] que consistiu em ir passear, num entreacto do «António e Cleópatra», em casaca e descarapuçado, sob a relva do jardim, na companhia de duas criaturas de prodigiosa beleza».

137

Gomes, Manuel Teixeira – Cartas a Columbano, cit., p. 93. Noutra carta, o seu optimismo ditaria outra leitura mais positiva para a sua enfermidade: “Em Argel apareceram-me uns antrazes no peito, que nunca me empeceram os movimentos, e só me apoquentavam à hora do curativo. Considero esses bichocos – não cesso de o repetir – providenciais, pois me limparam dos ruins humores, acumulados durante a presidência” [Agosto Azul, cit., p 100].

138

Idem, Miscelânea, cit., p. 220.

139

Teixeira Gomes referia-se à importância do álcool para lidar com o frio do norte da Europa: “ […] abstémio jurado e forçado, já não tinha o recurso, de suprema eficácia, do whisky e da genebra, cujas libações, naquelas paragens lôbregas, são para a alma como fogos de bengala a iluminar as cavernas de Artá [Cartas a Columbano, cit., p. 107]. Em Agosto de 1926, numa carta ao poeta João de Barros, não havia sinal destas restrições: “Nenhuma reserva na alimentação, comendo e bebendo de tudo, e conforme o apetite e a sede; caminhadas sem fim até ao salutar cansaço, que prepara os sonos profundos, de onde se ressurge mais rijo e satisfeito” [Agosto Azul, cit., p 100]. 140

Idem, Miscelânea, cit., p. 91.

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Aos poucos, porém, as enfermidades regressavam a um corpo cada vez mais debilitado141. Teixeira Gomes fixou-se entretanto em Bougie, cidade que ficava a 250 quilómetro de Argel. O exílio foi-lhe imposto por um desejo crescente de “anonimato”, depois dos anos de “cativeiro” na presidência da república, marcados por mil dificuldades e a vida privada devassada pelos excessos da refrega política142. Hospedou-se no Hotel de l’Etoile, no quarto número 13, que serviria de refúgio até ao fim dos seus dias, em 1941. Teve então um ataque cardíaco quase fulminante. Foi por isso ficando em Bougie, cidade com vista para o mar, o mar que evocava o Algarve onde nasceu e cresceu. As debilidades do corpo começaram entretanto a agravar-se, afectando-lhe a visão e impedindo-o de escrever, ele que usava este sentido como uma janela para fruir a beleza do mundo.

Teixeira Gomes sentado na sacada do seu quarto no Hotel de L’Étoile, em Bougie, 1933. In Canaveira, Manuel Filipe – Manuel Teixeira Gomes. Fotobiografia. Lisboa: Museu da Presidência da República, 2006, pp. 17 e 22.

141

Rodrigues, Urbano Tavares – ob. cit., p. 324-325, carta a Manuel Mendes de 12-031930: “Desde que tive uns depurativos e providenciais antrazes, há quatro anos, ao desembarcar em África, nunca mais houve mal que me chegasse. Porém agora entrou comigo a gripe, despertando todas as velhas mazelas e transformando-me no mais insuportável de todos os Lázaros”. 142

Idem, Miscelânea, cit., p. 108.

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Em Portugal tinha então as duas filhas e muitos amigos que desesperavam com o estado da sua saúde. Afonso Costa escrevia no final de 1935 que “não podemos contar com tais melhoras, que todo o perigo dum desenlace súbito possa considerar-se arredado”. O velho correligionário, então em Paris, não compreendia que a família não visitasse o antigo presidente, “sejam quais forem as razões”, e lamentava que todos o abandonassem, “sozinho, isolado, rodeado de desconhecidos, que não sabem quais são ou onde moram os seus parentes mais próximos”143. Afonso Costa recebeu informações do director do hotel, que comprovavam o estado debilitado do seu coração e o desespero da sua existência: “mas o Director acrescenta que ele teve (ainda naquele dia 24) uma crise com angústia, dores no peito, sensação de sofrer do coração, parecendo que tem uma angina de peito”144. Na sua entrevista a Norberto Lopes, Teixeira afirmou que não regressava a Portugal e às filhas para não “lhes estragar a vida e oferecer-lhes o espectáculo desta velhice inútil”145. Seria essa afinal a justificação para recusar igualmente a visita de amigos, como Afonso Costa, a quem escreveu nesse sentido146. Teixeira Gomes preferia talvez que o recordassem pela pose aristocrática e pelo espírito diletante e abnegado, escondendo de todos aqueles que com ele tinham privado, a carcaça decadente, a fragilidade final e o esbulho dos sentidos. O autor de Sabina Freire faleceu no quarto do hotel, em Bougie, na companhia de um criado, atacado por uma congestão pulmonar. Aparentemente, a morte não lhe metia medo147, ele que foi sempre um espírito optimista, que gostava de “cantar o amor à vida”148. O enterro, “modesto e simples”, sem acompanhamento religioso, teve lugar na mesma cidade, no jazigo da família Berg, pertença dos proprietários do

143

Arquivo da Fundação Mário Soares, Afonso Costa. Correspondência 1935-1936, carta de 15-12-1935. 144

Ibidem, carta de 27-12-1935.

145

Lopes, Norberto – ob. cit., p. 235. Norberto Lopes atribui o seu desejo de não regressar a Portugal a razões políticas, para não “incomodar o governo” [Ibidem, p. 275].

146

Escreveu então Teixeira Gomes: “Obrigado pela sua afectuosa carta de 8 do passado. Se algum dia vier a Bougie e me encontrar vivo, perceberá logo os motivos que me impedem de instar pela sua visita, embora ela me desse infinito prazer…”, in Arquivo da Fundação Mário Soares, Afonso Costa. Correspondência 1935-1936, carta de 10-09-1936. 147

Lopes, Norberto – ob. cit., p. 233.

148

Gomes, Manuel Teixeira – Miscelânea, cit., p. 202.

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hotel l’Etoil. Como escreveu Norberto Lopes, “o espírito mais nobre, mais elegante e mais requintado do seu tempo, extinguira-se longe da Pátria, longe da família, longe dos amigos”149. Só em Maio de 1950, os seus restos mortais foram trasladados para Portimão, onde teve honras fúnebres e a presença das duas filhas.

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Ob, cit., p. 297.

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CONCLUSÃO

Ao longo das páginas anteriores, fez-se uma perquirição à vida particular de sete cidadãos da República. Dito desta forma o cometimento parece conter, em si próprio, algo de condenável, pelo menos do ponto de vista moral. Acontece, porém, que os cidadãos perquiridos foram eminentes personalidades públicas e, nessa qualidade, atingiram um estatuto que lhes confere a dimensão de pessoas que já estão, em grande parte, subtraídas ao particular da sua existência, uma vez que esta passou a estar intimamente ligada à história de um país e de um povo, acabando por se conformar como parte importante desse universo. Assim sendo, a «devassa» passa a estar despida de amoralidade para, ao invés, se revestir de subido mérito, enquanto acto que contém a intenção de dar a conhecer factos que podem contribuir para uma melhor explicitação das referências histórias que identificam e singularizam uma Nação. Como não podia deixar de ser, das vidas privadas destes sete cidadãos da República foi mais enfaticamente retratado aquilo que, em cada uma delas, se tornou mais visível. E vai nesse mesmo sentido o que agora, de acordo com as intenções postas neste trabalho e em jeito de síntese e de apreciação, se julga agora oportuno dizer em relação a cada uma das eminentes personalidades aqui retratadas. Em Manuel de Arriaga, primeiro presidente da República, o que de imediato ressalta é o homo poeticus, alma sensível, amante da natureza, que, sentidamente, canta nos seus versos. A sua forte ligação ao campo e ao mar, o seu gosto pela Poesia, os seus próprios escritos, o deleite que experimenta pelo teatro musicado – a Ópera – e pela Arte em geral, revelam-nos o homem romântico, de gostos delicados, sensível ao Belo. Ideologicamente preocupado com a injustiça social, porém prisioneiro das contradições próprias da alta burguesia, estrato social a que pertence. O seu porte, fisionomia, maneira de vestir, gestos e ademanes em sociedade não deixam de denunciar essa pertença. Naturalmente irreverente enquanto jovem e estudante, sobretudo nos tempos de Coimbra, esses arroubos foram, com a idade, cedendo lugar a um acirrado conservadorismo. Na política, foi essa sua postura de republicano conservador (apreciada pelos sectores mais à direita do Partido Republicano) que o levou, já em avançada idade e em manifesta

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decadência física e intelectual, à presidência da República, no contexto do agravamento da clivagem entre as sensibilidades republicanas e a formação artificial da maioria numérica a que foi dado o nome de «Bloco». De resto, essa sua propensão não deixará de fazer sentir-se, negativamente, no exercício do seu mandato, culminando na falência total dos seus projectos e no seu sequente acto de resignação. Da sua vida profissional, enquanto advogado com banca em Lisboa, uma faceta que não deixa de o enobrecer é o facto de não ter procurado enriquecer-se materialmente; pelo contrário, exerceu essa actividade com manifesta filantropia, interessando-se sobretudo pelas causas dos mais desprotegidos (chamaram-lhe advogado do povo) e empenhando-se também na defesa daqueles que, por actividades políticas, caíram sob a férula do sistema monárquico então vigente. Fica-nos, assim, a imagem de uma personalidade idealista, crente na perfectibilidade humana e voltado, na acção, para a defesa daquilo que, em sua consciência, julga ser a Verdade, a Justiça, a Razão. Visão e atitude essas que, todavia, se mostraram desfasadas em relação à realidade da cena e do pragmatismo político do seu tempo. O segundo presidente foi Teófilo Braga. Eleito na conjuntura política que se seguiu à resignação de Arriaga, exerceu o cargo durante um transitório mandato de cinco meses. Figura histórica do movimento republicano, Teófilo foi alguém que, ao longo da sua vida, de 81 anos, se distinguiu, não tanto por uma aguda inteligência, mas por uma vontade férrea de vencer e de se afirmar na vida, tudo isso cimentado por uma enorme, desmesurada mesmo, capacidade de trabalho. Estes factores permitiram que Teófilo se transformasse, com rodar dos tempos, num repositório vivo de conhecimentos em muitas áreas, com relevo para a história da literatura, mas sobretudo concretizaram-se numa escrita quilométrica, com uma imensa produção de livros e artigos para jornais. O seu trabalho aturado no campo da produção literária, acabou por ser reconhecido publicamente, proporcionando-lhe o estatuto de alta figura de intelectual. Todavia, homem austero e de difícil trato, jamais conquistou simpatias e teve de arrostar com a má vontade e os obstáculos que instituições e pessoas lhe iam colocando. Não obstante, enfrentou tais dificuldades, com estoicidade e mesmo com êxito, desfeiteando algumas vezes os que se perfilavam como seus oponentes ou inimigos. Uma das marcas inconfundíveis da personalidade de Teófilo Braga e da sua maneira de estar no mundo foi o seu proverbial desapego em relação a ques-

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tões de forma, aspecto este visível na sua obra onde, por vezes os textos são, desse ponto de vista, algo descuidados e com aqueles erros que se adivinham na pressa com que escrevia. Tal predisposição por sua parte podia observar-se também na maneira como trajava, com roupas de gosto duvidoso e já muito usadas e, etiqueta inconfundível, a invariável presença de um chapéu-de-chuva velho, já sem ponteira, objecto de marca a que ele próprio chamava “a minha malva”. Naturalmente que estudantes e opositores na área das letras ou da política aproveitavam essa sua faceta para dele escarnecer ou denegrir a sua imagem. Num outro plano, o familiar, Teófilo foi um pai extremoso que sempre conseguia roubar algum tempo aos seus muitos afazeres, para brincar com os filhos. Sublinhe-se a este propósito o facto de ser ele próprio, porque habilidoso de mãos, a fabricar muitos dos brinquedos com que os meninos se divertiam. Sendo o lar e a família – esposa e dois filhos – o lugar onde mais se perfazia o sentido e a razão de ser da sua existência e presença no mundo e onde o seu espírito, ordinariamente severo, experimentava algumas alegrias, a Desgraça, com letra grande e configurada na Morte, veio bater-lhe à porta, levando-lhe sucessivamente e em curto espaço de tempo, os filhos que ele tanto amava. Não se pode deixar de se considerar impressionante, comovente mesmo, a resiliência de Teófilo (traço marcante da sua personalidade) perante tão rude golpe. A verdade é que, sinal iniludível da sua solidez mental, não fez, neste passo tão doloroso, qualquer concessão a transcendências e a doutrinas de natureza religiosa (como tantos outros, pressupostamente livres-pensadores, o fizeram, em transes bem menos difíceis), bem pelo contrário, endureceu, quanto a esses universos, a sua postura de crítica e de afastamento. Ao mesmo tempo, e numa primeira fase, empenhava-se, ainda mais decididamente, na actividade partidária, como militante do movimento republicano. Fixado assim na realidade sensível, o homem que se havia distinguido como grande paladino do Positivismo em Portugal, não desacreditava essa distinção, dando nota grande de uma extrema coerência entre o pensar e o agir. Compreensível, e ainda coerente com o seu passado e com os traços do seu carácter, é o facto de Teófilo, após a morte da esposa, se ter remetido para uma existência misantrópica, sem contudo se deixar abater, continuando a preencher raciocínios e atitudes governados pela Lógica e pela Razão e a desenvolver uma sempre intensa actividade de estudo e de escrita. Curiosamente, é nesta fase, mais retraída e mais recolhida da sua vida, que é eleito para o cargo

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de presidente da República, porventura, e paradoxalmente, o grau máximo da visibilidade pública. Depois disso, a vida, que desde a infância nunca lhe fora fácil, teimou em continuar a não lhe sorrir: a velhice e a cegueira entram em conflito aberto com a incoercível vontade de Teófilo em prosseguir o seu trabalho de leitura e de escrita. Por fim, a morte física, seguida de uma segunda morte que foi o desrespeito total pelas suas últimas vontades e pela não preservação dos seus objectos pessoais em família ou em museu. Como legado, sem dúvida valioso para o país e para a sociedade portuguesa, ficou a sua gigantesca obra literária. O 3.º presidente, Bernardino Machado, eleito, pela primeira vez, a 4 de Agosto de 1915, é uma das personalidades mais singulares da história da nossa Primeira República. Inteligência viva, aguda, espírito jovial, pessoa bem-falante e de quem não há registo que alguém alguma vez tenha visto deveras zangado. Por força do ambiente em que nasceu e em que foi criado e educado, desde cedo adquiriu uma noção vincada dos valores da cidadania e do patriotismo, bem assim como a cultivar, em elevado grau, ideias essenciais como a Liberdade, a Democracia, a Justiça e a Educação. Desta última foi um pregador – com obra escrita e muitas palestras – por entender que era por aí que se chegava às restantes. Daí até se embrenhar profundamente na Política foi um pequeno passo, sendo esta uma actividade que haveria de preencher a maior parte da sua vida, muito para além do ofício de professor e pedagogo, que também foi. Homem muito dado ao convívio social – reuniões, festas, acontecimentos – tinha um discurso elegante e fluente, por vezes excessivamente embebido em amabilidades e de delicadezas, o que, podendo ser natural e sincero, aparecia, aos olhos dos interlocutores, como conversa que tocava as raias da hipocrisia. Um outro traço que o distinguia era o aprumo com que trajava e se apresentava – os colarinhos engomados, as gravatas, a sobrecasaca, a cartola, a barba e o bigode fartos, mas sempre bem aparados e penteados. Era Bernardino, também ele, um trabalhador incansável, com a particularidade de, em ritmo e atitude contagiantes, fazer também trabalhar todos os que à sua volta se encontravam. Patriarca respeitado e venerado, gerador de numerosa prole, foi sempre muito dedicado à família. É claro que o estilo de vida escolhido e praticado, quer por Bernardino Machado, quer pela sua família – os confortos de que rodearam, os lugares onde residiram, as festas e as recepções que davam – somente foi possível em face da avultada fortuna pessoal que possuíam.

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A sua força interior e os seus muitos cuidados com a alimentação proporcionaram-lhe uma vida longa e saudável, a despeito de ser uma pessoa franzina e de compleição física frágil. Tudo isso, aliado ao facto de, já idoso, manter-se um espírito curioso e conversador, fazer longas caminhadas a pé e trabalhar nas suas escritas quase até ao fim, permitiram-lhe chegar à provecta idade de 93 anos. Não sendo um escritor muito prolixo, legou, em todo o caso, assinalável bibliografia. A quarta presidência, protagonizada por Sidónio Pais, marca uma viragem no curso da Primeira República Portuguesa. Este homem, as suas origens, o seu temperamento instável, o seu porte – estudadamente altivo e pretensiosamente aristocrático – provocaram, em espíritos pouco esclarecidos, uma impressão e uma fascinação quase mórbidas. Teve o condão de fazer despertar a tineta do sebastianismo e nesse sentido muitas mentes quiseram ver nele mais um «salvador da Pátria em perigo». Da parte de alguns pensadores e homens de letras ou de ciências, as descrições e definições tentadas continham, mais que o convencimento, a intenção e o desejo de que Sidónio fosse, de facto, o tal espírito superior, alguém diferente na condução dos negócios da Política e do Estado. Um sentir de alma traduzido em frases, bem pouco conclusivas, como: «havia nele algo que os outros não tinham» ou «tem um não sei quê que atrai». O seu percurso de estudante não foi fácil, face à magreza de posses por parte da família, situação agravada com a morte extemporânea do pai. Isso explica o recurso à frequência de aulas no Seminário de Coimbra e na Escola do Exército como meios para completar a sua formação básica. Mais facilitada se tornaria a carreira académica em Coimbra, posto que auferindo então o soldo inerente à sua condição de militar, passou a exercer docência na Universidade, ao mesmo que se desdobrava por uma série de cargos, de todos obtendo proventos. Num outro plano, o relacionamento que teve com o sexo oposto parece revelar alguma volubilidade e uma incapacidade de fixação num lar e numa família. A sua conduta durante os anos que passou na Alemanha, como ministro plenipotenciário de Portugal, confirma essa sua fama de mulherengo, de resto uma reputação que Sidónio não se esforçava por esconder ou contrariar, denotando com isso possuir um pendor algo marialvista, de afirmação da sua condição de macho e de conquistador. A esta inclinação não será estranha a forma esmerada como se vestia: primeiramente o irrepreensível traje civil, porque então fora sua opção nunca envergar o uniforme; depois, já presi-

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dente, sempre fardado, com a farda recamada de estrelas a ouro, farda essa que definira e mandara fazer por decreto. Em Sidónio Pais, a vida pública acabou por subsumir a vida particular, vendo-se o Presidente-Rei atafulhado nos milhares de problemas a que a sua inconsequente governação tinha conduzido. Para o fim, ele próprio constatava que estava num beco sem saída, posto que após o primeiro atentado, terá dito: “Quem me dera que me matassem”1. Foi ao Porto para resolver o equívoco chamado Juntas Militares, equívoco que ele próprio criara ou permitira que fosse criado. Tentativa inglória que a morte cortou à nascença, através das balas saídas do cano da pistola empunhada por um dos injustiçados da sua irreflectida politica social. O 5.º presidente, João do Canto e Castro foi uma escolha de recurso e para preencher o tempo restante do mandato de Bernardino Machado, interrompido de forma violenta pela Revolta Dezembrista de 1917. Na verdade, à morte de Sidónio Pais, seguiu-se uma conjuntura particularmente confusa e turbulenta, sendo um dos primeiros grandes embaraços (leia-se “enrascada”) encontrar alguém de se dispusesse a exercer o cargo de Presidente da República. A assunção de uma tal responsabilidade por parte de um confesso monárquico, o Contra-Almirante Canto e Castro, não pode deixar de causar perplexidade e de levar à pergunta: pode um monárquico ser presidente de uma República? Por mais estranho que pareça, deve dizer-se que, no caso, tal presidência não somente foi possível, como, vistas agora as coisas a suficiente distância temporal, foi a que melhor correspondeu aos interesses do Regime e da Nação. E tudo isso se explica, afinal, na integridade moral da pessoa em questão, que, havendo jurado a Constituição da República, colocou, sem hesitar, os seus princípios de homem de honra acima das suas convicções ideológicas, nisso não transigindo nem um só momento. No seu particular, Canto e Castro, filho-família, que fizera uma carreira profissional altamente meritória como marinheiro e como administrador colonial, era um homem discreto, profundamente religioso, amante da paz do lar, da família e dos amigos. Um dos traços marcantes da sua personalidade era o retraimento que experimentava em relação a qualquer sobreexposição pública ou propagação da sua imagem em jornais e outras publicações. Assim sendo, entende-se que nunca tivesse procurado a Política; esta, no

1

Cf. Brandâo, Raul – Ob. Cit., p. 443.

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entanto, viria à sua procura. Mas, mesmo aí, soube manter uma postura de relativo distanciamento, mantendo-se acima de querelas e de paixões. Todavia, e o mundo dos homens é mesmo assim, tal não foi feito sem custos pessoais, sendo que, no caso, Canto e Castro viu os seus amigos voltarem-lhe as costas, movidos pela incompreensão que sentiam quanto às suas razões e quanto à sua postura em defesa do regime e das instituições republicanas. Naturalmente que, em posição contrária, a República reconheceu o esforço e o sacrifício deste homem, sendo disso testemunho maior os discursos panegíricos vindos de todos os partidos e a promoção ao posto honorífico de Almirante. Passado o seu tempo de presidência, Canto e Castro deu pleno cabimento à sua natural maneira de ser, retirando-se da cena pública e passando a viver para a família, sobretudo após 1932, ano em que se reformou. Quando a morte chegou, encontrou-o nesse ambiente tranquilo; lúcido e calmo, o marinheiro, que tinha corrido mundo, encetou a sua derradeira viagem. António José de Almeida, o sexto presidente, iniciou o seu mandato a 5 de Outubro de 1919 e foi, dos presidentes da Primeira República, o único a cumprir tal incumbência até ao fim. Diríamos que estamos em presença de uma personalidade controversa. Espécie de arauto messiânico da epifania da República, verbo inflamado, acção inconsequente, gozou de enorme popularidade durante os tempos de propaganda republicana e pré-revolucionários, anteriores ao 5 de Outubro de 1910. Agitador obstinado, mantinha ligações com o extremismo carbonário, mas, ao mesmo tempo, assumia posições estranhamente ingénuas ou, já no poder, incompreensíveis posturas conservadoras. Um certo provincianismo rural, nunca ultrapassado, antes cultivado, não deixou de o acompanhar e manifestar-se, sobretudo já em tempo de República, emperrando-lhe, por vezes, a visão e acção políticas, enquanto governante e líder partidário. Do mesmo modo correram as suas actividades como jornalista e escritor e como médico, feitas com espírito de missão e com uma visão idealística, e mesmo mística, de si próprio e do seu papel nesses contextos. Daí a sua entrega e dádiva generosas a essas causas, muitas vezes com prejuízos próprios, imolando particulares interesses ou vantagens aos seus ideais. O seu casamento tardio explica-se também pela necessidade sentida duma entrega total à causa da luta pelo advento da República e pela consciência do aumento dos riscos e insegurança que de tal condição de vida poderiam advir, caso constituísse família.

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Em perfeita harmonia com esta maneira de ser e de estar, surge o seu acrisolado gosto pelas multidões, pelo espectáculo, pela oratória (de que foi original intérprete) e pelo teatro. Daí também o agrado pelos comícios, pela rua, pelo convívio e mistura com o povo. Sendo certo que populistas houve (e há) muitos, Almeida foi-o também, decerto, mas à sua maneira, ou seja, acreditando-se ser genuinamente o representante desse povo. E essa era a sua maneira de estar na política. No exercício do cargo de Presidente da República, não se apartou de uma aura romântica de mártir ou de «apóstolo da República», como então lhe chamaram. A cimentar esta auréola de sofredor, a doença crónica de que padecia, a gota, evoluiu para uma fase aguda, com crises que lhe acarretaram um sofrimento atroz e o prostraram numa quase absoluta imobilidade. Ficou para a posteridade essa memória de dedicação, sacrifício, sofrimento, dor e angústia de alguém que, não sendo o principal intérprete do espírito e da essência ideológica da Primeira República, teve, todavia, o condão de com ela ser mais imageticamente identificado. O sétimo Presidente, Manuel Teixeira Gomes, é, também ele, uma personalidade deveras invulgar. Simultaneamente um homem do ócio e do negócio, um diletante e um comerciante, alguém que produz literatura de primeira água e exporta figos secos algarvios para o norte da Europa. Viaja, faz tratos comerciais, veste-se com primor, contempla obras de arte, frequenta espectáculos, entrega-se a libações, ama mulheres, escreve; em boa verdade, um diletante perfeitamente integrado no espírito desse tempo, sintomaticamente apelidado de Belle Époque. Não obstante o deleite experimentado nessas doces vagueações e a sua manifesta pouca inclinação para o casamento, não pode dizer-se que não tenha sido atingido pela flecha de Eros, visto que encetou um romance de amor com uma jovem mulher de um estrato social muito mais baixo, situação essa bastante vivenciada. Note-se, a este propósito, que quando nos seus escritos a ela se refere, ele diz sempre “ a minha mulher”. O seu afirmado republicanismo, a sua elegância de figura e de trato, a sua condição de literato, de intelectual e de homem viajado, a sua fluência nas línguas francesa e inglesa e até mesmo a sua fortuna pessoal, estiveram definitivamente entre os factores que presidiram à sua escolha para representante de Portugal e da República em Londres. Compreende-se que, em momentos de início e afirmação do novo regime tenha cedido ao gosto de servir e de ajudar a construir esse regime, afinal o seu, muito embora tal implicasse deixar para trás vidas, pessoas, coisas e lugares que ele muito prezava e amava.

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Os fumos de homossexualidade que a seu respeito perpassaram nos escritos e palavras de alguns seus detractores e nas conversas baixas dos cafés de Lisboa, nunca foram minimamente provados, sendo bem possível pensar que tal se devia mais a invejas e à finura de trato de Teixeira Gomes, confundida, por muitos, com atitudes efeminadas, dessa forma se tornando possível a ilação conjectural e o consequente boato. Bastante reticente foi a sua reacção ao convite para se candidatar à presidência da República, só aceitando fazê-lo porque instado no sentido por Afonso Costa, julgou ser possível inverter o rumo dos acontecimentos políticos, pacificar a sociedade portuguesa e salvar a República do abismo para onde ela caminhava. Perante a constatação, por sua parte, da impossibilidade de acabar com a baixa política suicidária e reconciliar entre si as várias facções republicanas, renunciou ao seu cargo. Partiu e não mais voltou. Viajante que fora, viajante o foi de novo, até à fixação de residência em Bougie, na Argélia, local onde acabou por falecer. Da sua obra de escritor – os seus livros e a sua epistolografia – recheada de referências ao «eu» e de apontamentos autobiográficos, fica-nos nota do homem culto e do esteta apaixonado pela ideia e manifestação do Belo, de que ele, afinal, foi também intérprete. Houve uma oitava presidência, lugar em que se repete a presença, em segundo mandato, de um notável vulto republicano, Bernardino Machado, acerca de quem já falámos. Esta sua magistratura inicia-se a 11 de Dezembro de 1925 e termina, mais uma vez abruptamente, com o golpe militar de 28 de Maio de 1926. Passámos assim em revista rápida e em jeito de resumo interpretativo, as sete individualidades que desempenharam de 1910 a 1926 as funções de presidente da República. Deste exercício fica-nos apontamento sucinto de algumas naturais aproximações, mas sobretudo uma nota das diferenças existentes entre estes eméritos cidadãos da República: quanto às suas origens, famílias, ambientes frequentados, vivências, idiossincrasias e gostos pessoais e até quanto às motivações e contextos que os guindaram aos cargos que definitivamente os consagraram como figuras históricas. Não nos ficam dúvidas de que todos eles, à sua maneira e com os seus conhecimentos, virtudes e defeitos, procuraram servir o seu País, sabendo-se, porém, que nem sempre a expressão prática dessa vontade foi suficiente ou eficiente e casos houve em que tal se revelou mesmo contraproducente. Vem a propósito, citando Ortega Y Gasset, dizer que «o homem nunca está só, é sempre ele e a sua circunstân-

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cia», entendendo-se por circunstância tudo o que material e espiritualmente o rodeia, não só o imediato, mas igualmente o remoto. Daí a importância das resenha históricas individuais que aqui se deixam. Interessou-nos sobretudo fazer sentir que, no que respeita às entidades em apreço, a circunstância é simultaneamente do domínio público e do domínio privado e não havendo, por impossível, uma separação estanque desses dois planos, há que estudar e interpretar a interacção existente. Paralelamente e como componente também importante do ponto de vista da historiografia, fica o desnudamento de aspectos menos conhecidos da vida destes homens, que se notabilizaram e fizeram história durante esse período a que chamamos Primeira República Portuguesa.